Se hoje a sigla SLC é reconhecida nacionalmente como sinônimo de grandes operações agrícolas, somando mais de 700 mil hectares cultivados por safra, sobretudo no Centro-Oeste e no Matopiba – no passado os gaúchos a associavam ao setor de máquinas, que deu origem dos negócios da família Logemann, na década de 1940.
O grupo foi o primeiro a montar colheitadeiras no País, no município gaúcho de Novo Horizonte. No fim dos anos 1990, deixou o negócio industrial, ao vender sua linha de produção para a montadora americana John Deere, com quem mantinha uma joint-venture. E se concentrou na operação da SLC Agrícola.
Nunca abandonou totalmente o negócio máquinas, uma paixão do clã dono da SLC. O grupo SLC ainda é dono de uma rede de concessionárias John Deere, a SLC Máquinas, que vem se expandindo nos últimos anos e se tornou a maior da marca no Rio Grande do Sul, alcançando um faturamento anual de R$ 2 bilhões.
A empresa possui hoje 22 lojas no estado, atendendo 404 dos 497 municípios gaúchos – um salto expressivo em relação a 2019, quando sua cobertura se limitava a 120 cidades.
"Antigamente, o mercado era bastante fragmentado. A John Deere chegou a ter 13 concessionários no Rio Grande do Sul", recorda Anderson Strada, CEO da SLC Máquinas, que assumiu o cargo em agosto do ano passado, depois de atuar como diretor comercial e de operações da empresa desde 2019.
A expansão da rede dos Logemann – que nasceu informalmente dentro da fábrica de equipamentos agrícolas em 1964, se transformou numa empresa independente em 1984 e passou a revender apenas produtos John Deere já na década de 1990 –, aconteceu nos últimos anos.
A transformação veio a partir de 2019, quando a então SLC Comercial comprou a Lavoro Máquinas Agrícolas, de Passo Fundo (RS), que pertencia ao empresário Erasmo Carlos Batistella, fundador e CEO da indústria de biocombustíveis Be8.
A partir da negociação, a empresa passou a se chamar SLC Máquinas e adicionou sete lojas à sua rede de concessionárias, ampliando presença principalmente no Norte e no Planalto gaúcho. Strada, que hoje comanda a rede de revendas da SLC, veio da Lavoro, onde era diretor-geral.
Há dois anos, em abril de 2023, a empresa fechou novo negócio, adquirindo nove lojas da concessionária Verdes Vales, consolidando sua presença na metade Norte do Rio Grande do Sul.
Após essas transações, a SLC Máquinas passou a dominar boa parte da operação da John Deere no estado, dividindo espaço com a Alvorada, que mantém 14 unidades, estabelecidas principalmente na metade Sul gaúcha.
A consolidação das concessionárias de máquinas agrícolas não se restringe ao Rio Grande do Sul e tem recebido estímulo da montadora em outras grandes regiões agrícolas.
Há um ano, por exemplo, a Primavera Máquinas, concessionária da John Deere em Mato Grosso pertencente ao Grupo RZK, ampliou sua atuação ao adquirir a Real Máquinas, de Goiás. No interior de São Paulo, o processo passa pela Tracbel, que criou uma empresa específica para gerir sua rede após aquisições.
Essa movimentação é estimulada pelo avanço tecnológico, pela necessidade de mais fôlego para investimentos e pela profissionalização das operações – muitas revendas ainda são empresas familiares e com faturamento na casa dos milhões, e não dos bilhões.
Nesse cenário, a SLC se encaixa perfeitamente na tese de consolidação da marca, tanto pela sua longa trajetória no setor quanto pela solidez financeira do grupo ao qual pertence – que fatura, por ano, R$ 9,3 bilhões e é dono da maior operadora de terras agrícolas do Brasil.
A expansão da SLC chama a atenção por acontecer em um período ruim de vendas de máquinas agrícolas, que vem de dois anos consecutivos de queda na comercialização, segundo estimativas da Abimaq.
"Quem está nesse negócio precisa entender que existem os ciclos. Nós estamos num ciclo complicado agora, mas ele vai passar. Precisamos estar preparados para, efetivamente, ter uma estrutura condizente para o ciclo bom", diz Strada.
A SLC também não ficou imune às dificuldades do segmento – ainda mais estando no Rio Grande do Sul, que tem registrado problemas em suas safras nos últimos anos. As vendas caíram 30% somente no ano passado.
“Entregamos geralmente 1 mil equipamentos e inclusive essa era a projeção para o ano passado. Mas terminamos com 700 equipamentos”, afirma Strada.
O faturamento do ano passado ficou em cerca de R$ 2 bilhões – há seis anos, era de R$ 1 bilhão. Strada pondera para o fato de que a receita naturalmente cresceu nos últimos anos a partir da absorção das lojas da Lavoro e da Verdes Vales.
A expectativa para 2025 é de um “pequeno crescimento”. Strada diz que ainda é cedo para cravar um número exato em virtude das condições da safra de soja – o estado anunciou, há poucas semanas, que houve quebra na temporada 2024/2025.
“A indústria está sinalizando 8% de incremento. Se nós botarmos na conta o que a indústria está comportando de crescimento para o Estado, temos que crescer nessa faixa de 8% a 10% também”, projeta Strada.
Consolidar a consolidação
Enquanto o setor de máquinas ainda patina, a SLC Máquinas agora entra em um segundo momento de sua estratégia de consolidação, plano previsto para ser executado entre 2025 e 2027.
Parte dessa estratégia envolve uma readequação da quantidade de unidades. Somente no ano passado, a empresa fechou sete lojas ao perceber que havia sobreposições em sua área de cobertura após a compra de unidades de duas redes de concessionárias quase que em sequência.
"Como as lojas eram muito próximas e há uma demanda cada vez mais forte de tecnologia, investimento em pessoas, ferramental, centro de tecnologia, fica caro manter essas operações", afirma Strada.
Além do fechamento das lojas em si, o CEO da Strada salienta que também há a necessidade de integração das culturas de três empresas diferentes. Antes da absorção das lojas da Lavoro e da Verdes Vales, eram cerca de 670 pessoas e, agora são 863 funcionários.
“Precisamos investir em melhora da eficiência, capacitação de profissionais e tecnologia”, explica.
A SLC não pretende, entretanto, enxugar seus quadros a partir dessa reestruturação, adianta Strada. “Pelo contrário, nós vamos precisar de muita gente. O que tem é uma migração de funções, de categorias”, explica o CEO.
“Pela quantidade de equipamentos e pela oportunidade, pensando em termos de Rio Grande do Sul, de renovação de frota, de introdução de tecnologia, não vejo redução de profissionais nesse ciclo até 2030.”
Por ora, não há um plano de expansão no Rio Grande do Sul além do que já foi realizado. “Hoje, não tratamos novas aquisições no estado. Isso pode acontecer no futuro? Pode. Mas, primeiro, precisamos consolidar a marca SLC nesse território”, afirma Strada.
A possibilidade de expansão para outros estados também não está descartada, segundo Strada, mas depende da estratégia da John Deere, que define as diretrizes para sua rede de 34 concessionárias no Brasil.
“A gente quer primeiro entregar aquilo a que nós nos propusemos para essa área dos 404 municípios para, depois, nos habilitarmos a novas aquisições”, diz Strada.
Além das decisões da própria empresa, uma sinalização da própria John Deere pesa em um eventual avanço para novos territórios.
“A John Deere é que apresenta o mercado em que eles estão. Se uma determinada região não está fazendo direito a cobertura de área ou precisa consolidar, ou é um lugar onde tem problema de capital, eles nos mostram o que têm de oportunidade”, afirma.
Strada destaca que muitas concessionárias pelo país são menores, com faturamento na faixa dos R$ 200 milhões, e hoje vivem um desafio. “Ou elas escalam o tamanho delas, fazendo fusões com outras, ou são convidadas, com o tempo, a sair da operação”, diz.
Caso a SLC decida ultrapassar as fronteiras do Rio Grande do Sul, Santa Catarina surge como um mercado promissor, tanto pela proximidade quanto pela fragmentação do setor no estado, segundo Strada. “Mas vai muito do momento e da oportunidade”, conclui.