O 2025 da Adecoagro, companhia com sede em Luxemburgo e operações de produção de açúcar, etanol e bioenergia no Brasil, foi marcado por preços mais baixos de commodities, custos mais elevados e uma aquisição estratégica bilionária.

As dificuldades podem ser observadas nas tabelas do balanço da empresa, divulgado na segunda-feira, 16 de março, e que fechou com um bottom line no vermelho: prejuízo líquido de US$ 17,9 milhões (cerca de R$ 90 milhões pela cotação atual), revertendo o lucro líquido de US$ 202,5 milhões (aproximadamente R$ 1 bi pela cotação do momento) de 2024.

Ao longo de 2025, a pressão sobre os resultados da Adecoagro aparece de forma clara nos principais indicadores operacionais e financeiros.  A receita bruta da empresa somou US$ 1,44 bilhão, uma queda de 2% em um ano.

O Ebitda (lucro antes de juros, impostos, amortização e depreciação) ajustado foi positivo em US$ 276,7 milhões, uma equeda de 37,7% em um ano.

No negócio de açúcar, etanol e energia (S&E), principal vertical da companhia, o Ebitda ajustado recuou de US$ 364,2 milhões para US$ 291,5 milhões, uma queda de cerca de 20%, pressionado principalmente pelos preços mais baixos do açúcar e por efeitos operacionais ao longo do ano.

Os dados operacionais ajudam a explicar a pressão sobre os resultados. A moagem de cana-de-açúcar somou cerca de 12,1 milhões de toneladas em 2025, uma queda de 4,8% na comparação anual.

A produção de açúcar foi mais impactada, recuando de 832 mil para 600 mil toneladas, uma queda de 27,9% em um ano. O resultado é reflexo tanto de uma menor disponibilidade de cana quanto pelo mix mais direcionado ao etanol.

Por outro lado, a produção de etanol avançou cerca de 10% no período e atingiu 588 milhões de litros, em linha com a estratégia da companhia de capturar melhores preços do biocombustível ao longo do ano. O mix de produção ficou em 58% para o biocombustível e 42% para o adoçante.

A empresa cultivou 228 mil hectares de cana no ano, alta de 7,3% e 161 mil hectares com agricultura.

Na operação agrícola agrícola, o recuo foi significativamente mais acentuado. O Ebitda caiu de US$ 103 milhões para US$ 17,8 milhões, uma retração superior a 80%.

A empresa citou que teve mais volumes, mas os preços baixos compensaram o resultado. "A menor geração de Ebitda se explica também pelos custos mais altos em dólar, com uma produtividade mista. Sem contar a venda da Fazenda La Pecuaria no início do ano, o Ebitda já cairia US$ 70 milhões", diz a empresa.

A Adecoagro ainda relata uma "produtividade recorde no setor de arroz", e que atingiu um recorde no processamento de leite, mas que não foram suficientes para compensar preços baixos e custos altos.

A frente de fertilizantes, incorporada no fim do ano com a aquisição da Profertil, teve impacto ainda limitado no resultado consolidado de 2025, contribuindo com cerca de US$ 6 milhões de Ebitda, dado o curto período de consolidação.

A aquisição da Profertil, inclusive, deu o tom a grande parte do balanço. A empresa somou um Capex de US$ 938 milhões, mais de três vezes maior em um ano. A empresa anunciou, em dezembro passado, que atingiu 90% de participação na empresa.

Depois de comprar a parte do negócio que pertencia à Nutrien, adquiriu as ações da YPF.  Somando os cheques, a Adecoagro desembolsou cerca de US$ 1,1 bilhão na operação.

Esse movimento teve impacto direto na estrutura de capital. A dívida líquida da companhia saltou de US$ 522 milhões para cerca de US$ 1,1 bilhão, um avanço de aproximadamente 114%, refletindo principalmente o financiamento da operação. A alavancagem da Adecoagro agora está em 4 vezes. Há um ano, era de 1,2 vez.

De acordo com relatório do banco Citi, assinado pelo analista Gabriel Barra, apesar do desempenho mais fraco em 2025, a expectativa é de melhora nos resultados ao longo de 2026, sustentada por fatores como recuperação da produtividade da cana, manutenção de preços mais firmes para o etanol e potencial de expansão de margens no segmento de fertilizantes.

Na cana, a aposta é em condições climáticas "normais", que podem fazer a moagem aumentar um dígito e diminuir custos unitários. Barra aponta que 49% da produção de açúcar da Adecoagro está protegida por hedge, o que pode trazer ganhos com o restante.

No mercado de fertilizantes, o analista cita que a maior parte do volume de vendas (mais de 80%) está em preços em linha com o mercado.

"Enquanto isso, o fornecimento de gás está garantido e os preços são fixados por meio de contratos de médio prazo (60% das despesas operacionais), indicando que a empresa poderá aumentar sua margem de segmento de forma relevante durante o ano, visto que os preços da ureia estão aumentando devido às implicações do conflito no Oriente Médio", afirma Gabriel Barra, do Citi.

Resumo

  • A Adecoagro reverteu lucro e fechou 2025 com prejuízo de US$ 17,9 milhões, pressionada por queda de preços de commodities, custos mais altos e piora operacional
  • No core de açúcar e etanol, a produção de açúcar caiu 27% e o Ebitda recuou, mesmo com avanço de 10% no etanol; já a divisão agrícola viu o resultado despencar mais de 80%
  • • A compra bilionária da Profertil elevou o capex e dobrou a dívida para US$ 1,1 bilhão, levando a alavancagem a 4x, mas Citi vê cenário de recuperação em 2026