Mesmo sob um mar de notícias negativas envolvendo crédito rural, com praticamente todas as instituições financeiras registrando aumento de inadimplência e restringindo as torneiras para produtores rurais e empresas da cadeia em dificuldades, Nadege Saad, líder do E-agro, plataforma digital para produtores rurais lançada pelo Bradesco há três anos, não perde o otimismo.

A executiva continua esperando que a carteira de crédito do E-agro avance em níveis espetaculares, estimando altas entre 20% a 25%.

Isso faria com que a carteira da plataforma, que encerrou 2025 com um montante total de R$ 6,3 bilhões, chegasse a uma cifra entre R$ 7,5 bilhões e R$ 7,8 bilhões se confirmados os percentuais.

"Todo mundo me pergunta se vai crescer tudo isso em 2026. O que a gente entende e tem visto com o E-agro é que a plataforma ainda tem espaço para crescer, mesmo dentro do cenário de crédito adverso. Não estou falando que eu vou crescer crédito, mas vou crescer a captura dentro do E-agro", conta Saad, que conversou com o AgFeed durante a Agrishow 2026.

Uma das principais ferramentas para ajudar Nadege a “capturar” mais crédito e, assim, entregar resultados ao alto comando do Bradesco está sendo lançada nesta quarta-feira, 29 de abril.

A partir de agora, dentro do E-agro, pessoas jurídicas poderão contratar crédito dentro da plataforma. Até aqui, o marketplace do Bradesco era destinado apenas aos produtores rurais na pessoa física.

Com isso, tanto empresas que atuam na cadeia como agroindústrias, revendas de insumos e máquinas agrícolas, como também produtores rurais PJ, poderão utilizar o E-agro para tomar crédito e ter acesso a outras funcionalidades da plataforma, que traz informações de mercado, previsão do tempo e atendimento personalizado com especialistas.

A estratégia mira, sobretudo, três públicos principais: cooperativas agropecuárias, distribuidores de insumos e máquinas e produtores rurais que já operam com CNPJ, geralmente de médio e grande porte, com estrutura de gestão mais sofisticada.

Na prática, isso permite que empresas da cadeia agroindustrial financiem suas próprias operações dentro da plataforma, além de seguir oferecendo crédito aos seus clientes. Um distribuidor de insumos, por exemplo, pode estruturar a venda financiada de um pacote agrícola e, ao mesmo tempo, acessar crédito para seu capital de giro via E-agro.

Assim, a plataforma aprofunda sua atuação junto a clientes que já orbitavam o ecossistema do E-agro. Cooperativas agropecuárias como a Coopercitrus, por exemplo, já operavam na plataforma, mas sob outro arranjo, dentro do modelo E-agro Finance.

Nesse formato, a cooperativa atuava como parceira do marketplace do Bradesco, intermediando operações e oferecendo garantias para o crédito tomado pelos cooperados. "Agora é a tomada de crédito pelo CNPJ", diz Nadege Saad.

Além disso, a partir da nova plataforma, o E-agro conseguirá acessar tickets maiores e também fazer operações de maior porte, uma vez que tradicionalmente os produtores PJs são maiores.

Nadege diz que a nova função deriva de uma mudança recente na legislação da Cédula de Produto Rural (CPR). Desde 2022, pessoas jurídicas também podem emitir CPRs, incluindo também cooperativas agropecuárias e associações de produtores rurais.

"Vimos um nicho importante para a gente explorar, não só para o produtor que opera na PJ, mas também para laticínio, qualquer cooperativa, qualquer lugar que tenha beneficiamento dentro da cadeia", diz a executiva.

A partir da nova funcionalidade, Nadege também vê espaço para incluir clientes novos que, em função da restritividade maior do mercado nos tempos bicudos que vive o agro, tenham ficado de lado. "Nossa estrutura de assessores pode trazer clientes novos que, de repente, foram desassistidos no mercado por algum banco que tenha tirado o crédito", afirma a executiva. "Esse cliente vem para o E-agro. Aqui ele tem crédito."

Embora conte com a estrutura do Bradesco, o E-agro opera como uma plataforma independente, com diferentes canais de acesso.

O produtor pode entrar tanto via agência bancária, com o gerente auxiliando pessoalmente a entrada na plataforma, por meio dos assessores especializados em campo ou diretamente pelo autosserviço digital. "Temos tido renovações digitais numerosas, por exemplo, em que o produtor que já fez sete ou oito vezes a renovação", diz Nadege.

Além da entrada no crédito para PJs, o E-agro deve receber novas funcionalidades ao longo de 2026 voltadas para pessoas físicas.

Entre elas, está o desenvolvimento de um “concierge”, assistente digital hiper personalizado baseado em inteligência artificial, capaz de analisar o histórico do produtor, incluindo perfil de crédito, as compras realizadas e o tipo de atividade (pecuária, grãos, hortifruti, entre outras), para então sugerir soluções financeiras completas, com condições competitivas. A ferramenta já está em fase de testes e deve ganhar lançamento oficial nos próximos meses.

Em paralelo, atendendo a pedidos do mercado, o E-agro também deve passar a contar com crédito via CPRs em dólar e taxas pós-fixadas.

"Hoje, operações até dois anos, geralmente a recomendação é que seja taxa pré-fixada. Mas, se for uma operação para mais de dois anos, depende do que a pessoa vai escolher, mas o ideal é que seja a taxa pós, uma vez que a gente prevê que a taxa Selic vai cair", diz Nadege.

Ambas as funcionalidades estarão disponíveis apenas para pessoas físicas em um primeiro momento, mas Nadege Saad não descarta que, no futuro, também estejam disponíveis para pessoas jurídicas. "Quando a gente fizer os desenvolvimentos, provavelmente já vamos, num segundo momento, não muito longínquo, incorporar para PJ", afirma a executiva.

Desde 2023, o E-agro acumula rápido crescimento em termos de originação de crédito dentro da plataforma, passando de cerca de R$ 500 milhões ao fim de 2023 para R$ 2,4 bilhões em 2024 e R$ 5,6 bilhões em 2025.

Resumo

  • Plataforma E-agro, do Bradesco, ganha novas funcionalidades visando expansão de 25% em 2026
  • Ferramenta digital passa a permitir crédito para pessoas jurídicas em ambiente digital
  • Foco são agroindústrias, cooperativas e produtores com CNPJ