O ano de 2025 foi histórico para a operação brasileira da Netafim, multinacional de origem israelense - hoje controlada pelo grupo mexicano Orbia - focada em irrigação. Uma junção de fatores climáticos, de mercado, e um stress visto no ano anterior acelerou o negócio no País e colocou o Brasil na segunda posição global do ranking da empresa, atrás apenas dos Estados Unidos.

O resultado apareceu nos números: crescimento de 20% em relação a 2024 e forte desempenho em culturas estratégicas como citros e café. Para 2026, segundo revelou o CEO Mercosul da empresa, Ricardo Almeida, a ideia é faturar entre 12% a 15% frente ao ano anterior.

"O agro brasileiro sempre andou num ritmo de velocidade diferente do agro global, tanto nos ciclos de alta quanto nos de baixa", disse Almeida, em entrevista ao AgFeed.

"A irrigação passa de uma não prioridade há 15 anos atrás para aparecer nessa lista nos últimos cinco ou 10 anos. Boa parte do agro nacional é jovem, no Cerrado falamos de 30 anos, e no início, a prioridade era abrir estrada, energia elétrica, genética, transgenia", acrescentou.

Esse descompasso é visto nos números globais. Os balanços da controladora Orbia mostram que a receita mundial da Netafim somou US$ 819 milhões (cerca de R$ 4,3 bilhões pela cotação atual) nos primeiros nove meses de 2025, frente a US$ 772 milhões no mesmo período de 2024, uma alta de 6%, ritmo de avanço quase quatro vezes menor do que o visto no País em 2025.

Almeida cita que o ano passado foi muito favorável para a irrigação no Brasil. Para além dessa maturidade natural do agro brasileiro, que leva produtores a investirem em tecnologias suplementares - irrigação, transporte próprio e armazenagem -, o clima quente também aquece os negócios.

"Toda temática ESG e as mudanças climáticas estão sendo mais sentidas e mais comunicadas, há muita informação sobre o que pode acontecer. Somado a isso a um ano como 2024 que trouxe uma estiagem muito forte, com 30 dias a mais de seca na média no ano, afetou a transpiração da planta e baixou a produtividade", citou o CEO.

"Esse stress de 2024 fez muito agricultor ir às compras em 2025". Por fim, os mercados-chave da Netafim viveram dias melhores do que outras culturas agrícolas.

Hoje, a operação da Netafim no Brasil se divide de forma relativamente equilibrada entre café, citros e hortifrúti, cada um respondendo por cerca de 20% a 25% da receita.

Na sequência, a cana-de-açúcar representa algo entre 15% e 20%, enquanto grãos ainda ficam abaixo de 10%, em uma frente considerada estratégica, mas em fase inicial de desenvolvimento.

Isso se dá porque a empresa atua com irrigação por meio de gotejamento e microaspersão, e não pivôs, mais comuns em grandes lavouras de cereais.

"Café, hortifruti, cacau e laranja tiveram um ano de 2025 muito bom no preço e a cana trouxe um ciclo de recuperação de investimentos e Capex", afirma.

Segundo ele, no café, em especial, a irrigação passou a ser vista como proteção patrimonial. “É uma cultura perene, um investimento de 30 ou 40 anos, e o produtor despertou para a importância de preservar esse patrimônio".

2026 deverá seguir o mesmo ritmo, impulsionado, de acordo com o executivo, pela expansão da laranja para cinturões fora de São Paulo, como Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Goiás, e no café, o por um preço que ainda permite o investimento.

No mercado do hortifruti, Almeida relembra que os principais riscos para um crescimento - questões tarifárias globais - foram "assimilados e encaminhados após o stress inicial".

"Este ano ainda há perspectiva de implementação do cacau fora da região original de Ilhéus, na Bahia. Esse é um cacau de regiões secas, que já nasce irrigado. A soma desses fatores faz com que esse crescimento projetado faça sentido", afirmou o CEO Mercosul da Netafim.

O avanço no ano passado e a perspectiva positiva para 2026 fizeram com que a Netafim aprovasse o maior investimento de sua história no País: cerca de R$ 100 milhões destinados, principalmente, à duplicação da fábrica de Ribeirão Preto (SP).

Do total, 80% dos recursos estão alocados na área industrial, com o restante dividido entre armazenagem, logística e infraestrutura administrativa. “Esse investimento é consequência direta do crescimento que tivemos e da convicção de que esse ritmo vai se manter nos próximos anos”, disse Almeida.

Segundo ele, ao longo de 2025 a empresa chegou a complementar a produção local com importações de outras unidades do grupo para atender a demanda.

Além do Brasil, a empresa acompanha movimentos distintos na América Latina. Países como Chile e Peru já apresentam alto nível de irrigação, somando cerca de 2 milhões em áreas irrigadas.

O foco varia por país. No primeiro, fruticultura em especial uvas para produção de vinhos ganha destaque, enquanto que no Chile o mercado vai desde cana até a produção de mirtilo, focada na exportação.

“O Brasil é, disparado, o país com maior potencial de expansão. E é um mercado que cresceu quatro vezes no intervalo entre 2020 e 2025”, afirmou Almeida.

Resumo

  • Brasil vira o segundo maior mercado global da Netafim em 2025, com crescimento de 20%, puxado por citros, café e hortifrúti, enquanto a receita global avançou 6% nos nove primeiros meses do ano
  • Stress hídrico em 2024, com até 30 dias extras de seca, acelerou investimentos em irrigação em 2025
  • Para 2026, a empresa projeta alta de 12% a 15% no faturamento e anuncia investimento recorde de R$ 100 milhões no País, com foco na duplicação da fábrica de Ribeirão Preto (SP)