Com uma dívida de R$ 1,5 bilhão com bancos, fornecedores e produtores rurais, a Cotribá, cooperativa de Ibirubá (RS), a mais antiga do Brasil, tem novo presidente: Carlos Diehl, que foi eleito pelos associados nesta terça-feira, dia 10 de março.

A eleição foi via chapa única e com uma solução caseira. Isso porque Dihel assume no lugar de Enio Cezar Moura do Nascimento, que havia chegado à presidência da Cotribá em outubro do ano passado. Antes disso, Nascimento ocupava o cargo de vice-presidente e foi guindado à liderança da cooperativa quando Celso Krug, então presidente, pediu renúncia alegando motivos de saúde. Diehl, por sua vez, era conselheiro e passou a ocupar a vice-presidência com a ascensão de Nascimento.

Ao AgFeed, em entrevista exclusiva, o novo presidente da Cotribá contou seus planos para a cooperativa, que atravessa dificuldades há tempos.

Nesse primeiro momento, Diehl diz que está fazendo um trabalho de avaliação financeira. "Queremos entender em que situação a cooperativa está e como que a cooperativa para em pé", conta o presidente da Cotribá.

Os planos também incluem uma auditoria para entender os motivos que levaram à cooperativa a atravessar dificuldades. "Para entendermos melhor o que foi e se foi feito de errado. Queremos fazer um apanhado geral e limpar todo o passado", diz.

Em outra frente, Diehl pretende avançar na renegociação com os bancos. "Vamos alongar tudo o que for possível", afirma o presidente. “A gente está pedindo um standstill para todos os bancos”, usando o termo em inglês que pode ser traduzido como uma suspensão temporária do pagamento das dívidas.

Em uma entrevista recente à Rádio Cidade, de Ibirubá, Diehl chegou a dizer que três fundos de investimento e um banco estariam dispostos a investir na Cotribá e que seriam necessários R$ 400 milhões para trazer melhor fluxo de caixa à cooperativa.

Diehl afirmou que, em um dos modelos avaliados, as instituições comprariam unidades da cooperativa, as alugariam para a Cotribá e, após cinco anos, revenderiam de volta para a própria cooperativa.

O presidente da cooperativa não mencionou, no entanto, essas informações na entrevista ao AgFeed. Procurada após a conversa, a assessoria de imprensa da Cotribá disse que "não é possível falar a respeito por força de sigilo junto aos investidores".

Além das negociações com os bancos, a ideia de Diehl é trazer os produtores de volta à cooperativa, para que se sintam confiantes em negociar com a Cotribá.

No ano passado, diante do desenrolar dos boatos – que se confirmaram – de que a cooperativa atravessava dificuldades, o recebimento de soja, carro-chefe da Cotribá, recuou de 16,6 milhões de sacas em 2024 para 5,4 milhões de sacas em 2025, um terço do volume anterior.

"Temos que fazer de volta os produtores para negociar. A Cotribá precisa que eles voltem a entregar grãos e insumos, é um círculo virtuoso. Isso acontecendo, a Cotribá para em pé", afirma.

Desde que chegou à vice-presidência da Cotribá, Diehl conta que vinha fazendo várias alterações na estrutura da companhia.

O quadro de funcionários, por exemplo, foi cortado quase pela metade, passando de 1.540 funcionários em abril de 2025 para 799 funcionários agora. "Enxugamos muito a máquina. Alteramos nosso cronograma e diminuímos níveis de lideranças intermediárias", diz.

Em paralelo, também foram feitas vendas de ativos como carros e caminhões e de três unidades de recebimento de grãos – duas dessas unidades foram adquiridas pelo grupo Olfar.

Do ponto de vista comercial, Diehl conta que começou a fazer contratos de prestação de serviços para que o pagamento fosse feito rapidamente aos produtores. Acordos bem-sucedidos foram feitos com a Celena Alimentos, empresa de Eldorado do Sul (RS), que produz o óleo de soja Violeta, com o grupo Olfar e com outra trading.

Esses acordos envolvem pagamento direto aos cooperados por parte das empresas. “É como se o dinheiro fosse carimbado”, compara Diehl.

“Fizemos contrato com a Celena para recebimento de canola e pagamento direto pela Celena para o produtor. Com isso, muitos produtores, mesmo com toda a condição de débito, entregaram sua produção para contribuir. Todo mundo recebeu”, afirma.

Contratos do tipo já foram feitos com canola, trigo e milho. Para a soja, que está sendo colhida, a Cotribá está prestes a assinar com três tradings acordos do mesmo perfil.

Com essas mudanças, a dívida recuou de R$ 1,9 bilhão em abril de 2025 para os atuais R$ 1,5 bilhão, segundo Diehl.

Ainda assim, o faturamento da Cotribá no ano passado foi impactado negativamente pelas dificuldades financeiras e atrasos nos pagamentos aos produtores. O resultado final aponta um volume total de R$ 1,980 bilhão em entradas, 40% a menos que em 2024, quando havia somado R$ 3,3 bilhões.

Para 2026, no entanto, Diehl acredita que o faturamento deve voltar à faixa de R$ 3 bilhões.

"A partir de outubro do ano passado para frente, o que estamos prometendo pro produtor estamos cumprindo", garante o novo presidente da Cotribá. "Sabemos que temos passivo com eles, mas o passivo só vai ser pago se o produtor entregar grãos e insumos", afirma.

Aos produtores rurais, estima Diehl, a cooperativa deve R$ 162 milhões no momento. Ele ressalta ainda que, anteriormente, o passivo era maior e chegava a R$ 300 milhões, mas foi saldado em parte com os acordos comerciais.

O novo presidente lembra, no entanto, que a Cotribá possui cerca de R$ 900 milhões em contas a receber e que parte dos débitos são de produtores que adquiriram insumos da cooperativa e não quitaram suas dívidas posteriormente.

“A cada R$ 1 que a Cotribá deve ao produtor, os produtores estão devendo R$ 1,80 à cooperativa”, estima Diehl. “E como havia a informação de que a Cotribá estava ‘quebrando’, muito produtor deixou para lá essa dívida pensando: ‘Já que vai quebrar, vou ficar devendo’”

Diehl avalia que a cooperativa era muito permissiva e acabava aceitando condições que não eram favoráveis do ponto de vista financeiro para continuar próxima de seus associados, mas que a partir de agora, as condições de crédito devem passar por mudanças.

“Antes, aparecia a ‘mãe’ Cotribá para muita gente que não tinha mais crédito em lugar nenhum e levava os insumos. O crédito era liberado muito fácil”, diz.

Trocas de comando

Se os boatos já rondavam a Cotribá há algum tempo e as dificuldades já eram conhecidas entre produtores, a crise passou a vir a público no segundo semestre do ano passado. Em setembro, produtores de soja cercaram uma unidade de armazenamento de grãos localizada em Cruz Alta (RS), cobrando o pagamento de grãos que haviam sido recebidos e cujos débitos não haviam saldados.

Na sequência, a Cotribá contratou um CEO, o professor universitário e administrador Luís Felipe Maldaner, e o então presidente, Celso Krug, renunciou ao cargo.

Já sob novo comando, a cooperativa tentou um inédito pedido de recuperação judicial, que acabou sendo aceito em um primeiro momento pela Justiça gaúcha, mas depois rejeitado em outras instâncias.

Nesse meio tempo, Luís Maldaner foi desligado do cargo em janeiro passado e, em entrevista ao AgFeed, contou que não estava concordando com os rumos que a direção da cooperativa vinha pensando para estancar a crise.

As divergências, segundo Maldaner, eram principalmente com a filosofia adotada por Carlos Diehl e “soluções mágicas” trazidas pelo agora presidente para salvar a cooperativa.

O novo presidente da Cotribá, por sua vez, rebate as falas de Maldaner. "Tudo o que ele falou não era verdade", diz. "É uma pessoa do bem, honesta, mas a gente descobriu que ele não servia para o cargo, pois não apresentou resultado. O conselho precisa ser ágil e foi por isso que nós demitimos ele", complementa.

Diehl adianta também ao AgFeed que a Cotribá já tem um novo CEO. Trata-se de Paulo Goulart, nome que já havia sido mencionado por Luís Maldaner à reportagem no fim de janeiro.

Goulart, que também assume o cargo de CFO da cooperativa, é o presidente da Gocil, empresa de prestação de serviços de São Caetano do Sul (SP), que enfrenta dificuldades financeiras e que teve seu pedido de recuperação judicial aceito pela Justiça ano passado.

"Ele é uma pessoa do mercado financeiro, muito bem visto pelo mercado, tem experiência em outras cooperativas, grandes empresas e está trabalhando fortemente no nosso plano de reestruturação", afirma Diehl.

Goulart já vinha negociando há alguns meses com a Cotribá e, segundo Maldaner, quase desistiu de entrar na operação após o antigo CEO ter contratado os serviços da consultoria Tarvos Partners para ajudá-lo na recuperação da empresa.

Já a negociação da Cotribá com um fundo de investimento dos Estados Unidos, o PHL Vision Hedge Fund & Frust, do empresário brasileiro Oderli Feriani, não evoluiu, segundo Diehl.

Em novembro, a cooperativa havia chegado a assinar um memorando de entendimento não vinculante com o fundo de Feriani. O documento previa injeção de recursos e quitação completa das dívidas da Cotribá a partir da assinatura do contrato, que deveria ter acontecido em 60 dias após a assinatura do memorando. O prazo venceu em janeiro, mas o acordo não saiu do papel.

"Não houve nenhum desacerto, pelo contrário, nos trataram com muito carinho. Mas tínhamos duas propostas na mesa e a que avançou foi, no nosso entendimento, a melhor", afirma o novo presidente da Cotribá, em referência à entrada de Paulo Goulart na cooperativa.

De acordo com Diehl, a Cotribá também não pretende voltar atrás de sua desistência do pedido de recuperação judicial. Um despacho da primeira instância, do juiz Eduardo Busanello, da Vara Regional Empresarial de Santa Rosa, publicado no dia 2 de novembro, abriu a possibilidade de recuperação judicial da cooperativa. As RJs, contudo, não estão previstas pela legislação do cooperativismo, motivando os diferentes entendimentos por parte do Judiciário gaúcho.

Em despachos posteriores, a desembargadora Eliziana da Silveira Perez, da 6ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJ-RS), derrubou a decisão inicial do juíz Busanello e negou recurso da Cotribá.

A cooperativa ia tentar seguir com a causa, que poderia evoluir para outras esferas do Judiciário, incluindo o Superior Tribunal de Justiça (STJ), mas acabou desistindo do processo no último dia 23 de fevereiro.

“Já tinha data marcada no tribunal para julgamento, mas a gente observou que a causa não tinha sustentação, não ia ser aprovada. Antes de que isso ocorra, em ficar em trânsito e julgado, desistimos porque a causa foi mal colocada, na verdade”, avalia Diehl.

Má gestão

Apesar de os resultados da auditoria não estarem completos, Diehl avalia que houve má gestão no passado, que culminaram nas dificuldades vividas hoje pela cooperativa.

Diehl lembra que em 2024, por exemplo, a então diretoria da Cotribá decidiu receber soja avariada pela enchente que assolou parte do Rio Grande do Sul naquele ano.

“É o que o pessoal chama de “soja ardida”. Só que ninguém recebia mais, nenhuma outra empresa recebia mais, mas a Cotribá recebeu, pois achava que poderia ter um bom resultado”, diz. “Isso foi uma catástrofe. Perdemos soja e houve até incêndios em silos. Foi uma confusão, que também trouxe prejuízo contábil.”

Diehl também atenta para os investimentos que vinham sendo feitos nos últimos anos pela cooperativa.

Antes da crise, a Cotribá vinha em expansão acelerada, fazendo aportes em novas unidades, ampliação da abrangência geográfica, abertura de supermercados e postos de gasolina ao mesmo tempo que os produtores gaúchos enfrentavam quebras de safra.

Só em uma nova fábrica de rações, investimento mais recente da cooperativa, inaugurado em agosto de 2024, foram aportados pelo menos R$ 180 milhões.

“Todo esse crescimento foi baseado em financiamentos, Um financiamento CDI + 37%, mais todas as outras taxas, vira 24% ou 25%. Cooperativa não tem essa margem. É como numa empresa, você tem que ter uma poupança, um capital para investir. E não sair ampliando na base de investimento bancário, de fundos, do sistema financeiro”, analisa Diehl.

A nova gestão da Cotribá pretende vender ativos que não sejam interessantes do ponto de vista financeiro, afirma o presidente.

Supermercados da cooperativa e unidades de recebimento muito próximas umas das outras estão entre possíveis itens a serem vendidos. Mas a valores justos, ressalta Diehl. “Os ativos têm tido interesse, mas muitos acham que a gente está botando fora. Não podemos sacrificar, afinal, quando você vende um ativo, está vendendo o ponto”, diz.

Natural de Ibirubá, Diehl é engenheiro mecânico de formação, graduado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e durante quase 30 anos atuou na Petrobras, em diferentes posições. Também trabalhou em outras empresas do setor petroquímico, como Quattor e Braskem.

Em paralelo, seguiu tocando uma propriedade rural em Ibirubá e, desde 2020, depois de morar em Porto Alegre, no Japão e no Rio de Janeiro, voltou de vez ao município, onde hoje possui áreas produtivas que totalizam 300 hectares.

“Vim cuidar desse negócio, e tive oportunidade de entrar aqui na Cotribá. A minha intenção inicial era de ajudar porque eu via que tinha muitas questões administrativas, de gestão. O momento acabou coincidindo.”

Resumo

  • Em entrevista ao AgFeed, novo presidente da Cotribá, Carlos Diehl, afirma que vai pedir standstill aos bancos, alongar dívidas e realizar auditoria interna para entender as causas da crise da cooperativa
  • A estratégia também passa por reconquistar produtores que deixaram de negociar com a cooperativa, além de firmar contratos com tradings que pagam diretamente aos cooperados
  • Para melhorar o caixa, a nova gestão pretende vender ativos não estratégicos, manter cortes de custos e concluir a reestruturação, processo que já reduziu a dívida de R$ 1,9 bilhão para R$ 1,5 bilhão e cortou o quadro de funcionários pela metade