Assim que junho começou, o executivo Rafael Viana Marques deu um tiro de largada para uma corrida contra o tempo. Ele tem seis meses, segundo sua própria meta, para sair do zero e levantar R$ 150 milhões junto a investidores para um ousado projeto que vem construindo há cerca de um ano no Mato Grosso do Sul.

Marques atua no mercado financeiro, como sócio e CEO do Philo Invest, uma boutique carioca de investimentos e gestão de fortunas que atua como escritório associado ao BTG Pactual.

Mas nos últimos meses tem feito frequentes viagens a Campo Grande e outras cidades do estado usando o crachá de fundador e CEO da VivaTerra Ventures, gestora recém-criada com inspiração na Reservoir, uma das novas estrelas do venture capital voltado a investimentos em agtechs na Califórnia.

O primeiro fundo da VivaTerra foi lançado no dia 1° de junho passado. O objetivo é captar os recursos que serão, em um futuro breve, aportados em startups em estágio inicial, preferencialmente de segmentos como robótica, gestão de dados, Inteligência Artificial e biotecnologia.

Antes mesmo dos primeiros reais serem captados, Marques e o sócio Daniel Deivisson, um empreendedor serial com investimentos em empresas de tecnologia, já avançaram na estruturação do modelo que, a exemplo do que aconteceu com a Reservoir nos Estados Unidos, pode diferenciá-los de outras iniciativas no universo de VC no agro.

“Sempre estive do lado da análise dos portfólios, dos gestores, dos ativos, e dos fundos de venture capital que estavam dentro das carteiras”, diz Marques. “Há pouco mais de tomei a decisão de partir para o outro lado e agora passar a construir essa história”.

O ponto de partida foi mesmo o estudo do modelo do VC americano, fundado por Danny Bernstein, um ex-executivo do Google. Ele acreditava haver uma lacuna entre a pesquisa e o desenvolvimento de tecnologias avançadas e sua aplicação comercial, sobretudo em setores como a agropecuária. E investiu para acabar com elas.

Para fazer isso, mais do que uma simples firma de investimento de risco, Bernstein criou um sistema em que convivem o fundo de VC, um estúdio de robótica (Reservoir Engineering) e uma rede de incubação de startups (Reservoir Farms).

Após uma seleção de agtechs com propostas que consideravam promissoras, ele as leva para uma fazenda própria, adquirida para servir de campo de testes e validação das tecnologias. Ali, dá apoio técnico e inputs para que saltassem de ideia a negócio. As bem-sucedidas fazem jus a cheques para se lançarem ao mercado.

“O projeto cresceu descobrindo essas empresas que eram escaláveis, utilizavam uma boa tecnologia e atendiam uma grande dor do mercado. Então eles iam lá com capital e as aceleravam ou formatavam um club deal, trazendo investidores para o projeto”, conta Marques.

“A gente começou a pensar como é que a gente podia tropicalizar esse modelo, como trazer para o Brasil, aproveitando essa tese”.

A primeira opção avaliada foi implantar algo semelhante na fazenda de uma investidora cliente da Philos, que produzia avocado e soja no interior de São Paulo e se dispôs a oferecer parte de sua propriedade para que a VivaTerra instalasse ali a sua “farm lab”.

O plano mudou, entretanto, quando, em um jantar em São Paulo com um representante do governo do Mato Grosso do Sul, Marques e Deivisson falaram do projeto.

Imediatamente, ouviram do interlocutor: “Acho que esse projeto não é para o interior de São Paulo”. Ele sugeriu, então que os sócios fossem a Campo Grande apresentar a ideia ao governador Eduardo Riedel.

Na semana seguinte, Marques já estava na capital do MS, sendo recebido por Riedel. O governador ouviu o projeto e, de imediato, abriu a porteira do estado. Sugeriu, de início, uma conexão com a Fundação MS, entidade voltada para a pesquisa agropecuária que tem como mantenedores 240 produtores.

E então contou que, junto com eles, havia visitado algumas iniciativas em diferentes países, entre eles a Reservoir. Segundo Marques, o modelo encantou a todos e eles voltaram com a intenção de montar uma estrutura semelhante no estado.

“O timing foi perfeito”, aponta.

A partir desse encontro, a ideia foi ganhando forma. A primeira decisão foi dividir a operação em duas partes. Uma seria o próprio veículo de investimento, um fundo da VivaTerra. Outra, a estrutura que cuidaria do processo do investimento, selecionando e validando as start-ups incubadas, batizada de AgroValley MS, que Marques considera o grande diferencial do seu projeto.

É nessa segunda frente que estarão alocadas as “farm labs” inspiradas na Reservoir – que hoje é uma parceira internacional do projeto. A diferença, aqui, é que ao invés de uma propriedade adquirida para esse fim, como os americanos fizeram, o AgroValley firmou parcerias para utilizar áreas de testes em fazendas experimentais.

A primeira dessas parcerias foi firmada justamente com a Fundação MS, que mantém uma área par testes de novas tecnologias no município de Maracaju. O acordo vai, no entanto, além do uso da terra.

“A gente entendeu que para evoluir precisava de uma validação técnica”, afirma Marques. A Fundação MS, assim, será justamente a validadora das tecnologias inseridas no AgroValley.

Uma segunda parceria foi estabelecida posteriormente com a Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul (UEMS), que também possui uma fazenda experimental, além de produzir pesquisas acadêmicas com potencial para ganharem escala comercial.

“A gente entendeu que funcionava muito para o nosso modelo se aproximar da parte acadêmica”, diz. “O AgroValey é muito mais do que um ambiente do processo de investimento, é um ecossistema de inovação para o agro que a gente está montando”.

O ecossistema terá uma base: a sede que a AgroValley MS está instalando em um imóvel localizado em uma região nobre de campo Grande. Ali, os diversos atores ligados ao projeto poderão conviver, trocar experiências e contar com apoio de outros potenciais parceiros, como o Google, com quem os sócios da VivaTerra já mantém relações em outros projetos.

O local, uma casa com mais de 1 mil metros quadrados de área, está passando por uma ampla reforma, que o transformará em um ambiente tecnológico, aberto e colaborativo. Segundo Marques, ele deve ser aberto oficialmente dentro de quatro ou cinco meses.

“Nem sempre as startups que vão participar do dia a dia lá vão estar incubadas. Às vezes elas querem participar do ecossistema, da discussão. Também queremos nos aproximar dos produtores, levar empresas como o Google, para levar conhecimento. Fazendo um paralelo, vai ser um Cubo do agro, para a gente trazer assuntos relevantes para dentro do ecossistema”.

Essa estrutura será administrada com recursos de mantenedores, que, em contrapartida, devem ter benefícios dentro do ecossistema, como a participação em um conselho consultivo e eventualmente prioridade para fazer aportes pre-seed, um recurso que deve viabilizar a etapa de incubação das agtechs.

Isso, é claro, seria revertido em participação no momento em que a empresa receber seu primeiro cheque com o investimento seed vindo do fundo da VivaTerra.

“A gente quer, de fato, estar entre os primeiros cheques da empresa. Temos uma grande possibilidade de criar conexões com empresas que possam ser o segundo ou terceiro cheques”, diz Marques.

As primeiras incubadas

Antes mesmo disso, entretanto, o AgroValley já opera, liderado por Julio Brant, sócio local do projeto, analisando as primeiras agtechs candidatas a serem encubadas. Como conselheiro, a entidade conta com o produtor e ex-presidente da Fundação MS, Luciano Maracaju Mendes.

“Temos umas duas empresas dentro do processo de onboarding, mas incubadas de fato a gente tem duas”, afirma Marques. Uma delas é a Carbon Vantage, um marketplace para créditos de carbono. De acordo com Marques, a start-up usa diferentes tecnologias, de satélites a um sistema de ondas, para desenvolver um modelo automático de aferição de captura de carbono pelo solo.

“Eles conseguem até fazer essa aferição em até 3 metros de profundidade através de um algoritmo, para ver o quanto aquele determinado pedaço de terra e está capturando de carbono de alta integridade”, diz Marques.

Equipes da UEMS colaboram com o projeto, verificando em campo os números aferidos, de forma a determinar a acurácia da tecnologia. “E aí entra o nosso modelo da validação”.

A outra agtech que já passou na primeira peneira é a Kerow, voltada à pecuária de precisão. A startup surgiu dentro da UEMS e desenvolve sistemas de contagem, rastreabilidade e até identificação de doenças por biometria através de imagens de câmeras simples.

Marques diz que a empresa se encaixa em uma das teses da VivaTerra, que vê a rastreabilidade influenciando de maneira muito forte os mercados globais de carnes e proteínas. “Quanto mais preciso você for e mais identificável, mais vai ajudar a ter um valor agregado para o gado no final na hora da venda”, explica.

Em busca de investidores

O desafio do momento para Marques e os sócios é trazer capital para o fundo da VivaTerra. Ele está otimista de que é possível levantar os R$ 150 milhões desejados em apenas seis meses, apesar de admitir que o momento econômico, com a taxa Selic alta desestimulando a alocação de recursos em frentes de maior risco.

Como trunfos a seu favor, ele elenca a falta de portfolios alternativos de qualidade no mercado financeiro, a percepção cada vez maior no mercado da relevância de temas como transição energética e segurança alimentar, com relação direta com o agro, em momentos de crises geopolíticas e até mesmo a atual conjuntura do estado do Mato Grosso do Sul, com crescimentos expressivos impulsionados por investimentos bilionários em setores como a produção de celulose.

Seu foco, nesse trabalho de prospecção de investidores, é variado. “Produtores rurais, family offices, grandes casas ou bancos que tem os chamados fundos de fundos… Acho que existe o interesse desse pessoal em diversificar a alocação”, aposta.

O ticket mínimo para o investimento é de R$ 1 milhão de reais, com egras específicas para potenciais investidores âncora, acima dos R$ 15 milhões.

“A gente tem algumas conversas com dois possíveis âncoras no Brasil e uma conversa muito boa com o dinheiro internacional do Canadá e dos Estados Unidos. Então, o fundo vai ser formatado para receber recursos tanto lá de fora quanto aqui de dentro do Brasil”, afirma.

Resumo

  • A VivaTerra Ventures quer captar R$ 150 milhões em seis meses para investir em startups voltadas ao agronegócio
  • Inspirada na americana Reservoir, a iniciativa criou o ecossistema AgroValley MS, com áreas de testes, validação tecnológica e conexão entre startups, produtores, universidades e investidores
  • As primeiras startups incubadas são a Carbon Vantage e a Kerow, enquanto a gestora negocia aportes com investidores brasileiros e internacionais