Leslie Gonzáles tem duas vidas paralelas. No horário comercial – e algumas horas extras, sem dúvida – a engenheira de telecomunicações e eletrônica cubana, radicada em Araçatuba (SP) atua nos bastidores de algumas das mais avançadas tecnologias disponíveis para o agronegócio.

“Mãe” da Alice, plataforma de inteligência artificial da Solinftec, e de boa parte dos produtos da empresa, da qual é uma das fundadoras e principais cérebros, seu trabalho é reconhecido internacionalmente no universo agtech.

Bem cedinho, antes do expediente, à noite ou nos fins de semana, seu lado pragmático, analítico e racional sai de cena. Então ela se transforma na criadora de mundos mágicos, com florestas azuis, personagens místicos e tramas repletas de fantasias.

É a hora de Leslie G., escritora com três livros publicados na Espanha e um quarto prestes a ser lançado. No próximo sábado, 6 de junho, ela estará na Feira do Livro de Madrid autografando seu quarto título, A Princesa de Elsseria, possivelmente cercada de cosplayers vestidos conforme as criaturas a quem ela dá vida em seus textos.

As duas Leslies convivem antes mesmo de a primeira letra escrita por ela ser impressa. Os mundos de suas obras lhe apareciam, desde criança, em sonhos – às vezes “pesadelos fortes”, como ela conta – e começaram a ganhar forma em 2018 como uma espécie de terapia.

“Eu sou uma pessoa bem pragmática, bem racional, analítica”, diz Gonzales em conversa com o AgFeed. “Então, ninguém que me conhece vai adivinhar que eu também escrevo e ainda mais escrevo fantasia”.

Super-realistas, “daqueles em que você sente até o sabor das comidas”, seus sonhos e pesadelos ficavam em sua mente durante dias, até que ela começou a escrevê-los. Ao mostrar um desses textos ao marido, o CEO da Solinftec, Britaldo Hernandez, ele a estimulou a seguir.

“Ele falou: ‘daqui sai uma história boa’”. E ela seguiu. E descobriu que escrever a ajudava muito, não apenas com o problema dos pesadelos, mas também como uma forma de desconexão dos estresses do mundo real.

“O meu cérebro é muito ativo, não pára, eu não consigo apagar ele. Meu dia a dia é analisar, criar algoritmos, resolver problemas matemáticos, trabalhar com os times. Então, quando eu consigo achar um momento de paz, assim, que eu consigo desconectar, é como se entrasse outra pessoa”.

Metodicamente separadas em seus horários de expediente, as duas Leslies invariavelmente se encontram ao longo de seus processos produtivos e criativos. Diante dos desafios tecnológicos, muitas vezes a engenheira recorre à imaginação para encontrar novos caminhos para encontrar soluções.

“Você precisa ser criativo, inovar, pensar fora da caixa, você precisa testar outras abordagens que ninguém mais no mundo testou e ir vendo, ir encaixando os pedacinhos e vendo como vai dando certo”, explica.

Segundo ela, foi esse olhar menos convencional, que vai além das discussões com colegas ou em fóruns com outros desenvolvedores, que a permitiu chegar aos produtos que colocaram a Solinftec na dianteira da inovação em soluções para automação de operações agrícolas.

Sua “filha” mais arrojada, a plataforma de inteligência artificial Alice, que hoje está no centro de toda a estratégia da companhia, tem esse DNA. Ela começou a ser desenvolvida quando ainda não se falava em IA generativa, usando os recursos de superprocessamento do Watson, supercomputador da IBM que marcou época no início da década passada.

À medida que o processo avançava, entretanto, González se deparava com questões aparentemente insolúveis com os modelos então disponíveis. Eram segundo conta, “situações tão complexas que a gente não achava soluções para vários desafios que nós tínhamos”.

O método criativo “fora da caixa”, porém, foi fazendo as peças se encaixarem até que a Alice começou a ganhar forma. “Tanto é que teve um evento em que os meninos (da sua equipe foram) e o pessoal da IBM ficou impressionado com a complexidade da nossa Alice”.

O próprio batismo da IA, já na primeira infância da tecnologia, há quase dez anos, demonstra os momentos em que as duas vidas de Leslie convergem. A “mãe” queria um nome feminino, que, segundo ela, lembrasse ficção e tivesse a ver com a complexidade do pensamento humano.

Foi então que surgiu Alice, em meio a referências “nerds” do mundo cultural. Primeiro, a protagonista dos filmes de ficção científica da série Residente Evil. “Lá tem uma IA que é muito astuta, muito inteligente, muito estratégica, uma IA que, no meu critério, se deu bem no trabalho dela”, explica.

E há a mais famosa das Alices, a do País das Maravilhas, clássico literário de Lewis Carroll publicado em 1865. Leslie descreve:

“Alice faz uma viagem para um mundo que aparentemente parece caos. Então, a primeira impressão que você tem é que pegaram fragmentos da realidade, jogaram ali de forma caótica e, conforme você vai avançando na história, você vai descobrindo que existe uma conexão lógica dentro desses fragmentos”.

E prossegue: “Então não é caos, existe uma conexão lógica e você vai aprofundando nas complexidades da mente humana. E aí, ela tem essa similitude com a IA, que parece que jogou um monte de dados ali dentro, mas não é. Existem conexões, existe lógica entre os dados e, à medida que vamos conseguindo fazer isso, ela vai tentando simular – não vai substituir nunca, mas se aproximar – as complexidades do pensamento humano”.

Leslie G., a autora, traz as mesmas referências para suas obras, assim como diz se socorrer da engenheira Leslie Gonzales em alguns momentos de seu processo criativo. Seu lado racional e analítico entra em ação quando o ato de escrever avança para uma nova fase, a da revisão, da busca de eventuais inconsistências ou erros, ou mesmo na organização do lado prático da rotina de escritora, como a promoção dos livros ou o contato com os leitores/seguidores.

Nas suas obras, Leslie G. construiu do zero um universo próprio, que remete a um período medieval, com diferentes reinos e regiões, com características geográficas e habitantes específicos para cada um deles, a exemplo de obras renomadas como O Senhor dos Anéis ou Game of Thrones.

Embora seus livros sejam histórias autônomas, que podem ser lidas individualmente, eles se relacionam, com cenários e personagens que aparecem em mais de um dos livros.

A engenheira se encarrega de cuidar de que essas aparições sejam consistentes e coerentes. Quando inicia um novo texto, diz, deixa as ideias fluírem livremente e depois as estrutura. Mas anota pontos que precisam ser checados posteriormente.

Quando chega esse momento, faz o processo de revisão quase que manualmente – curiosamente, sem buscar auxílio nas ferramentas que tanto domina. No mundo da autora, a tecnologia é coadjuvante, jamais protagonista.

“O primeiro livro que eu escrevi era mais de visão científica, era uma distopia e tinha algumas coisas de tecnologia”, afirma a escritora. “Mas depois eu passei muito rápido para a fantasia. Os outros não têm nada de tecnologia, é fantasia pura, fantasia medieval”.

Mas a engenheira completa o raciocínio: “Mas têm análise também. Assim, eu me questiono muitas coisas, eu resolvo muitas coisas. Os meus mundos têm regras robustas e elas são respeitadas. Eu acho que aí entra a minha parte analítica também. Isso aqui tem que fazer sentido, a pessoa tem que acreditar no que está lendo”.

Assim, a mesma lógica do desenvolvimento de produtos se aplica à literatura. Em um como em outro, segundo ela define, as Leslies têm o mesmo estilo: “pegar tudo que tem de diferente e estruturar depois para que a história funcione”.

O universo de Leslie G.

O mundo em que as histórias acontecem tem um mapa que nasceu de forma curiosa. Em seus momentos de folga, Leslie gosta de sentar no quintal de casa e observar o movimento das nuvens no céu.

Um dia, uma formação dessas nuvens lhe chamou a atenção. Ela sacou a câmera e fotografou. Então, enviou a imagem a um designer com um pedido: desenhar um mapa para o seu mundo seguindo aquele desenho.

Ela poderia pedido esse trabalho a uma IA, mas no mundo de Leslie G. essa hipótese não é cogitada – e aqui ela se distancia de sua outra vida.

A escritora não vê a tenologia como uma substituta da sensibilidade do trabalho artístico, em qualquer de suas manifestações. “No mundo artístico, eles se sentem ameaçados pela IA”, ela explica.

No caso de suas obras, o máximo que ela permite é, nas interações com os leitores e na formação de imagens como as das capas dos livros, o uso da tecnologia para ajudar na visualização de cenários e personagens, mas de forma parcimoniosa. “Tem de ter responsabilidade, usar no lugar certo”, diz.

A autora estimula que seus leitores viajem pelo seu universo usando apenas a imaginação. Ao falar desse mundo, diz que ele tem dois sois e florestas azuis.

“É tudo muito vinculado à natureza. E tem diferentes raças com magia. Dependendo de onde elas estejam, elas têm características físicas próprias e elas têm a própria magia, que sempre tem a ver com a natureza de onde as pessoas estão. E existem leis ali dentro que controlam, que regulam como que essa magia é transmitida de pais a filhos, como que ela é utilizada, quais são as limitações”.

Luz e escuridão se sucedem nas histórias, seja nas descrições dos ambientes, seja nos conflitos internos dos personagens. “A ambientação vai acompanhando a história. Se a história fica mais escura, a ambientação vai ficando mais escura”, conta.

“Então, tem lugares muito bonitos, de paz, tranquilidade. E tem cenas também bem cruas. E os personagens, eles lidam com essas contradições internas. Os vilões não são 100% vilões e os heróis não são 100% heróis”.

A participação feminina é forte, ela destaca. Isso fica evidente na obra que será lançada no próximo sábado em Madrid – que, na verdade, é o primeiro escrito por Leslie G..

Isso acontece porque o contrato com sua editora espanhola lhe dá os direitos de publicação de suas obras em todos os idiomas. Antes disso, o primeiro livro já havia tido uma primeira edição em Português, então retirada do mercado, e a decisão foi iniciar o trabalho com obras inéditas.

A Princesa de Elsseria, segundo relato da autora é a história de uma adolescente, uma jovem de uns 18, 19 anos, que foi adotada pela rainha de Elsseria. “Ela foi criada lá, mas ela tem características físicas muito diferentes das pessoas onde ela mora. E ela também tem coisas escuras por dentro. Tem sonhos, tem certos instintos escuros que ela tenta reprimir”, resume.

“É uma história que reflete essa idade da adolescência em que a gente sente que não se encaixa em nenhum lugar, que a gente tem coisas por dentro que a gente não se atreve a mostrar. E tem bastante contraste entre a escuridão e a luz”.

O segundo livro se chama Os Deuses Alados de Ácatar. “O foco desse livro é a busca pela verdade”, ela diz. “Se a princesa era autodescobrimento e aceitação, nesse temos uma lenda sobre criaturas escuras, de asas pretas, que moravam na ponta do monte mais alto do mundo”.

A Maldição de Torn, o terceiro, é classificado por ela como “um livro de amor”. Não é, segundo Leslie, um romance, “mas desse sentimento de amor pela família, pelos amigos, de lealdade, de responsabilidade, de resiliência na vida”.

O medo e sentimentos mais obscuros dos personagens são o ponto focal da quarta obra, Erawol, A Última Lenda. Na descrição de Leslie, é, entre todas elas, a de cenas mais fortes e densas, em que muitos dos protagonistas dos outros livros surgem, agora como secundários. “Ele encerra a coleção, mas pode ser lido como o primeiro”, aponta.

Leslie G. já tem, entretanto, outros manuscritos escritos e novos projetos em sua mente inquieta. Quem sabe, no futuro, com versões para o Português.

Segundo ela, há conversas com a editora sobre essa possibilidade, mas nada de concreto ainda. “Se tiver alguma editoria brasileira com interesse, o pessoal está aberto, sim”, diz. Então, se isso acontecer, também essa vida paralela de Leslie será plenamente radicada no Brasil.

Resumo

  • Fundadora da Solinftec e criadora da IA Alice, Leslie González é também escritora de fantasia, com três livros publicados na Espanha.
  • Quarta obra será lançada na Feira do Livro de Madrid no próximo dia 6 de junho
  • A mesma imaginação usada para construir universos mágicos ajuda Leslie a desenvolver soluções tecnológicas e algoritmos para o agronegócio