A fraqueza da Raízen, companhia sucroenergética que vem enfrentando dificuldades nos últimos anos e passa por um grande processo de reestruturação, afetou os resultados de sua holding-mãe, a Cosan, de Rubens Ometto, em 2025.
E não surpreende que os movimentos da Cosan para tentar encontrar uma solução para o “problema” Raízen tenham dominado a pauta da teleconferência do conglomerado a investidores e analistas do mercado financeiro na manhã desta terça-feira, dia 10 de março.
A call veio após a Cosan ter apresentado balanço com prejuízo de R$ 9,7 bilhões no acumulado de 2025. Só no quatro trimestre do ano passado, o prejuízo foi de R$ 5,8 bilhões. A Cosan atribuiu os resultados principalmente ao desempenho ruim da Raízen que, sozinha, teve efeito negativo de R$ 7,6 bilhões no balanço.
A dívida líquida da Cosan somou R$ 9,8 bilhões ao fim de 2024, 58% a menos do que no fechamento de 2024, quando era de R$ 23,4 bilhões.
A diminuição do endividamento se deve a um aumento de capital realizado pela companhia no ano passado, quando houve uma capitalização de R$ 10 bilhões liderada por Perfin e banco BTG Pactual.
Aos investidores e analistas do mercado, o presidente da Cosan, Marcelo Martins, disse, nesta terça-feira, que a companhia passou os últimos meses buscando alternativas para resolver a estrutura de capital da Raízen, mas com limites claros para novos aportes.
“Nós temos nos envolvido em discussões para encontrar uma solução para a estrutura de capital de Raízen há algum tempo”, afirmou o executivo.
“Todo mundo sabe do nosso grande esforço no ano passado para resolver a estrutura de capital da Cosan. Todos os passos que foram tomados tinham em vista protegermos a Cosan e endereçar paralelamente a estrutura de capital de um dos nossos principais negócios.”
De acordo com Martins, a prioridade definida com os acionistas foi reduzir a alavancagem da holding, o que acabou restringindo a capacidade de novos aportes na empresa do ramo sucroenergético e ao mesmo tempo não “contaminar” os resultados da Cosan.
“Deixamos claro ao mercado que tínhamos uma limitação grande, ainda que uma disposição de colocar dinheiro em Raízen. Só que essa disposição estaria limitada a um valor que não poderia ultrapassar parte dos recursos contribuídos no aumento de capital”, disse.
O executivo afirmou ainda que as negociações com a Shell, que é sócia da Cosan na Raízen, se intensificaram nos últimos meses, mas sem consenso sobre a participação da Cosan em uma capitalização.
“Nos últimos dois meses não conseguimos chegar a um acordo a respeito da participação efetiva de Cosan”, afirmou.
“No último mês, nós conseguimos, pelo menos, ter uma mensuração desse compromisso de capital. A Shell deixou claro que teria uma limitação de um valor, foi flexível com relação ao um para um contribuído pela Cosan, mas a forma como a gente acabou construindo esta alternativa fez com que tivéssemos uma limitação de colocar a nossa parte nos termos que estão sendo discutidos hoje”, complementou Martins.
A Shell teria recusado uma proposta feita pela Raízen e informou que pretende fazer sozinha uma capitalização de R$ 3,5 bilhões, que não seria seguida pela Cosan, o que levaria a uma forte diluição da companhia do setor sucroenergético.
Rubens Ometto, acionista controlador da Cosan, pretende fazer um aporte de R$ 500 milhões por meio de sua holding familiar, a Aguassanta.
Mesmo sem participar diretamente da capitalização neste momento, a holding segue acompanhando as tratativas, segundo Martins.
“O nosso envolvimento, neste momento, não é direto, em virtude da nossa não participação na capitalização, mas nós, como acionistas e conselheiros, temos acompanhado essa evolução”, disse Martins, que adiantou que uma solução deve ser anunciada muito em breve.
“Acreditamos que nos próximos dias a gente deva ter novos desdobramentos para encontrar uma saída adequada para a companhia.”
Martins avaliou ainda que a estrutura de capitalização da Raízen apresentada não é suficiente para resolver a situação.
“A razão pela qual nós não estamos participando é porque a gente acha que a estrutura que, em princípio, foi apresentada e que, obviamente, ainda vai ter que ser debatida e aprovada no tempo, não resolveria na integridade as questões de Raízen e estruturas de capital”, disse.
Assim, na avaliação da Cosan, a não-separação dos negócios da Raízen, que processa açúcar e também distribui combustíveis, é um “problema”.
“E o que quer dizer isso? A separação significa, basicamente, que os negócios deveriam ter estruturas de capital distintas, porque são negócios que têm geração de caixa distintas e que têm, efetivamente, natureza do ponto de vista de alocação de capital também distintas”, afirmou Martins. “De forma que haja eficiência do ponto de vista de sustentabilidade do negócio, é importante que isso aconteça.”
Ainda assim, a crença na divisão dos segmentos não foi o fator determinante para que a entrada da Cosan na capitalização não acontecesse.
“Nós não estamos colocando isso como uma condição inexorável, até porque, neste momento, a Cosan não está fazendo contribuição de capital e nem poderia impor condições que, eventualmente, poderiam ser aceitáveis para a Shell ou para os credores. A gente não vai passar por cima do que seja aceitável para a Shell e para os credores.”
Martins também comentou sobre uma eventual venda de 30% da participação da Rumo, companhia de logística da Cosan, para a gestora Perfin e para a Ultrapar, controladora da Ipiranga. As informações foram divulgadas inicialmente pela agência Bloomberg.
“O que está acontecendo com a Rumo hoje acho que é uma especulação de potenciais interessados querendo gerar um impacto de preço para poder se aproveitar dessa situação e eventualmente fazer uma compra que não nos interessa”, disse.
“Então, assim, deixando bem claro, nós não temos neste momento absolutamente nenhum engajamento para fazer a operação que foi veiculada no mercado ontem. Isso obviamente não significa que a gente não vai considerar vender alguma participação em Rumo”, afirmou.
“Queria dizer que a especulação atual de que a gente estaria engajado numa venda efetiva da participação total de Rumo é incorreta”.
Martins disse que, apesar de a Cosan considerar vendas de participação em todos os seus negócios, ainda não há um percentual definido sobre a participação que a Cosan deseja ter em cada um dos ativos que deseja vender.
“Se eventualmente, as condições de mercado forem adequadas e a gente tiver um interesse efetivo por um múltiplo de avaliação de um determinado negócio que a gente considere adequado e interessante, a gente pode, certamente, vender uma participação relevante no negócio”, disse.
“Se a gente, efetivamente, não enxergar que existe essa situação, nós definitivamente não venderemos nenhuma participação nesse negócio. Qualquer especulação hoje a respeito de um tamanho efetivo de desinvestimento em qualquer negócio que seja, está errada, equivocada”, emendou.
As falas de Martins parecem ter agradado os investidores da Cosan. Às 13h desta terça-feira, as ações da companhia apresentavam alta de 6,62%, cotadas a R$ 6,12 cada. No ano, porém, acumulam queda de 13,68%.
Já as ações da Raízen apresentam queda de 3,64%, cotada a apenas R$ 0,53. Em um ano, têm desvalorização de 69,13%.
Resumo
- Pressionada por fraco desempenho da Raízen, Cosan teve prejuízo de R$ 9,7 bilhões no ano, enquanto a empresa sucroenergética registrou efeito negativo de R$ 7,6 bilhões
- A Cosan afirma que buscou uma solução para a estrutura de capital da Raízen, mas priorizou reduzir sua própria alavancagem
- A Shell deve entrar com R$ 3,5 bilhões em uma possível capitalização da Raízen, enquano sua sócia no negócio, a Cosan, afirma esperar novos desdobramentos “nos próximos dias” para resolver a situação da empresa