O ano de 2026 mail começou e mesmo assim parte do mercado de capitais já o trata como página virada para o agronegócio.
Com preços de commodities como soja e milho pressionados, margens apertadas e um ambiente ainda marcado por juros elevados e incertezas políticas, o foco dos investidores começa a se deslocar para 2027, quando a expectativa é de um cenário mais favorável para o setor.
Essa foi uma das principais leituras do Citi durante seu encontro anual de commodities (Citi's LatAm Equities Commodities Conference), realizado nesta semana e que reuniu executivos e investidores dos setores agrícola, açúcar e etanol, além de óleo e gás, celulose e mineração. Segundo Gabriel Barra, analista de commodities do banco, o tom predominante nas conversas foi de cautela no curto prazo e seletividade nas teses.
“É um ano mais difícil para o equity no agro. Quando olhamos para preços de soja, milho, algodão, açúcar e etanol, o cenário para 2026 ainda é desafiador, com margens bem abaixo do que vimos no ápice por volta de 2022”, afirmou Barra, em entrevista ao AgFeed.
Na avaliação do Citi, a combinação de preços mais neutros das commodities agrícolas, custo de capital elevado e um calendário eleitoral que tradicionalmente adiciona ruído às decisões de investimento pode fazer que 2026 seja um ano que o setor "ande de lado".
“Independentemente do resultado, eleição sempre traz incerteza e isso reduz o apetite por investimentos”, disse o analista.
Nos grãos, a expectativa é de mais uma safra robusta no Brasil em 2025/2026, com crescimento de produção de soja e milho, o que reforça a pressão sobre preços. Na projeção da Agroconsult, uma das principais consultorias do setor no País, a produção de soja deve atingir 182 milhões de toneladas na temporada, cerca de 10 milhões de toneladas a mais que na safra passada.
No milho, a expectativa é chegar num patamar próximo das 140 milhões de toneladas e, mesmo que levemente abaixo da safra passada, ainda uma colheita robusta.
Barra, do Citi, cita que o momento exige cautela para empresas ligadas a insumos e sementes. Isso pode ser visto dentre as recomendações do analista dentre as companhias do setor listadas na B3 que ele acompanha.
No caso da Boa Safra, que segue com recomendação de compra pelo Citi, o banco adota uma postura mais prudente nas projeções. “A empresa tem sido mais conservadora no crescimento do negócio e nós também estamos mais cautelosos olhando para margens”, disse.
A própria empresa da família Colpo já espera um ano complicado à frente. Em dezembro, a empresa informou ao mercado que realizou uma redução de pessoal, causada por um aperto de margens.
Para além da conjuntura de mercado difícil para as sementeiras, o CEO da empresa, Marino Colpo, admitiu que a agenda de aquisições foi acelerada nos últimos anos, o que acabou gerando "excessos" na operação. Somado a isso, reconheceu que não está "satisfeito com as margens".
Em um relatório publicado pelo próprio Barra ao final de 2025, o Ebtida (lucro antes de juros, impostos, amortização e depreciação) ajustado esperado pelo banco para a Boa Safra neste ano recuou 8%, para R$ 288 milhões, e o lucro liquido esperado reduziu em 17%, para R$ 179 milhões.
A Vittia, também coberta pelo Citi, enfrenta um desafio adicional por atuar em produtos de maior especialidade, como biológicos, orgânicos e inoculantes. “Com o produtor mais pressionado em margem, esse tipo de produto tende a perder prioridade. A empresa tem ajustado sua estratégia comercial, mudando foco de onde e para quem vender”, explicou o analista.
Entre as grandes produtoras agrícolas, a SLC Agrícola aparece como um ativo sólido, mas ainda atravessando um momento de transição na visão de Barra. “É um negócio que admiramos muito, uma empresa sólida e de muito tempo. Mas 2026 ainda deve ser um ano mais desafiador", diz.
A safra 2024/2025 foi marcada na empresa por uma intensa agenda de investimentos e aquisições. A mais marcante foi a compra, anunciada ao final de 2024, da Sierentz Agro, que ajudou a área plantada na temporada atual chegar aa 836 mil hectares, um avanço de 13,6% em um ano. A aquisição custou cerca de R$ 1 bi à SLC.
Em novembro do ano passado, anunciou outro projeto de R$ 1 bilhão. Desta vez, uma iniciativa junto a um fundo de pensão estrangeiro para aumentar suas áreas irrigadas na Bahia.
"A empresa deveria estar perto do breakeven dos investimentos recentes, mas com juros altos, isso pesa”, avaliou Barra. Segundo ele, a expectativa é de que a geração de caixa volte a ganhar força a partir de 2027 na SLC.
Açúcar ou etanol?
No segmento de açúcar e etanol, o tom também é semelhante. Após um ano difícil no aspecto operacional para empresas como Jalles, São Martinho e Raízen, somado a preços baixos no açúcar, o etanol voltou a ganhar força no mix dessas empresas.
Essa onda foi vista em documentos enviados ao mercado por essas empresas. Ao comunicar o encerramento da moagem da safra 2025/2026, a São Martinho informou que manteve o mix previamente indicado, com 49% da produção destinada ao açúcar e 51% ao etanol. Segundo a companhia, a decisão refletiu "condições de mercado vistas ao longo da temporada".
Na Jalles, o ajuste foi ainda mais explícito. A companhia encerrou a moagem da safra com um mix de 53,6% de etanol e 46,4% de açúcar, levemente diferente do observado na temporada anterior. Mais relevante, porém, foi o desvio em relação ao plano inicial. Antes do início da safra, a empresa projetava um mix mais açucareiro, com 51,8% para o adoçante.
Barra ressalta que o açúcar pode até voltar a se valorizar neste ano, mas esse movimento tende a ser mais lento, condicionado à evolução da safra da Índia e ao início da próxima safra brasileira. “Não é um ano para ficar muito animado com o setor”, resumiu o analista.
O etanol, que trouxe algum alívio recentemente, deve enfrentar pressão ao longo do ano. “Entramos em uma safra mais alcooleira, com maior volume de etanol no mercado. Somado a isso, há uma perspectiva de preços internacionais mais baixos do petróleo e uma base de comparação complexa frente a gasolina”, explicou Barra.
A leitura do Citi é que os preços do etanol tendem a cair na ponta, pressionando a rentabilidade das usinas. Isso porque para além da competição na bomba, há a competição antes dela com o etanol de milho, que continua a ganhar força no País.
Nesse contexto, empresas como Jalles e São Martinho participaram do evento com uma visão semelhante sobre o momento do setor. “Vemos um esforço grande dessas companhias para ganhar eficiência e reduzir custos para atravessar o período, mas a geração de caixa ainda deve continuar pressionada”, disse o analista. Gabriel Barra recomenda a compra da ação da Jalles, mas se mantém neutro em relação à São Martinho.
Já a maior empresa do setor na bolsa, a Raízen, tem uma dificuldade ainda maior. Além da questão de preços do açúcar e etanol e da produtividade mais baixa, a companhia passou 2025 vendendo ativos e vendo sua dívida avançar e superar os R$ 50 bilhões ao final de setembro.
No ano passado, Gabriel Barra escreveu que dois anúncios podem reanimar o mercado em relação à empresa: a venda da operação de Mobilidade na Argentina e um possível aumento de capital.
De um lado, a operação em terras vizinhas tem alguns interessados, segundo especulações de mercado. Do outro, o aumento de capital seria feito através da entrada de um novo sócio na Raizen, que hoje tem seu capital dividido entre Cosan e Shell. A Bloomberg noticiou há alguns meses que a Mitsubishi seria uma das interessadas.
Além do operacional e financeiro, a Raizen enfrenta um problema na Bolsa. As ações da empresa são negociadas abaixo de R$ 1 desde o início de outubro, o que fez com que a B3 desse uma "prensa" na companhia, que se comprometeu a pensar em medidas para valorizar o papel até o final do primeiro trimestre de 2026.
"Raízen é outra que nos mantemos neutro. É um negócio que mistura distribuição de combustível e energia renovável. No primeiro, estamos positivos com Vibra e Ultrapar, mas ao olhar a estrutura de capital da empresa com os juros elevados, ela terá mais dificuldades", citou Barra.
Top pick
Entre as exceções dentro do agro, a 3tentos aparece como uma das teses preferidas do Citi. “É provavelmente o nosso top pick. É uma empresa que tem passado muito bem por momentos difíceis do setor, com um modelo de negócio resiliente e integrado”, afirmou Barra.
Segundo ele, a companhia conseguiu sustentar a expansão desde o IPO sem pressionar a alavancagem, financiando o crescimento com geração de caixa.
Em entrevista recente ao AgLíderes, videocast do AgFeed, o CEO João Marcelo Dumoncel projetou um 2026 "melhor que 2025", e mesmo em pleno desafio de crédito restrito no agro, tem planos avançar na exportação. Um destaque para o ano é a inauguração da planta de etanol de milho em Porto Alegre do Norte (MT), que deve passar a produzir o biocombustível no segundo trimestre deste ano.
Barra, do Citi, cita que a companhia da família Dumoncel conseguiu criar um modelo de negócio resiliente e quase único no País. A empresa combina três atuações: produção de grãos, distribuição de insumos e operação industrial.
"Eles passam desde o IPO por uma forte de expansão sem impactar na alavancagem, se financiando com uma geração de caixa forte. 2026 é um ano em que a empresa começa a operar mais em velocidade de cruzeiro, mas com os investimentos impactando o Capex. Em 2027, com nove meses já produzindo etanol, o impacto nos resultados deve ser mais claro”, disse.
Resumo
- 2026 já é visto como um ano difícil para o agro, com preços pressionados, margens apertadas, juros altos e incerteza eleitoral, levando investidores a olhar mais para 2027
- Grãos, insumos e açúcar/etanol seguem sob pressão, com safras robustas no Brasil, excesso de oferta, ajustes de mix e geração de caixa ainda limitada nas principais companhias
- Poucas exceções se destacam, como a 3tentos, apontada pelo Citi como “top pick” por ter modelo integrado e crescimento com caixa próprio