Dois dígitos aqui, três dígitos ali… O termo crescimento vem acompanhado desses complementos a cada vez que aparece na conversa com Henrique Bezzan, diretor de Negócios da Gênica, companhia fabricante de bioinsumos sediada em Piracicaba (SP).

É uma prosa com tom diferente do que se tem ouvido de outros executivos de empresas do segmento, em geral queixosos em relação às dificuldades conjunturais que têm afetado indústria e varejo de insumos agrícolas.

A Gênica não passou ilesa pelo cenário de juros altos, preços de commodities em queda e produtores com margens comprimidas. Mas, de certa forma, fez desse limão uma limonada e pode fechar 2025, quando completou seu décimo aniversário, com sabor de vitória.

“De fato, nós vamos fazer um ano bem legal com esse crescimento de dois dígitos”, afirma Bezzan. “A gente imagina que fique perto de três vezes o crescimento do mercado”.

A conta da empresa é a de que o setor de biológicos tenha se expandido um pouco abaixo 10% no ano passado (ainda na casa de um dígito, portanto).

Assim, em receita, a estimativa da Gênica é de um crescimento de 30%. Os números exatos ainda não foram fechados e nem costumam ser revelados, mas o certo, segundo Bezzan, é que ficarão acima dos R$ 200 milhões.

Dois anos atrás, a empresa estimava fechar 2024 com R$ 230 milhões. Portanto, com o mercado menos aquecido, foram necessários dois anos para atingir essa marca.

Ainda assim, a companhia tem conseguido andar rápido. O orçamento para 2026, que estava sendo fechado ao longo da virada do ano, estima pelo menos manter o ritmo atual, o que colocaria uma marca nova no radar.

“Vamos fechar 2026 com 300”, crava o executivo. No caso, R$ 300 milhões em receita.

O que torna os números mais relevantes é a forma como são obtidos. Diante da freada brusca do mercado de insumos, a companhia adotou uma estratégia “menos é mais”. E deu resultado.

Na lista do menos entraram vários itens relevantes nos negócios da empresa, além do tradicional corte de despesas. A base do plano, segundo Bezzan, estava em fechar o foco e manter a disciplina.

Assim, ao invés de 19 produtos no portfólio, a Gênica passou a trabalhar com apenas 9. “A estratégia não era ser a maior, mas a mais confiável companhia de biológicos do mercado, mantendo apenas os produtos que nos diferenciam”.

De acordo com Bezzan, foram cortados das ofertas da empresa todos os produtos mais commoditizados, que já eram oferecidos por concorrentes.

A ideia era abrir caminho para o crescimento futuro, já que a empresa prevê trazer ao mercado pelo menos dois produtos inéditos por ano. No ano passado, a Gênica teve dez registros aprovados pelo Ministério da Agricultura, maior número obtido por uma companhia do segmento.

“Temos mais pipeline do que capacidade de lançamento”, diz Bezzan.

O resultado, entretanto, apareceu de imediato. Ainda em 2025 a rentabilidade cresceu “três dígitos” – a estimativa é de um ganho de até 300% no Ebitda (sigla em inglês para lucros antes de taxas e amortizações).

Isso, mesmo com o corte de alguns produtos que entregavam boas margens para a empresa. “A margem era apenas um dos critérios, não o mais decisivo. Não fizemos a seleção com o olhar apenas nos que entregavam mais, mas com foco no posicionamento estratégico e nas sinergias”, explica.

A crença nos R$ 300 milhões em 2026 vem em linha com essa estratégia. No ano passado, a companhia fez dois lançamentos – o Agathos, biofungicida foliar multiculturas de alta performance, e o Rally, solução voltada à eficiência no uso da água, que alcançará mais de 1,5 milhão de hectares tratados já no primeiro ano.

Logo no início deste ano, uma nova aposta será feita em um bioinseticida voltado para sugadores, como percevejo, cigarrinha da cana e do milho.

“E, mais para o meio do ano, vamos lançar uma tecnologia nova que vai ser muito importante para o nosso futuro, crescendo muito em biofungicidas”, anuncia.

“É uma área em que vamos investir muito para fincar uma bandeira mais forte em 2026, porque em 2027 vamos vir com mais dois biofungicidas muito disruptivos”.

Distribuição estratégica

Na ponta da distribuição, o corte foi também relevante. Segundo Bezzan, a Gênica terminou 2025 com 50% menos distribuidores comercializando seus produtos.

Nesse caso, a escolha foi feita com base em reciprocidade, de reforçar a aposta naqueles que apostaram mais nos seus produtos, oferecendo margens maiores àquelas que trazem melhores resultados à empresa.

As revendas que permaneceram como parceiras foram divididas em categorias, em um trabalho de segmentação que trouxe resultados expressivos.

Dentro do segmento mais premium, segundo a sua classificação, Bezzan disse ter conseguido crescer 200% em receitas. “No grupo da distribuição como um todo, o crescimento é de quase 50%”.

Bezzan acredita que há “uma oportunidade absurda para o distribuidor que viveu anos difíceis, margens muito apertadas, problemas de caixa e problemas de crédito muito fortes em 2025”.

“Em 2026 não vai ser diferente, ainda vai seguir muito apertada essa conta. Mas o biológico traz a possibilidade de o distribuidor compor a oferta dele. Muitas vezes o biológico tem uma participação pequena na receita, mas dá uma participação bem maior no lucro. Então a gente aposta muito nisso e para ter essa construção do valor, não tem outra forma que não seja com reciprocidade”.

Nos últimos dois anos, por exemplo, a Gênica negociou com as parceiras a redução dos estoques de passagem. De 2024 para 2025, houve uma queda de 70%. Agora, outros 10%. Da mesma forma, a redução na devolução de produtos pelos distribuidores caiu 70%.

O canal de vendas via distribuidores representa a maior parte do faturamento da Gênica, que também atua com vendas diretas junto a grandes clientes, principalmente no setor sucroenergético.

“Quando eu tiro o valor das usinas, 65% a 70% do resultado é feito via distribuição”, aponta.

De fato, a cana-de-açúcar tem sido um dos pilares da empresa desde o seu nascimento, em 2015. Hoje, a empresa diz ter 40% de seus negócios vindos da cultura, na qual afirma ser dona de um market share de 16% no mercado de biológicos.

“São 800 empresas de biológicos no Brasil. Ter isso tudo em um mercado tão pulverizado é fruto de um trabalho que vem sendo feito há alguns anos e a gente segue apostando nisso”.

Soja, milho e algodão são as outras culturas que têm o foco da Gênica, aquelas que estarão no centro dos lançamentos futuros da companhia.

Além disso, a empresa avalia “outras avenidas” para negócios, de forma a dar fluxo para o excedente de portfólio gerado pela sua área de inovação. Alianças industriais ou licenciamentos de produtos, por exemplo, podem ser fechados nos próximos meses.

“Tem muitas oportunidades nesse caminho, até porque tem muita gente querendo entrar no setor. Estamos em um ambiente de inovação muito fértil. Vai muita gente lá querendo entender do portfólio, o que a gente tem de futuro, buscando alianças”, diz Bezzan.

Livre das RJs

Graças à seletividade na relação com parceiros, ele afirma que a Gênica “não entrou em nenhuma RJ” de distribuidores. A decisão de não trabalhar com as grandes redes já havia sido tomada anos antes da atual onda de recuperações judiciais.

Os níveis de inadimplência também têm se mantido baixos, de acordo com o executivo, com problemas apenas pontuais. Ainda assim, a área de crédito da empresa ganhou reforços dentro do processo de reorganização interna.

Foi contratado um gestor específico para o setor, com mais de 15 anos de experiência.

Uma das questões que pega todo mundo no setor de insumos é que, no fundo, é a indústria que financia, o que acaba oferecendo o crédito.

Além disso, seja na gestão de risco, seja na originação de capital para financiar as vendas aos clientes, Bezzan afirma que a Gênica tem contado com apoio relevante dos acionistas. O captable da companhia inclui nomes de peso como a Mitsubishi Corporation, a Mosaic e a Faro Capital, que administra os interesses da Nitro, também fabricante de insumos que tem participação relevante na empresa.

“Temos uma turma muito forte junto com a gente, o que nos possibilita uma série de estruturações e ferramentas”, afirma. “O conselho, que reúne representantes desse grupo, nos ajuda muito em como ter toda essa estruturação financeira bem equilibrada”.

A mais recente rodada de investimentos realizada pela empresa ocorreu em junho de 2024, marcando a entrada da Mitsubishi para o corpo de acionistas. Na ocasião, a Gênica levantou R$ 68 milhões.

Atualmente, de acordo com o diretor, a empresa não tem previsão de voltar ao mercado em busca de mais recursos em troca de participação acionária.

“A menos que apareça algo muito diferente, algum investidor estratégico, que faça sentido, mas não simplesmente pelo capital”, ressalva.

“Tem que ser algo maior, que vá agregar para o negócio, porque esse é um momento bem importante da empresa, de dar um passo mesmo, de a gente ir para um outro lugar com ela”.

Esse lugar, segundo ele mesmo define, fica um patamar acima na escala da receita. “Estamos num momento de consolidação, é a hora que a gente precisa passar a arrebentação para poder jogar outro jogo, que é o das empresas de R$ 500 milhões, R$ 1 bi. Esse caminho exige toda essa estruturação, uma estratégia bem fundamentada”.

Resumo

  • A Gênica reduziu portfólio e distribuidores para ganhar foco, crescer 30% em receita em 2025 e elevar o Ebitda em até 300%
  • Estratégia prioriza produtos diferenciados, inovação contínua e lançamentos inéditos, com forte aposta em biofungicidas
  • Com base sólida, baixa inadimplência e acionistas estratégicos, a empresa mira R$ 300 milhões em 2026 e patamares ainda maiores no futuro

Henrique Bezzan, diretor de Negócios da Gênica

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