A agenda desta segunda-feira, dia 10 de agosto, já tinha a JBS como um dos destaques. A data estava reservada para a divulgação do balanço do segundo trimestre da companhia, um número esperado para se entender o impacto de um cenário mais conturbado para o negócio de proteínas animais nas contas da maior empresa do segmento.
O resultado trouxe uma esperada redução nas margens – o Ebitda caiu 18% na comparação com o mesmo trimestre no ano passado –, apesar da receita recorde de US$ 23,9 bilhões.
Mas outro anúncio, feito poucas horas antes de os dados financeiros serem divulgados, colocou a empresa ainda mais nos holofotes.
Em um movimento previsto, mas até então sem um prazo para ser concluído, a JBS comunicou que encerra, ao final deste ano, um hiato de oito anos sem um Batista sentado na principal cadeira executiva da companhia.
O nome escolhido também já era conhecido: Wesley Batista Filho, que como o nome indica, é filho de Wesley Batista, um dos irmãos controladores da J&F, holding familiar que dita os rumos do maior grupo de alimentos com base em proteínas animais do mundo.
Wesley Filho tem de carreira na empresa praticamente o mesmo tempo que Gilberto Tomazoni, que chegou ao grupo em 2013 e que, desde dezembro de 2018, assinava como CEO Global da JBS.
Nesse período, o atual e o futuro CEO atuaram lado a lado em muitas ocasiões, com Tomazoni muitas vezes sendo visto como um verdadeiro mentor do jovem executivo. Agora, nos próximos meses, estarão ainda mais próximos no processo de transição de comando.
Tomazoni, a partir de janeiro próximo, será vice-chairman do Conselho de Administração da companhia, além de senior advisor e Chairman do Conselho de Administração da Pilgrim’s Pride Corporation (PPC). Assumirá, ainda, a Presidência do Conselho do Instituto J&F, instituição dedicada à formação da próxima geração de líderes empresariais.
Com apenas 34 anos, Wesley Filho parece ter sido forjado para o desafio que enfrentará à frente da JBS. Desde que começou a trabalhar na empresa, no chão de fábrica de um frigorífico no Colorado (EUA), ele foi testado em vários diferentes postos em diversos países, sempre com desempenho considerado positivo.
“Wesley construiu uma trajetória de sucesso na JBS e conhece profundamente o nosso negócio”, afirmou Tomazoni no comunicado que anuncia a troca de comando.
“Tenho confiança de que ele é o líder certo para conduzir a JBS em seu próximo capítulo”
O currículo do sucessor, de fato, impressiona. Ele também atuou na área de exportação de carne bovina, em São Paulo, antes de ser destacado para liderar as operações de carne bovina da companhia no Uruguai, no Paraguai e no Canadá, em seu batismo de fogo como gestor.
A temporada no Uruguai foi, segundo ele, sua “escola de operação dos frigoríficos”. Depois, já com essa exeriência, retornou aos EIA comandar a JBS USA Fed Beef, então a maior unidade de negócios da companhia no mundo.
Repatriado em 2018, tornou-se CEO da JBS Brasil. E a partir de 2020 acumulou a liderança da Seara. Sob seu comando, a JBS praticamente dobrou a receita líquida entre 2018 e 2021, atingindo então R$ 53,8 bilhões.
Também nesse período em que esteve à frente das duas operações, Wesley Filho passou por um duro teste: manter a produção durante a pandemia de Covid-19.
Superado o desafio, em 2022 tornou-se Presidente Global de Operações. A posição lhe conferia a responsabilidade sobre os diversos continentes e proteínas, de alimentos preparados.
Um ano depois, o caminho para o topo da hierarquia o levou pela terceira vez aos EUA, agora para assumir a liderança da JBS USA, maior negócio da companhia em receita.
Sua chegada coincidiu com o início de uma fase complexa para a indústria de carne bovina no país, com a oferta de gado caindo aos mais baixos níveis dos últimos 70 anos. Com isso, os custos elevados dos animais passaram a corroer, de forma persistente, as margens do setor.
No olho do furacão
Seu foco foi melhorar o desempenho operacional da JBS Beef North America. Desde então, no entanto, a conjuntura continuou a deteriorar-se e o desafio permaneceu, como mostra o balanço divulgado agora.
O desempenho do trimestre foi marcado justamente pelas dificuldades no negócio de carne bovina nos EUA. A JBS Beef North America registrou receita recorde de US$ 7,8 bilhões, alta de 14,2%, mas o Ebitda ajustado seguiu negativo em US$ 100 milhões (margem de -1,3%).
Segundo a empresa, o aumento do preço dos bovinos superou a valorização da carne, mantendo os spreads da indústria pressionados, em um cenário de oferta restrita de gado e importações do México ainda limitadas.
Com o peso da operação americana, o resultado global da JBS seguiu na mesma direção. Hoiuve um avanço de 14% na receita líquida, levando ao recorde de US$ 23,9 bilhões.
O desempenho, porém, veio acompanhado de piora na rentabilidade: o Ebita ajustado (segundo o padrão internacional IFRS) caiu 18%, para US$ 1,429 bilhão, ante US$ 1,754 bilhão no segundo trimestre de 2025. A margem recuou de 8,4% para 6,0%.
A JBS ainda registrou prejuízo líquido de US$ 102 milhões no trimestre, influenciado por itens não recorrentes, como prêmios e custos de ofertas de recompra de dívida (US$ 172 milhões), acordos antitruste (US$ 133 milhões) e o cálculo final do ganho de compra na aquisição da Mantiqueira Alimentos (US$ 81 milhões). Excluídos esses efeitos, o lucro líquido ajustado foi de US$ 218 milhões, com lucro por ação ajustado de US$ 0,20 – bem abaixo dos US$ 0,52 do mesmo período do ano passado.
Na JBS Brasil, o preço do boi também trouxe impactos negativos. A operação nacional foi outra a obter receita recorde – US$ 4,6 bilhões, alta de 28% –, com o maior Ebitda ajustado para um segundo trimestre, de US$ 273 milhões, avanço de 22,1%.
Apesar disso, a margem caiu de 6,2% para 5,9%, pressionada pela alta de 12% na cotação média do boi gordo, que chegou a aproximadamente R$ 353 por arroba no período.
A queda da rentabilidade consolidada foi parcialmente compensada por outros negócios. A Seara cresceu 18,2% em receita, para US$ 2,5 bilhões, com margem Ebitda de 12,3%. A JBS USA Pork teve Ebitda ajustado de US$ 184 milhões, alta de 38%, com margem de 8,9%. E a JBS Austrália avançou 30% em receita, para US$ 2,6 bilhões, com Ebitda ajustado de US$ 218 milhões.
Por esse motivo, Tomazoni, destacou, em um de seus últimos releases de resultados ainda no posto de CEO, “a força da plataforma multi-geografia e multi-proteína da companhia”.
“Comparado ao ano passado, a rentabilidade foi pressionada por uma base de comparação difícil, uma vez que as operações de aves haviam registrado resultados recordes no 2T25. Em comparação ao primeiro trimestre, a rentabilidade já mostrou melhora na maioria de nossas unidades de negócio", analisou.
O fluxo de caixa livre foi positivo em US$ 130 milhões, melhora de US$ 185 milhões na comparação anual. A alavancagem líquida encerrou o trimestre em 3,10 vezes, acima da meta de longo prazo da companhia, com prazo médio da dívida de 15,3 anos e custo médio de 5,7% ao ano.
Missão cumprida
Tomazoni deixará o cargo com resultados expressivos. Seu período à frente da JBS marcou a aceleração do processo de diversificação geográfica e de negócios, que hoje ajuda a tornar a empresa mais resiliente.
Durante sua gestão, a receita cresceu 73%, saltando de US$ 49,7 bilhões para US$ 86,2 bilhões. E, como a cereja do bolo, a companhia realizou o antigo sonho da listagem na Bolsa de Valores de Nova York (NYSE), considerada fundamental para posicionar a JBS para uma próxima etapa de crescimento.
“Sinto-me honrado por assumir essa responsabilidade e dar continuidade ao extraordinário trabalho realizado por Tomazoni durante sua gestão como CEO”, disse Wesley Filho, também no comunicado.
“Depois de trabalharmos lado a lado por mais de uma década, Tomazoni e eu construímos uma excelente relação de trabalho e uma visão compartilhada — fundamentadas nos valores da companhia”.
Como um Batista, o jovem futuro CEO terá de mostrar ainda mais que seu antecessor. Além de resultados, o mercado estará ainda mais atento à governança do grupo, que, sob o comando de um profissional de fora da família, recuperou sua imagem, severamente arranhada, no início da década passada, pelo envolvimento em escândalos de corrupção.
Ele parece ser o nome certo também para essa missão. Mas terá de provar isso a cada trimestre.
Resumo
- JBS confirma Wesley Batista Filho como CEO a partir de 2027, encerrando oito anos sem um membro da família Batista no comando.
- Receita trimestral bate recorde de US$ 23,9 bilhões, mas Ebitda cai 18% com pressão nas margens da carne bovina nos EUA e Brasil
- Seara, Austrália e carne suína compensam parte das perdas, enquanto Tomazoni deixa legado de expansão global e listagem na NYSE.