Em um momento onde o crédito agro é marcado por maior seletividade e avanço da inadimplência rural, conhecer os riscos faz toda a diferença. É nessa armação complexa que a fintech mineira Nagro quer escalar sua carteira de crédito e sua plataforma de gestão de risco. E dois gigantes do setor financeiro compraram a ideia.

A empresa acabou de levantar R$ 50 milhões em uma rodada do tipo Série B, liderada pela Rabo Partnerships, do holandês Rabobank, e da Itaú Ventures (que já era investidor através da antiga Kinea Ventures), do Itaú.

Focada em emprestar recursos a pequenos e médios produtores rurais (que faturam desde R$ 500 mil a R$ 20 milhões por ano) de forma totalmente on-line, via aplicativo, a empresa chamou a atenção de investidores e de players do mercado nos últimos anos por digitalizar e agilizar um processo que é reconhecidamente tido como burocrático, conseguindo liberar crédito em 48 horas, em média.

Segundo explicou ao AgFeed o cofundador da Nagro, Gustavo Alves, a ideia é crescer os dois negócios da empresa: a vertical de crédito, que hoje conta com dois Fiagros que somam R$ 120 milhões, e também a plataforma de risco B2B chamda AgRisk.

Na vertical de crédito, a meta é desembolsar R$ 200 milhões para pequenos e médios produtores, um avanço frente aos R$ 115 milhões de 2025.

"Daqui de Uberlândia, já fizemos mais de 10 mil operações com mais de 6,5 mil produtores. São mais de R$ 700 milhões desembolsados em crédito, um aprendizado muito grande", cita outro cofundador da Nagro, Leonardo Rodovalho.

A ideia é voltar a acelerar os motores depois de um 2025 marcado por uma marcha mais lenta. Isso porque ao final de 2024, os dois fundos rodavam a casa dos R$ 200 milhões, mas a empresa foi reduzindo a carteira diante do cenário de inadimplência que assombra o agro.

Para isso, trazer o Rabobank para o quadro foi muito importante, destacou Rodovalho. “Acreditamos que o futuro do crédito no agro passa por tecnologia, dados e governança. A Nagro reúne esses elementos com disciplina e visão de longo prazo, exatamente o que o setor exige neste ciclo”, afirmou, em nota, David Gerbrands, CEO interino da Rabo Partnerships.

"O momento é desafiador e por isso é necessário cada vez mais ter dados. Mesmo com essa crise, vemos um cenário positivo para 2026 e 2027, com juros mais baixos e margens voltando a melhorar. O produtor não está mais fazendo muitos investimentos em terra e maquinário, está mais consciente na operação", acrescentou o Leonardo Rodovalho.

O portfólio dos fundos é diversificado, com mais de 40 culturas e dividido entre produtores de todos estados do País. A maior exposição ainda é na soja, com cerca de 25% da carteira, seguida por pecuária de leite e pecuária de corte. Como não poderia deixar de ser em Minas Gerais, o café também tem destaque na carteira.

Além dos fundos, a fintech também atua tokenizando dívidas de produtores rurais. A tokenização nada mais que é a representação digital de um ativo existente no mundo real - no caso da Nagro, a CPR - em uma plataforma que utiliza a tecnologia blockchain.

A ideia da fintech é que investidores pessoas físicas consigam investir no agronegócio de forma mais fácil, comprando tokens a partir de R$ 25 dentro de uma plataforma da tokenizadora Liqi.

A empresa nasceu da vertical de crédito e decidiu focar em um mercado pouco assistido por grandes instituições financeiras pela expertise familiar dos fundadores - Rodovalho, Alves e Vinícius Dutra, CTO -, que têm pais produtores rurais. Nos últimos tempos, transformou sua modelagem de risco em um negócio a parte dentro da empresa através do AgRisk.

Gustavo Alves cita que são 1,4 mil clientes na AgRisk, sendo praticamente metade revendas de insumos, mas também conta com gigantes industriais como Mosaic, UPL, ICL, cooperativas como Coopercitrus e bancos como o AL5 Bank, da Amaggi, e o Banco Cargill.

A meta para 2026 é ultrapassar os 2 mil clientes. "Nascemos como estruturador de operações, mas a AgRisk entrou para integrar os ciclos da jornada de crédito", cita Alves.

A ideia, impulsionada pelos acionistas que têm suas raízes no mundo do crédito, é plugar serviços financeiros que apoiem a gestão de risco. Para além de linhas de crédito, Alves cita que a ideia é trazer a possibilidade de funcionalidades como emissão de contratos e boletos para os clientes.

Vinicius Dutra, cofundador que atua como CTO das duas verticais, cita que a empresa tem feito testes com IA para otimizar cada vez mais os processos.

"Verticalizando a operação dentro do software conseguimos trazer mais governança no processo de concessão de crédito. Abarcamos essa jornada de forma customizada e atendemos de ponta a ponta, agora trazendo novas funcionalidades", disse.

Resumo

  • A Nagro levantou R$ 50 milhões em uma Série B liderada por Rabo Partnerships e Itaú Ventures para escalar crédito e gestão de risco
  • A fintech quer desembolsar R$ 200 milhões em 2026, acima dos R$ 115 milhões de 2025, após reduzir a carteira diante do avanço da inadimplência rural
  • A plataforma AgRisk soma 1,4 mil clientes e é a outra alavanca de crescimento, atendendo revendas, indústrias, cooperativas e bancos do agro