Desde o final de 2024, quando a Raízen entrou nessa fase marcada por desinvestimentos, enxugamento da operação e, mais recentemente, uma recuperação extrajudicial prestes a sair do papel, um deal específico foi colocado como importante para coroar a "nova empresa": a venda da operação na Argentina.
Na última quinta-feira, 4 de junho, o negócio saiu do papel. A empresa anunciou que vendeu os ativos para o grupo suíço Mercuria Energy Group, numa transação avaliada em US$ 1,42 bilhão, cerca de R$ 7,2 bi pela cotação atual.
A Mercuria vai assumir as dívidas da subsidiária hermana. Apesar de ser esperado, o negócio pode ter ficado aquém do potencial.
Em relatório, Gabriel Barra, analista do Citi, afirmou que o valor que será recebido pela Raízen veio abaixo de sua expectativa. Ele esperava um negócio de US$ 1,6 bi, cerca de US$ 200 milhões (ou quase R$ 1 bi) a mais na compra. Somado a isso, cita que o negócio está avaliado em 3,4 vezes a relação entre o Enterprise Value e o Ebitda considerando a safra 26/27.
O indicador mede quanto o mercado está disposto a pagar pela capacidade de geração de caixa operacional da empresa. Na prática, mostra quantos anos seriam necessários para que o lucro operacional pagasse o valor desembolsado.
"Visto que a alavancagem está acima do múltiplo de venda, vemos que o negócio pode não reduzir o endividamento da Raízen. Apesar disso, vemos um passo importante para simplificar os negócios, e fundamental para a estratégia de reestruturação de portfólio", disse Barra, no relatório enviado aos clientes do banco.
A ideia de vender os ativos foi admitida pelos executivos da companhia pela primeira vez em fevereiro deste ano. Em uma call para mostrar resultados do trimestre, Nelson Gomes, CEO da Raízen, mencionou que a empresa já estava em negociações para o negócio acontecer.
Desde antes do processo da RE se iniciar de fato neste ano, em meio a uma tentativa de rechear o caixa com vendas de algumas usinas e de negócios que não eram do mundo do açúcar e etanol, Gabriel Barra, do Citi - um dos poucos analistas a ainda publicar relatórios sobre a companhia - já defendia que a venda da operação no país vizinho era um fator que poderia animar o mercado, junto de uma possível injeção de capital ou entrada de um novo sócio.
De lá para cá, contudo, rolaram tantas águas que não é possível mensurar essa animação com o mercado.
Nesta sexta-feira, 5 de junho, em meio à emenda de feriado que já diminui a liquidez dos investidores na B3, a ação da Raízen, hoje custando R$ 0,40, sobe mais de 2% (alta mascarada pelo valor baixíssimo do papel na tela, que faz com que qualquer valorização de centavos ilustre uma grande alta percentual).
O que está no radar do mercado é a decisão dos credores da companhia. Na quarta, a empresa apresentou uma primeira versão do plano de recuperação extrajudicial, com uma proposta que envolve um aporte de R$ 3,5 bilhões pela Shell, acionista majoritária, e possíveis R$ 500 milhões de Rubens Ometto via sua holding Aguassanta.
O plano inclui a transformação de 45% da dívida da empresa em ações, além da cisão do negócio em empresas diferentes. A dívida da Raízen ultrapassa os R$ 65 bilhões.
A expectativa da empresa era que na própria quarta, os credores - detentores de CRAs, debêntures e bonds - deliberassem sobre a aprovação dos termos ou não.
Algumas atas dessas reuniões publicadas na noite de quarta ilustraram que os credores (que no futuro devem se tornar acionistas) estão dispostos a aprovar o plano, mas com algumas condições.
As três atas arquivadas na CVM, referentes às reuniões de donos de debêntures da empresa (2ª, 3ª e 4ª emissões), chegaram à uma mesma conclusão: aprovação do tema atrelada a novas assembleias que acontecerão na próxima segunda, 8 de junho.
Eram informados dois motivos para justificar essa postergação. A primeira era uma data de fechamento da venda das operações da Raízen na Argentina (que deve ficar para até o final dessa safra), e a segunda era a redação final das cláusulas de mudança de controle na companhia.
Informações do site Pipeline, ligado ao jornal Valor Econômico, afirmam que os detentores de R$ 27 bi da dívida emitida no exterior (40% do total), também aprovarão o plano.
Na proposta da Raízen, que deve ser aprovada pelos credores, foram listadas três alternativas para receber os débitos junto à companhia.
Pela proposta principal, denominada Opção A, 45% da dívida reestruturada será convertida em ações da companhia ao preço de R$ 0,25 por papel (abaixo do valor negociado atualmente)
Os credores receberão units compostas por uma ação ordinária (ON) e uma preferencial (PN). Os 55% restantes serão transformados em novos instrumentos de dívida, distribuídos entre as operações da Raízen Energia (17,6%) e da Raízen Combustíveis (37,4%).
Eles poderão optar por receber dívida reestruturada na mesma moeda de seus créditos existentes: real, dólar, e potencialmente euros, e com taxas diferentes a depender da moeda e da operação.
Na Opção B, está previsto um haircut: os créditos serão trocados por títulos emitidos pela Raizen Energia, com deságio de 80% sobre o valor devido. Os novos papéis terão vencimento único em março de 2047.
Já a Opção C foi desenhada para credores de menor porte. Ela prevê pagamento em dinheiro equivalente a até 75% do crédito ou um valor fixo de R$ 9.750 por credor. O pagamento em dinheiro estará sujeito a um limite global agregado de R$ 150 milhões.
Outro ponto relevantes da proposta é justamente a reconfiguração da governança e da estrutura da companhia. A ideia da Raízen é cindir a empresa em duas: Raizen Energia e Raizen Combustíveis. A expectativa da companhia é efetivar esse processo até 31 de dezembro de 2027.
O plano prevê a venda de ativos ligados à área de energia, de ativos considerados não essenciais e de outras usinas pertencentes à Raizen Energia. Além disso, a empresa deverá iniciar um processo competitivo para atrair um investidor para a Raízen Combustíveis.
Segundo a proposta apresentada aos credores, o conselho da empresa deverá conduzir um processo competitivo para atrair investidores interessados em adquirir uma participação acionária no negócio ou estruturar operações de mercado que ampliem a liquidez dos credores, incluindo uma possível oferta secundária de ações, com o objetivo de reduzir a alavancagem da companhia.
Até a conclusão da operação, a atual gestão permanecerá à frente da empresa, mas sob monitoramento dos credores. Será criado um comitê formado por representantes dos credores apoiadores, com poderes para acompanhar a execução do plano e vetar decisões relacionadas à implementação da reestruturação.
Os credores vão nomear um representante com função consultiva e de monitoramento, que vai trabalhar em conjunto com o atual CFO, Lourival Luz, que também assume o cargo de CRO (Chief Restructuring Officer).
Resumo
- Raízen vende ativos na Argentina para a Mercuria por US$ 1,42 bi e simplifica portfólio
- Citi vê valor abaixo do esperado e avalia que negócio pode não reduzir a alavancagem da companhia
- Credores sinalizam apoio à recuperação extrajudicial, com decisão final prevista para 8 de junho