A cultura do feijão no Brasil fechou o ciclo de 2025 sob uma perspectiva mais apertada. Apesar de sua permanência como base alimentar nacional, o relatório mais atualizado da Companhia Nacional do Abastecimento (Conab) projetava uma produção de 3 milhões de toneladas do grão para o ano passado, um volume 1,8% menor que o apresentado em 2024.

Essa retração deve-se, sobretudo, à semeadura da primeira safra, que registrou uma queda de 12,4% na extensão da área cultivada, somando 796 mil hectares. O produtor rural se deparou com um dilema decisivo: alocar recursos em um grão com margem reduzida ou priorizar a soja e o milho, culturas percebidas como mais rentáveis neste recorte.

A essa equação de mercado somaram-se os desafios do campo em 2025. No Sul e Sudeste, o excesso de chuvas, a baixa luminosidade, e a proliferação de doenças demandaram replantios e atrasaram o desenvolvimento das plantas. Já em regiões como o Nordeste, a irregularidade hídrica prejudicou a implantação das lavouras.

Com a colheita da primeira safra atrasada em grandes polos como Minas Gerais, a oferta imediata no mercado interno será limitada. A Conab estima um estoque de passagem de 118,4 mil toneladas ao fim de 2025.

Este volume, embora projetado para manter a estabilidade do abastecimento, coloca o mercado do feijão sob pressão. A dinâmica dos preços no primeiro semestre de 2026, ditada por essa oferta restrita, será um fator determinante para os investimentos e o desempenho das próximas safras do grão.

Para o ciclo de 2026, a superação dos obstáculos de qualidade observados no último ano da produção de feijão depende da renovação constante do material genético e da precisão do manejo hídrico.

Conforme avalia a Associação Brasileira da Indústria do Feijão (Abifeijão), o mercado brasileiro espera o lançamento de novas variedades desenvolvidas por instituições de pesquisa para substituir grãos que perderam competitividade em critérios de maciez e coloração.

O uso de sistemas de irrigação em grandes propriedades também ganha relevância para o próximo ano para evitar o estresse hídrico, fator que em 2025 resultou em grãos excessivamente secos e com alto índice de quebra no beneficiamento.

Essa tecnologia aparece como a principal aposta para reverter a desvalorização do produto e assegurar o padrão exigido pelos empacotadores.

No campo das políticas públicas e do financiamento, o cenário para 2026 demanda o aprimoramento das condições de crédito rural e do seguro agrícola. Com a manutenção dos juros em patamares elevados, a sustentabilidade da atividade está atrelada à eficácia das políticas de preços mínimos.

Conforme a Abifeijão, existe uma mobilização do setor para que o governo federal implemente programas de incentivo ao consumo voltados à alimentação escolar, como forma de estabilizar a demanda interna.

O objetivo principal é garantir que, a médio e longo prazo, o produtor seja capaz de suportar a volatilidade típica do grão, que enfrenta riscos climáticos e cambiais simultâneos.

O desafio na lida não é pequeno. A primeira safra de 2026 carrega o peso da já citada redução na área plantada no último ano. Esse recuo expressivo ocorreu devido à baixa rentabilidade comparativa, visto que os preços pagos ao produtor em 2025 ficaram aquém dos custos de produção em diversas praças.

Como reflexo, a colheita inicial deve entregar 941,6 mil toneladas, o que representa um recuo de 11,4% em relação ao ciclo anterior.

A menor disponibilidade de produto no início do ano tende a sustentar os preços em níveis elevados e pressionar a cadeia de abastecimento até a entrada das próximas safras.

A produtividade do feijão apresenta uma leve tendência de alta, estimada em 1.142 kg/ha, com ganho de 0,5% comparado ao ano anterior. O avanço tecnológico tenta compensar a perda de área, embora seja insuficiente para manter o volume total de produção nos patamares anteriores.

O setor monitora de perto estados como o Paraná, onde intempéries exigiram replantios, e Minas Gerais, onde o atraso na semeadura empurrou a colheita para meados de janeiro e encurtou a janela de comercialização do primeiro trimestre.

O equilíbrio do mercado nacional de feijão em 2026 dependerá do manejo dos estoques de passagem, estimados em 118,4 mil toneladas, de acordo com o último relatório da Conab.

Esse volume garante a normalidade do abastecimento, mas a margem de manobra é estreita diante de qualquer nova irregularidade climática.

Assim, o foco dos produtores para as safras de janeiro a julho será a recuperação das margens perdidas em 2025. Para isso, o setor utilizará a tecnologia de sementes e a irrigação para entregar um grão que combine o vigor agronômico exigido pelo campo com a qualidade comercial demandada pelas gôndolas.

No front externo, as expectativas para o próximo ano permanecem otimistas apesar das tensões comerciais recentes.

Segundo informações da Abifeijão, a Índia se firma como nosso principal destino internacional, mas o Brasil consolidou mercados na América Central e nos Estados Unidos devido ao rigor sanitário.

Sobre o tarifaço imposto pelos americanos em 2025, a tendência é de que essas medidas sofram revisões ou ajustes no médio prazo. Segundo a entidade, isso ocorreria “em função da necessidade de abastecimento e da competitividade do feijão brasileiro no mercado internacional".

Resumo

  • Área de feijão recua com migração para soja e milho, reduzindo a produção e apertando a oferta em 2025/2026
  • Menor disponibilidade no início de 2026 tende a sustentar preços mais altos ao longo do ano
  • Recuperação da cultura depende de crédito, seguro rural, novas variedades e maior uso de irrigação