Cascavel (PR) - Dentro do parque de exposições da Coopavel, onde é realizada a feira de máquinas e insumos agrícolas Show Rural, a casa do Bradesco está muito próxima de outras instituições bastante relevantes para o crédito rural.

Mas, embora a distância física entre os estandes seja pequena, a estratégia do banco da Cidade de Deus, em Osasco (SP), segue um caminho assumidamente distinto de outros players do mercado.

“Não vamos reduzir nosso trabalho em feira agropecuária, não vamos reduzir a equipe. Tem muita oportunidade no mercado, até porque alguns bancos diminuíram o seu posicionamento com o setor e a gente sabe que nem todos os bancos vão manter o mesmo posicionamento”, afirmou Roberto França, diretor de agronegócios do Bradesco, a jornalistas.

“E acho que o mercado de capitais também reduziu muito a oferta de CRAs, de Fiagros e de operações. Mesmo as agfintechs também acho que vão se expor menos, então, vai sobrar, vai ter oportunidade para a gente buscar os melhores riscos de crédito e aumentar a nossa carteira dentro desse setor”, emendou.

Para 2026, a expectativa de França é de que a carteira de crédito rural do Bradesco cresça entre 15% e 20%, impulsionada principalmente pela renovação das operações existentes e pelo crescimento orgânico da carteira.

No ano passado, a carteira de agronegócio do Bradesco cresceu tanto na pessoa física – com alta de expressivos 69% – quanto na jurídica – com expansão de 32,7% – superando a marca de R$ 120 bilhões.

Apesar de questionado pela reportagem, França não revelou o percentual exato de inadimplência atual da carteira de crédito, mas deixou pistas de que o número pode superar dois dígitos, ao quantificar a base adimplente.

“Mais de 90% da nossa base de clientes estão saudáveis, com uma base em operações recorrentes que não tiveram nenhum problema de atraso”, disse França.

Considerando toda a carteira de crédito do Bradesco, a inadimplência para contratos acima de 90 dias encerrou o ano de 90 dias em 4,1%.

França avaliou que, atualmente, o principal desafio dos produtores não está na produção, mas sim no custo financeiro. “A crise é mais de custo de alavancagem do que de atividade econômica”, disse.

E o atual nível de restrição de crédito também não contribui para melhorar a situação. França disse que grande parte do crédito rural passou a ser contratada a taxas livres, podendo variar 18% a 22% ao ano, pressionando o caixa dos produtores mais alavancados.

“A Selic traz um custo financeiro muitas vezes mais elevado que o caixa livre que o produtor tem. Quando ele planta, paga os insumos, paga o custo da propriedade rural, paga os funcionários, têm que muitas vezes pagar um arrendamento e quando vai pagar a taxa de juros já não tem mais dinheiro”, disse.

“É por isso que de verdade a gente está vivendo uma onda de inadimplência acima da inadimplência histórica.”

França aproveitou também para comentar o avanço das recuperações judiciais no campo, que bateram recorde no terceiro trimestre do ano passado, atingindo 628 pedidos, aumento de 147% em um ano, segundo os dados mais recentes da Serasa Experian.

Para o executivo, o aumento dos pedidos de recuperação judicial no campo reflete mais um uso excessivo do instrumento do que, necessariamente, uma deterioração generalizada da atividade agropecuária. França disse também considerar que o uso da RJ contribui para o aumento da restritividade das condições de crédito.

“O uso demasiado colocou um freio no mercado financeiro para gente entender o que estava acontecendo e encareceu  o crédito para todos, porque você tem mais risco, mais insegurança e o crédito para todos fica mais caro”, avaliou.

França disse que, em diversas regiões, produtores têm sido estimulados por escritórios de advocacia a recorrer à recuperação judicial sem antes buscar a renegociação das dívidas.

“E a gente tem visto muitos casos em que o produtor rural, depois que o processo começa, até se arrepende porque, na verdade, percebe que perde o controle da atividade dele, perde a capacidade creditícia, até o cartão de crédito da mulher normalmente é cancelado”, afirmou o diretor de agro do Bradesco. “A recuperação judicial que tende a regularizar o estoque de crédito também praticamente tira o produtor do mercado.”

O executivo não descartou a possibilidade de uma regulação para limitar o uso da recuperação judicial.

“Para não deixar esse grupo de advogados que se utilizam de recuperação judicial para ganhar dinheiro. Tem muito dessas bancas de advogados pelo Brasil afora que estimulam a recuperação judicial para o produtor rural”, comentou.

Apesar dos desafios, o Bradesco continua avançando com o E-agro, plataforma digital criada em 2023 pela instituição e que vem escalando o tamanho de sua carteira desde então.

O E-agro fechou 2025 com uma carteira de R$ 6,3 bilhões, mais que o dobro do registrado em 2024, quando alcançou R$ 2,4 bilhões. A originação no ano passado foi de R$ 5,6 bilhões.

A expectativa de Nadege Saad, head do E-agro, é de que a carteira cresça entre 25% e 30% ao longo de 2026, o que faria com que o montante girasse entre R$ 7,8 bilhões e R$ 8,1 bilhões.

“Acho que o produtor tem adotado cada vez mais o digital. Temos feito bastante convênios com as cooperativas e com distribuidores. Isso acaba trazendo clientes novos com dados novos e gerando negócios aqui para o agro do banco”, avaliou Saad, ao fazer um balanço do ano.

O E-agro deve receber algumas novas funcionalidades ao longo deste ano, segundo a executiva. Entre elas, estão o atendimento de produtores PJ dentro da plataforma.

O produto, segundo a executiva, vai atender produtores que buscam utilizar tanto recursos obrigatórios quanto recursos livres e a ideia é que possa ser usado já na próxima safra.

Dessa forma, o E-agro conseguirá acessar tickets maiores e também fazer operações de maior porte, uma vez que tradicionalmente os produtores PJs são maiores.

Outra ferramenta que deve chegar aos clientes da plataforma é o “concierge”, um assistente digital hiper personalizado capaz de analisar o histórico do produtor, incluindo perfil de crédito, as compras realizadas e o tipo de atividade (pecuária, grãos, hortifruti, entre outras), para então sugerir soluções financeiras completas, com condições competitivas.

Saad reconheceu, no entanto, que a digitalização enfrenta desafios específicos no crédito ao pequeno produtor, especialmente no Pronaf, linha voltada à agricultura familiar.

Ainda assim, a executiva disse que vem ampliando a oferta de crédito ao Pronaf dentro do E-agro e, ao longo de 2026, pretende simplificar o processo de contratação da linha de crédito na plataforma.

“Existem regulações e documentações que têm que ser apresentadas para fazer o Pronaf que muitas vezes dificulta fazer a digitalização muito rápido. Estamos avançando nisso e, nesse ano de 2026, queremos nos desafiar para levar uma jornada muito simples para contratar o Pronaf no E-agro.”

Resumo

  • Bradesco projeta crescimento de 15% a 20% no crédito rural em 2026, após carteira do agro superar R$ 120 bilhões
  • Roberto França, diretor de agronegócios do banco, indica inadimplência possivelmente acima de dois dígitos e diz que juros livres entre 18% e 22% ao ano pressionam produtores
  • Plataforma digital agro do banco, E-agro, fechou 2025 com R$ 6,3 bilhões e pode chegar a R$ 8,1 bilhões em 2026, com entrada de produtores PJ