Fundada na Argentina há 10 anos, acelerada pelo principal fundo de biotecnologia global na Califórnia, citada como case de sucesso pelo presidente hermano Javier Milei e de olho no agro brasileiro. Em síntese, essa é a história da startup Beeflow, que desenvolveu uma tecnologia que "treina" abelhas e vende uma polinização localizada como serviço a produtores.
Dando nome aos bois - ou melhor, às abelhas - a companhia foi fundada pelo argentino Matías Viel, um executivo de mercado, em 2016, junto do cientista Walter Farina, um pesquisador também argentino que passou sua trajetória acadêmica estudando o cérebro, neurônios e sistemas de comunicação das abelhas.
Logo nos primeiros anos a empresa foi para a Califórnia, nos EUA, onde passou pela aceleradora IndieBio, e onde mantém sua sede até hoje. Depois de anos de testes, chegou ao mercado por volta de 2019, com foco nos berries: mirtilo, cereja, amora e framboesa.
“Chamamos nossa tecnologia de polinização 3.0. Antes, o produtor deixava a natureza agir ou simplesmente contratava colmeias sem nenhum tipo de gestão. Nós trabalhamos com treinamento das abelhas e gestão de dados para direcionar a polinização para a cultura específica”, afirmou Felipe Cresciulo, country manager da Beeflow no Brasil ao AgFeed.
O que ocorre na prática é que a tecnologia da empresa consegue instruir os insetos a polinizarem somente determinadas folhas de uma determinada cultura durante o período de florada. Sendo assim, uma espécie de "polinização as a service".
A empresa utiliza compostos voláteis das flores para condicionar os insetos a priorizarem determinada cultura durante o período de florada. Dependendo do cultivo e da região, a empresa cita que a eficiência pode ser até 2,7 vezes maior do que no modelo tradicional de polinização, segundo cálculos próprios.
Além do direcionamento, a Beeflow monitora em tempo real o nível de atividade das colmeias e ajusta a estratégia quando necessário. “O produtor muitas vezes paga por um serviço e descobre depois que perdeu 30% ou 40% das colmeias por clima ou outros fatores. A gente mede, acompanha e corrige”, disse Cresciulo.
Agora é momento de reforçar a atuação no País. Cresciulo conta que conheceu o CEO e fundador da Beeflow há alguns anos, quando a empresa buscava captar investimentos para sua Série A.
Na época, o atual líder da operação brasileira ainda atuava no BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), liderando os investimentos de venture capital no Brasil e América Latina. "Sempre olhei muito para os biológicos, mas polinização não era algo muito falado".
Felipe Cresciulo se juntou à Beeflow em abril do ano passado para estruturar uma equipe e ir ao mercado, e depois de um entendimento dos cultivos. Até então, a operação brasileira era tocada com equipe global.
A chegada da Beeflow ao Brasil começou pelo Cerrado mineiro, a partir de uma parceria com um produtor de laranja interessado em testar o potencial da polinização direcionada.
Entre 2022 e 2023, a empresa conduziu estudos para medir o impacto no pegamento, ou seja, o percentual de flores que se transformam em frutos. Em ambientes normais, cerca de 28% das flores vingam. Com polinização manual, esse índice pode chegar a 40%.
“Vimos resultados promissores na laranja e fizemos os primeiros projetos comerciais em 2024, repetidos em 2025. Agora estamos capturando esses dados e estruturando a operação local”, afirmou o executivo. Depois da laranja, o foco passa a ser café, tanto arábica quanto conilon.
O Brasil cultiva cerca de 2 milhões de hectares de café arábica e 400 mil hectares de conilon, cultura que vem expandindo cerca de 6% ao ano. Segundo Cresciulo, embora existam estudos - inclusive da Embrapa - mostrando ganhos médios de produtividade com polinização assistida, a prática ainda não é amplamente utilizada no País.
“O café conilon está em uma fase muito positiva, com produtores tecnificados e expansão de área. É um cultivo grande o suficiente para fazer diferença no nosso portfólio”, disse.
A empresa também avalia oportunidades em maçã, melão e outras frutas e hortaliças, segmentos onde a polinização comercial já é mais difundida em mercados como Estados Unidos e México. Por aqui, ainda vê potencial inclusive em culturas mais difundidas, como na soja.
"A região do Cerrado mineiro como um todo é interessante, e na região de Uberlândia e Patos de Minas, temos girassol, que já conhecemos dos EUA, e também soja. Em São Gotardo, tem o abacate. São muitas opções para explorar em algum momento", disse o country manager.
Modelo de negócio
A Beeflow cobra por hectare atendido e oferece um pacote completo que inclui colmeias, sempre feito em parceria com apicultores locais, além do monitoramento e gestão da polinização.
Para dar tração à operação, a startup levantou, em 2019, US$ 3 milhões em rodada seed, que contou com a participação da Ospraie Ag Sciences, o braço de venture capital da Ospraie Management e por um fundo de hedge de commodities agrícolas liderado por um ex-diretor administrativo da Tiger Management, Dwight Anderson.
Anos depois, em 2021, levantou US$ 8,3 milhões na Série A, que teve participação de investidores como o bilionário Steve Jurvetson, membro do conselho da Tesla e da SpaceX.
Hoje, além dos EUA, a empresa opera em Peru, México, Chile e Brasil. A lógica geográfica ajuda a reduzir a sazonalidade: enquanto a primavera ocorre no hemisfério norte, o sul entra em período de florada meses depois.
“O Brasil e o Chile são mercados emergentes para nós. O potencial está em culturas grandes, como café e laranja. Se acertarmos o produto nesses cultivos, o impacto é relevante”, afirmou Cresciulo.
2026 será, segundo o executivo, um ano de formação da equipe brasileira e abertura de frentes comerciais. A estratégia não passa por dezenas de produtores, mas por poucos grupos de grande porte.
“Não são 70 produtores. São poucos, mas grandes. Estamos começando com projetos comerciais em café e avaliando outras culturas. É um ano de estruturação e expansão”, disse.
Resumo
- A Beeflow desenvolveu uma tecnologia que “treina” abelhas com compostos voláteis das flores e vende polinização direcionada como serviço
- Após testes em laranja no Cerrado mineiro, a empresa agora foca em café arábica e conilon — além de avaliar maçã, melão e outras culturas
- A startup já opera em cinco países e aposta no mercado brasileiro como peça-chave para seu crescimento na América Latina