Às vésperas de completar 60 anos de existência, a serem completados no ano que vem, a cooperativa gaúcha Piá, de Nova Petrópolis (RS), poderá ser liquidada em breve.
Em um comunicado com data do último 13 de março, divulgado em seu site e assinado pelo presidente da cooperativa, Jorge Dinnebier, a Piá convoca os associados para assembleia geral extraordinária a ser realizada no próximo dia 26 de março para deliberar sobre o início de um processo de dissolução e liquidação da cooperativa e a nomeação de um liquidante.
A Piá também informou no comunicado que deve apresentar seus resultados de 2025 na mesma assembleia.
O documento não especifica as causas da liquidação, mas a decisão provavelmente está associada às dificuldades financeiras que a cooperativa, outrora um gigante do mercado de leite no Rio Grande do Sul, vem enfrentando nos últimos anos.
A crise veio a público em 2023, ano em que a dívida da cooperativa atingiu R$ 249,2 milhões. Temerosos do fim da cooperativa, os produtores de leite debandaram e deixaram de fornecer o produto à Piá, que produzia apenas 7,8 mil litros de leite por dia.
Em paralelo, o então presidente da cooperativa, Jeferson Smaniotto, renunciou ao cargo em maio de 2023 e, no mês seguinte, Jorge Dinnebier foi guindado ao posto mais alto da cooperativa, que havia praticamente desaparecido do mercado regional naquele momento.
Uma auditoria sobre o andamento da cooperativa entre 2017 e 2023 passou a ser feita e identificou irregularidades na condução da Piá no período.
Em outubro de 2024, o ex-presidente Smaniotto e integrantes de sua família foram indiciados pela Polícia Civil de Nova Petrópolis por associação criminosa, furto qualificado mediante fraude e lavagem de dinheiro que resultaram em um prejuízo inicial de R$ 1,6 milhão.
Após a troca de comando, a Piá foi tentando se reerguer nos últimos anos, a partir de um processo de reestruturação comandado por Dinnebier.
A cooperativa passou a se concentrar na indústria e vendeu operações de agropecuária e cinco supermercados que mantinha em Nova Petrópolis e cidades do interior do Rio Grande do Sul.
Além disso, teve de enxugar seu quadro de colaboradores: 500 funcionários de um total de 760 foram demitidos.
Na hora de captar a matéria-prima, a cooperativa também passou a buscar produtores de leite que estão num raio de 150 quilômetros da sede da cooperativa. Antes, o leite era trazido de municípios mais distantes de Nova Petrópolis, o que encarecia os custos logísticos.
A produção vinha crescendo, apesar das dificuldades: a captação de leite já havia subido para 80 mil litros por dia em junho do ano passado e a meta era alcançar 200 mil litros captados até o fim de 2025.
Mas, em entrevista ao AgFeed em meados do ano passado, o presidente Jorge Dinnebier reconheceu que a cooperativa ainda enfrentava problemas financeiros, principalmente de acesso à crédito.
“Se eu captar mais leite, tenho que conseguir pagar, tenho mais custo de insumos, de embalagens, e tenho que aumentar a minha venda. Não adianta eu captar leite, não ter dinheiro para envasar o leite e não ter como vender”, afirmou Dinnebier, na ocasião.
A Piá não divulgava mais seus resultados junto ao público, mas o presidente Dinnebier garantiu à reportagem que o pior momento da crise já tinha sido superado. Mas, ao que tudo indica, os esforços não foram suficientes para que a cooperativa não saísse da crise.
A Piá não é a única cooperativa gaúcha em dificuldades. Com dívida de R$ 1,5 bilhão, a Cotribá, de Ibirubá (RS), cooperativa agropecuária mais antiga do Brasil, também enfrenta problemas para normalizar sua situação.
Recentemente, a cooperativa elegeu um novo presidente, Carlos Diehl, que prometeu reestruturar a operação e negociar débitos com produtores rurais e bancos em entrevista exclusiva ao AgFeed.
Resumo
- Cooperativa Piá convoca assembleia para 26 de março que pode dar início ao processo de dissolução e liquidação
- Crise financeira se arrasta desde 2023, com dívida elevada, perda de produtores, troca de comando e investigações sobre irregularidades
- Apesar de reestruturação e recuperação parcial da captação de leite, dificuldades de crédito e caixa comprometeram a sustentabilidade da operação