Que semana para a Raízen. Da última segunda até esta sexta-feira, 13 de fevereiro, a joint-venture entre Cosan e Shell passou por poucas e boas - rebaixamentos em sequência por agências de rating, especulações de vendas e movimentações societárias na imprensa e, por fim, mais um balanço no vermelho.
Desde que o processo de reestruturação da empresa se iniciou, ao final de 2024, a companhia tem evitado de dar entrevistas e, por conta disso, as calls da diretoria com o mercado após a divulgação dos balanços têm sido um raro momento de ouvir os diretores.
Nesta sexta-feira ainda mais, após a divulgação, nos últimos minutos da véspera, do resultado que mostrou perdas de quase R$ 15,6 bilhões no trimestre - resultado que foi impactado por uma manobra contábil da empresa (sem ela, ficaria em R$ 3,9 bilhões no trimestre e R$ 14,7 bilhões no perído de nove meses encerrados em 31 de dezembro de 2025).
E de a empresa admitir, no docmento, "a existência de incertezas relevantes que pode levantar dúvida significativa quanto à capacidade de continuidade operacional da companhia".
Foram diversas as mensagens da vez, partilhadas pelo CEO, Nelson Gomes, e CFO, Lourival Luz. De cara, aproveitaram o tempo para comentar sobre a contratação de assessores financeiros e legais para ajudar nesse novo momento da Raízen - Rothschild & Co na área financeira e os escritórios Pinheiro Neto Advogados e Cleary Gottlieb Steen & Hamilton LLP no terreno legal.
O anúncio desse movimento, feito na segunda-feira, 9 de fevereiro, foi o estopim que motivou Fitch, S&P e Moody's - principais agências de risco globais - a rebaixarem seu rating com a empresa. O movimento não foi bem recebido no mercado, e as ações da empresa negociadas na Bolsa já acumulam quase 20% de queda desde segunda.
"Selecionamos esses assessores para avaliar alternativas que mantenham a competitividade da empresa no longo prazo, e também para interagir com agentes de mercado. Estamos, junto aos acionistas, buscando uma solução estruturante, e é um processo que começou a meses e ainda vai se prolongar", disse Nelson Gomes, após citar que a estrutura de capital da companhia passa por um "ponto de inflexão".
Essa "solução estruturante" motivou o questionamento do analista Matheus Enfield, do banco UBS, que perguntou durante o Q&A realizado hoje o que a empresa considerava uma "estrutura de capital ideal".
Ouviu então de Lourival Luz que a meta era apresentar uma alavancagem em linha com os pares do setor, entre 2 vezes e 2,5 vezes o Ebitda. "Esse é o objetivo, e ele vai acontecer ao longo do tempo sendo fruto de uma melhoria operacional. Essa solução definitiva é abrangente, envolve venda de ativos e participação de acionistas. Não será imediato", disse o CFO.
Ao final do terceiro trimestre do ano-safra 2025/2026, a alavancagem medida pela relação entre a dívida líquida e o Ebitda estava em 5,3 vezes, bem acima das 3 vezes vista há um ano e mostrando um leve aumento frente ao segundo trimestre desta temporada, onde foi registrada uma alavancagem de 5,1 vezes.
O indicador foi puxado pela alta na dívida líquida, que atingiu R$ 55,32 bilhões ao final de dezembro, um avanço de 43% em um ano.
Os comentários feitos em relação ao balanço também fizeram questão de frisar que o prejuízo reportado de R$ 15,6 bilhões no trimestre, um avanço de mais de seis vezes em um ano, foi impactado por um impairment, sem efeito no caixa, de R$ 11,1 bilhões.
A empresa disse que reclassificou o valor de alguns ativos justamente por conta do momento de piora de estrutura de capital e do custo financeiro elevado. Apesar disso, a administração fez questão de frisar que fechou o trimestre com R$ 17,3 bilhões em caixa e aplicações, com mais de 90% do total com liquidez imediata. Segundo Lourival Luz, essa condição de caixa que dará conforto para buscar a solução para resolver a estrutura de capital.
Outro tópico abordado na call - e diretamente relacionado à essa agenda de otimização do capital - foi a venda dos ativos de mobilidade na Argentina. A empresa adimitiu oficialmente, pela primeira vez, que está em negociações para vender a operação e que espera concluir esse processo até o final de 2026.
"É um rito complexo que precisa seguir os trâmites regulatórios no Brasil e na Argentina, mas está seguindo exatamente o plano desenhado desde o início da jornada de transformação", disse o CEO, Nelson Gomes, ao questionamento da analista Isabella Simonato, do BofA.
No meio desta semana, a agência Bloomberg apontou que a Mercuria, empresa de energia da Argentina, estava mito próxima de ser a compradora do ativo, numa negociação que poderia ultrapassar US$ 1 bilhão. Os diretores da Raízen frisaram que não comentarão "especulações e boatos de mercado" e que a companhia só se manifestaria através de fatos relevantes.
Gabriel Barra, analista do Citi, ainda questionou a Raízen acerca da reportagem do site Brazil Journal, que apontou que a Shell e a Cosan negociam uma capitalização junto ao BTG.
O texto afirma que seria feita uma reorganização societária e em meio a um pacote de R$ 30 bilhões, dividiria a empresa em duas: Raízen E,nergia (com os ativos de açúcar e etanol) e Raízen Combustíveis (com o negócio de mobilidade).
Os novos negócios teriam uma alavancagem de 1,5 vez e 3 vezes, respectivamente, segundo o site. Gabriel Barra não obteve resposta.
"Vamos comunicar ao mercado todos os fatos que forem acontecendo e que precisem ser comunicados. Temos experienciado ao longo das últimas semanas muita especulação e temos dever de não especular potenciais estruturas, iniciativas, até que a companhia, junto com os controladores, conclua o trabalho", disse Nelson Gomes.
Gabriel Barra considerou os resultados do trimestre como fracos em relatório divulgado na manhã desta sexta. Segundo ele, mesmo observando esforços para melhorar a alavancagem e ajustar a estrutura de capital, as ações mais importantes virão justamente de um aumento de capital avaliado pelos acionistas controladores.
"Em nossa opinião, os investidores estavam preocupados com um possível pedido de recuperação judicial ou extrajudicial. Do nosso ponto de vista, o principal destaque negativo foi o fato de que os altos pagamentos de juros e a estrutura de capital desequilibrada aumentam o risco de continuidade operacional da empresa", prosseguiu Barra.
Resumo
- Rebaixamentos em série, dívida líquida de R$ 55,3 bilhões e alavancagem de 5,3 vezes colocam pressão sobre a estrutura de capital enquanto empresa avalia venda de ativos e participação dos controladores
- A alavancagem chegou a 5,3 vezes o Ebitda, com dívida líquida de R$ 55,3 bilhões, enquanto o prejuízo trimestral de R$ 15,6 bilhões foi inflado por impairment de R$ 11,1 bilhões sem efeito caixa
- Na conferência com analistas, empresa admitiu pela primeira vez negociação dos ativos na Argentina, mas não quis comentar possível cisão