A SLC Máquinas, maior rede de concessionárias John Deere do Rio Grande do Sul, vive um momento de expectativa no mercado financeiro.

A empresa, pertencente ao grupo SLC, controlado pela família Logemann, abriu negociações com detentores de um CRA emitido em agosto de 2024 e convocou uma assembleia para o dia 19 de fevereiro, na quinta-feira pós-carnaval, quando deve ser votada a aprovação de um waiver. Se aprovado, evitará um possível vencimento antecipado dos títulos.

A SLC Máquinas captou R$ 600 milhões na ocasião, em uma operação dividida em três séries de R$ 200 milhões.

O movimento atual indica que a empresa ou quebrou ou projeta a quebra de um de seus covenants - cláusulas contratuais que funcionam como uma "barra de segurança" para o investidor.

No edital de convocação, a companhia cita especificamente o risco de descumprimento de cláusulas referentes ao balanço apurado em 31 de dezembro de 2025.

Apesar disso, não há nenhum motivo para pânico. Um gestor que possui papéis encarteirados em um fundo citou ao AgFeed que a situação é "tranquila" e considera apenas um "sinal amarelo".

"O cenário de mpaquinas e implementos agrícolas tem sofrido e muitas dessas empresas que emitiram CRAS tiveram algum rompimento de covenant. Nesse caso, em um dos indicadores de alavancagem", disse, sob condição de anonimato.

De acordo com os documentos iniciais da oferta, a SLC Máquinas se comprometeu a cumprir três métricas principais no encerramento de cada exercício social. A primeira exige que o Índice de Liquidez Corrente (aquilo que a empresa tem a receber no curto prazo frente ao que tem a pagar) seja igual ou superior a 0,9 vez.

A segunda limita o endividamento total a 2,5 vezes o patrimônio líquido da companhia. Já o terceiro pressupõe uma alavancagem líquida que não ultrapasse 4 vezes. O indicador é medido pela relação entre a dívida líquida e o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, amortização e depreciação).

Os documentos da época da emissão também indicavam um histórico de operação no limite dentro da rede de concessionárias.

No próprio prospecto da emissão de R$ 600 milhões é dito que a SLC Máquinas havia descumprido índices financeiros em contratos com o Banco Itaú e o Banco Safra no fechamento de 2023. Naquela época, os bancos concederam o waiver, permitindo que as dívidas continuassem classificadas no longo prazo.

De acordo com o gestor ouvido pela reportagem, trata-se de um waiver prévio - ou seja, ainda não houve rompimento de nenhum covenant -, mas é possível que a empresa tenha identificado, ao apurar o balanço de 2025, que ele seria rompido.

Essa antecipação é mais um sinal de que a situação não é grave, segundo ele. "Bancos que possuem os papéis junto com a empresa já chamaram credores para conversar, mostraram uma apresentação setorial, foram super profissionais. Deram um panorama do setor e mostraram o que tem sido feito, passaram muita tranquilidade", prosseguiu.

Essa é a segunda convocação feita pela Opea, securitizadora responsável pela emissão do CRA. Ao final de dezembro a empresa havia chamado os "crasistas" para uma assembleia, que ocorreu no dia 9 de janeiro, com o mesmo tema: o pedido de concessão de waiver por parte da empresa.

Acontece que, segundo a ata dessa reunião, só estavam presentes 1,79% dos titulares do CRA, quórum insuficiente para realizar a votação. O mínimo exigido para iniciar a votação é de 30% dos detentores dos títulos e, para aprovar o tema, basta a maioria simples: 50% mais um voto.

A falta de quórum se deu pela pulverização natural de um título como este - encarteirado por grandes bancos, fundos de investimento e por pessoas físicas.

Um investidor pessoa física dos CRAs que conversou com o AgFeed contou que recebeu o edital de convocação para a assembleia através do banco em que é correntista. Segundo ele, o banco recomendou o voto favorável à concessão do waiver.

As séries dos CRAs emitidos previa um pagamento de juros semestral - um em agosto e outro em fevereiro - e amortizações mais gordas a partir de 2028. A SLC Máquinas honrou com os compromissos no ano passado e retornou cerca de R$ 12 milhões por semestre aos investidores. O relatório mais recente da administração, de janeiro deste ano, citava que o CRA estava adimplente.

Geralmente, esse tipo de waiver prevê uma contrapartida, ou um acréscimo em relação ao saldo devedor ou um acréscimo nos juros até a situação se normalizar. Os CRAs preveem uma remuneração de CDI + 1,10% aos investidores.

O edital e outros documentos disponíveis no site da Opea não entram no detalhe nem do porquê a empresa está pedindo o waiver nem em relação a possíveis contrapartidas.

"A situação muda quando é uma empresa de fato quebrada, mas quando é só um caso de sinal amarelo, como este, a empresa paga um fee e vida que segue", disse o gestor, que afirmou ter ouvido de bancos que estão alinhando a assembleia que a próxima reunião já tem quórum suficiente para ser instalada.

O setor de máquinas agrícolas voltou a crescer em 2025, é verdade, mas em uma expansão de 7,4% impulsionada por máquinas de menor porte - que não é o carro chefe da John Deere -, e voltou a crescer após dois anos em que as vendas recuaram dois dígitos em sequência.

Ao mesmo tempo, a SLC Máquinas é uma empresa em momento de consolidação após uma franca expansão. A companhia triplicou sua presença no Rio Grande do Sul desde 2019 ao comprar outras redes, de acordo com o CEO, Anderson Strada, que conversou com o AgFeed em abril do ano passado.

Na época, Strada reconheceu que o mercado exigia cautela, mas ressaltando a natureza cíclica do negócio. "Quem está nesse negócio precisa entender que existem os ciclos. Nós estamos num ciclo complicado agora, mas ele vai passar", afirmou na ocasião.

A companhia faturou R$ 2 bilhões em 2024 e projetava um "pequeno crescimento", em linha com a evolução do mercado geral de máquinas agrícolas, em 2025.

A empresa é uma controlada da SLC Participações, a mesma holding que é dona de mais de 50% da SLC Agrícola, maior operadora de terras do País. Esse fato ajuda a dar mais tranquilidade ao gestor de fundos que possui os papéis e que conversou com a reportagem.

"Esse CRA tem o aval da SLC Participações, que inclusive aportou recursos na SLC Máquinas no ano passado, em uma sinalização importante de que confiam no business. E a SLC Máquinas é uma empresa que para de pé", disse.

"Vejo esse CRA como um exemplo estrutura robusta. Nem o vejo como um CRA da empresa de máquinas, mas sim da holding, já que é ela que carrega o risco. E a holding tem um resultado muito ancorado na parte agrícola", concluiu.

Resumo

  • Opea convocou crasistas para votar pela concessão ou não de waiver para CRA da SLC Máquinas. Movimento indica possível quebra de covenants
  • SLC Máquinas captou R$ 600 milhões em três tranches no CRA e honrou com o pagamento semestral de juros no ano passado
  • Credores se mostram tranquilos com a situação, citando que pedido de waiver foi prévio a qualquer rompimento de covenant e que mercado de máquinas mais difícil é a causa da alta na alavancagem