A SLC Máquinas, rede de revendas da John Deere no Rio Grande do Sul, conseguiu o aval dos credores de um CRA de R$ 600 milhões emitido pela companhia em 2024 na última quinta-feira, 19 de fevereiro e, com isso, evitou o vencimento antecipado dos títulos.
Segundo a ata da assembleia que reuniu os detentores dos títulos, 35,91% dos titulares dos CRAs participaram da votação - que exigia um quórum mínimo de 30%. 33,90% aprovaram a concessão do waiver, 1,29% votaram contra e 0,72% se abstiveram na votação.
O pedido do waiver foi feito porque a empresa percebeu que iria estourar um de seus covenants (cláusulas contratuais que funcionam como uma "barra de segurança" para o investidor) de alavancagem.
Um covenant estourado é mais que suficiente para que algum investidor exija o vencimento antecipado dos títulos, o que pode trazer dor de cabeça para a empresa emissora. Foi justamente isso que a empresa tentou - e conseguiu - evitar.
Quando emitiu os CRAs em 2024, os documentos publicados previam o cumprimento de indicadores como uma liquidez corrente (aquilo que a empresa tem a receber no curto prazo frente ao que tem a pagar) igual ou superior a 0,9 vez, um endividamento total limitado a 2,5 vezes o patrimônio líquido e alavancagem líquida de até 4 vezes o Ebitda.
No edital de convocação, a companhia citava especificamente o risco de descumprimento de cláusulas relacionadas ao balanço de 31 de dezembro de 2025.
O pedido de waiver foi classificado por gestores como um movimento preventivo, ou seja, a empresa não rompeu os covenants, mas percebeu, apurando o balanço de 2025, que estouraria algum deles.
A securitizadora Opea chegou a convocar essa assembleia em janeiro, mas não atingiu quórum mínimo de 30% na reunião realizada no dia 9 do primeiro mês do ano.
Após essa primeira tentativa, a SLC Máquinas fez uma agenda com detentores dos CRAs e bancos que distribuiram o título para explicar a situação, mostrar que o movimento estava longe de ser uma crise na empresa e garantir o quórum mínimo para a nova assembleia - dito e feito.
O CRA remunera CDI + 1,10%, prevê pagamentos semestrais de juros e amortizações mais relevantes a partir de 2028, e estava adimplente segundo relatório da administração divulgado em janeiro. Depois da emissão em agosto de 2024, a companhia honrou com os pagamentos de juros em fevereiro e agosto de 2025.
Em operações desse tipo, a concessão de waiver costuma vir acompanhada de alguma contrapartida aos investidores, como pagamento de fee ou ajuste temporário nas condições financeiras, embora os documentos públicos não detalhem eventuais compensações neste caso.
A SLC Máquinas faturou R$ 2 bilhões em 2024 e projetava crescimento moderado em 2025, em linha com o mercado.
A companhia é controlada pela SLC Participações, holding que também detém mais de 50% da SLC Agrícola, o que, na avaliação de um gestor ouvido pela reportagem, reforça a percepção de robustez da estrutura e dá suporte adicional ao risco do título.
Resumo
- SLC Máquinas captou R$ 600 milhões em três tranches no CRA e honrou com o pagamento semestral de juros no ano passado
- Prevendo estourar um dos covenants de alavancagem previstos na emissão, companhia se antecipou e pediu waiver aos credores, proposta que foi aceita pela ampla maioria votante
- Mesmo antes da concessão, credores se mostram tranquilos com a situação, citando que pedido de waiver foi prévio a qualquer rompimento de covenant e que mercado de máquinas mais difícil é a causa da alta na alavancagem