Os projetos bilionários do setor florestal seguem movimentando a economia de Mato Grosso do Sul, que vem sendo chamado de “Vale da Celulose”, embora nem todos avancem no ritmo esperado, inicialmente.
Entre investimentos já feitos e anúncios de aportes que ainda estão por vir, o estado estaria recebendo cerca de R$ 90 bilhões para expandir o plantio de eucalipto e a fabricação de papel e celulose.
Um dos players que chegou ao MS em 2021 com planos de crescer foi a Bracell, multinacional pertencente ao grupo RGE (Royal Golden Eagle), de Cingapura.
As atividades de plantio de florestas da empresa vêm sendo intensificadas ano a ano. Em 2023, o braço da Bracell que atua em Mato Grosso do Sul ganhou uma nova marca e, somente no estado, a empresa passou a ser chamada de MS Florestal.
Por enquanto, as atividades seguem restritas à silvicultura na região, com três polos principais, que são os municípios de Bataguassu, Água Clara e Nova Alvorada do Sul. Também há um escritório na capital, Campo Grande.
A expectativa, porém, é que todo o investimento em produção de eucalipto seja apenas uma preparação para abastecer a futura fábrica da Bracell que, segundo informações mais recentes, deve ser construída em Bataguassu.
A Bracell confirma que está conduzindo os trâmites para viabilizar um novo projeto industrial, o que envolve estudos e autorizações legais, incluindo a questão socioambiental. Quando houver a construção, a previsão é de um investimento de R$ 16 bilhões, sendo que o pico das obras vai demandar 12 mil trabalhadores.
Enquanto isso não ocorre, o trabalho vai avançando no interior.
“Eu cheguei aqui em junho de 2023, quando mudou a marca. A gente tinha 600 colaboradores e agora temos 2,3 mil. Então a gente vem expandindo muito”, afirmou Amanda Barrera, gerente sênior de Recursos Humanos da MS Florestal, em entrevista ao AgFeed.
As contratações vêm sendo aceleradas, segundo a executiva. Entre janeiro de 2025 e o início deste ano, o número de funcionários da companhia no estado saltou de 1,4 mil para 2,3 mil, um avanço de 57%.
A MS Florestal não divulga os dados de área cultivada, atualmente. Na época em que houve o anúncio da intenção de construir uma fábrica, junto com o governo do estado, estimava-se que seriam 50 mil hectares de produção.
Na conversa com o AgFeed, no entanto, a gerente de RH foi clara: “Hoje a nossa unidade florestal aqui no MS, em quantidade de hectares plantados, já é maior do que a de São Paulo”.
A partir desta afirmação, vale lembrar os dados mais recentes sobre a área cultivada pela Bracell no estado de São Paulo, em notícias divulgadas na imprensa. Seriam 183 mil hectares de produção em terras paulistas.
O desafio da gerente de RH da MS Florestal é conseguir preencher todas as vagas em aberto que possui. No começo, a empresa contratava mais a mão de obra operacional para atividades de plantio.
Agora, começa uma etapa mais complexa, com a necessidade de formar operadores de máquinas para a colheita e até sistemas de drones e inteligência artificial.
“Mas quando você cresce na mão de obra operacional, cresce tudo junto, todas as nossas áreas de apoio cresceram juntas. Hoje a gente tem 16 gerentes aqui no Mato Grosso do Sul”, relata.
No Sul do estado, segundo Amanda, é onde as contratações foram ainda mais intensas, já que há mais parceiros para plantação. A empresa atua em 13 municípios.
Somente em Bataguassu, a MS Florestal já conta com 1,5 mil trabalhadores, sendo que a cidade tem 26 mil habitantes.
Apesar da concorrência com outras gigantes que vêm investindo em MS como Suzano, Eldorado e Arauco, a executiva garante que tem conseguido manter o turnover em níveis semelhantes aos registrados em outras unidades da Bracell como São Paulo e Bahia.
O índice estaria em 30% nas atividades operacionais e “bem abaixo disso” para áreas mais tecnológicas ou administrativas. O dado é considerado positivo – em linha com outros estados – porque o RH da região trabalha com longas distâncias e forte concorrência no “Vale da Celulose”.
Ela diz que 80% da mão de obra contratada recentemente se refere a pessoas da própria região. Os outros 20% vieram de outras áreas, principalmente do Nordeste do Brasil, já que os projetos de celulose vêm chamando a atenção deste público.
“Não é 100% local (a mão de obra), porque tem uma hora que você divulga uma vaga e realmente você não tem inscritos”.
A prova de que as contratações estão aquecidas no segmento está nos dados recentes do Caged, que mostra o cultivo de eucalipto com papel importante para manter o saldo positivo do setor agropecuário em Mato Grosso do Sul.
Das 1.256 novas vagas abertas no grupamento da agropecuária ao longo do ano, 701 foram geradas diretamente pelo cultivo de eucalipto, o que representa 55,81% do total de empregos do setor.
Vagas para operadores de máquinas pesadas, mecânicos automotivos e supervisores de silvicultura têm liderado as buscas das empresas, segundo a gerente da MS Florestal.
E como ficar mais atrativo em meio à concorrência com outras grandes empresas do setor? Amanda Barrera afirma que o grupo vem investimento muito “em desenvolver a comunidade”.
“Tanto aqui em Bataguassu como em Água Clara, a gente tem programa de formação para a comunidade, seja de operador de equipamento, de operador de colheita, de piloto de drone. A gente faz esse trabalho para conseguir deixar a mão de obra mais qualificada”, explicou.
Oferecer um bom pacote de benefícios também é estratégia da companhia, o que inclui plano de saúde, assistência odontológica, seguro de vida e auxílios farmácia e alimentação.
Na MS Florestal, quem ingressa nos cursos de formação para colheita, por exemplo, já é contratado como CLT, mesmo passando por vários meses sem ter assumido a função.
A empresa também vem reforçando ações que ajudem na retenção de talentos. O objetivo é que, inclusive as pessoas que vêm de outros estados, realmente optem por construir uma família nos municípios de MS, criando bases na região.
“Não adianta eu trazer as pessoas, se eu não conseguir mantê-las aqui. Então no ano passado a gente teve quase 15% de toda a nossa força de trabalho que teve alguma movimentação de promoção. Todas as vagas que abrem, a gente divulga internamente”.
Perguntada se os salários também foram elevados devido à maior demanda, a executiva diz que a remuneração ainda segue os acordos coletivos. O salário-base para atividades mais simples é de R$ 1,8 mil, mas quem opera equipamentos mais tecnológicos, de colheita, por exemplo, a faixa já ficaria acima de R$ 3 mil.
“Para produtividade, a gente trabalha bastante é com (remuneração) variável, com prêmio de produção, de acordo com a performance individual, então isso ajuda bastante na retenção também”, ponderou.
Sobre eventuais contratações com foco na futura indústria, que será construída, Amanda Barrera garantiu que por enquanto não trabalha nisso, já que o processo ainda se encontra na fase de licenciamentos e estudos.
Ela admite, porém, que muitas pessoas, mesmo recebendo outras ofertas, acabam optando por ficar na MS Florestal em função dos planos de expansão, acreditando que terão um futuro na empresa.
Resumo
- MS Florestal, do grupo Bracell, ampliou quadro em 57%; setor lidera geração de empregos no agro de Mato Grosso do Sul.
- Plantios de eucalipto da companhia preparam abastecimento da futura fábrica de celulose da Bracell, estimada em R$ 16 bilhões.
- Formação de florestas plantadas respondeu por 55% das vagas da agropecuária no estado em 2025