O mercado de seguro rural entra em 2026 sob uma lógica conhecida: um orçamento que anima o setor, mas sempre sob a sombra de possíveis cortes. A Lei Orçamentária Anual sancionada pelo governo prevê R$ 1,017 bilhão para o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural, depois de um ano em que o Congresso aprovou R$ 1,06 bilhão, mas apenas R$ 565 milhões foram efetivamente liberados.

A expectativa do mercado é que, com a execução integral do orçamento, o setor volte a operar mais próximo do patamar de 2024. É nesse desenho que a Picsel projeta crescer.

Fundada em 2021, a startup atua com tecnologia aplicada ao seguro e ao crédito rural e trabalha hoje com a projeção de triplicar o faturamento em 2026, depois de ter crescido cerca de 50% no ano passado.

A Picsel se posiciona como uma insurtech, e oferece uma plataforma que se apoia em cerca de 30 anos de dados climáticos com 34 anos de imagens de satélite em "gêmeos digitais" que simulam o desenvolvimento de lavouras.

A ideia ajudar companhias de seguro ou de crédito rural a sair da precificação de riscos baseada em médias municipais, e levar o risco ao nível da propriedade.

Nos últimos 12 meses, a Picsel monitorou via satélite cerca de 30 milhões de hectares de soja, com forte concentração no Rio Grande do Sul, além de mais de 200 mil hectares de algodão em estados como Mato Grosso, Bahia e Piauí.

No seguro agrícola, passaram pela plataforma 202 apólices, com área média segurada de 88,5 hectares, totalizando 17,2 mil hectares e uma importância segurada - teto máximo de indenização previsto para cobrir eventuais prejuízos nas lavouras - de aproximadamente R$ 69 milhões.

O CEO da Picsel, Vitor Ozaki, contou ao AgFeed que a atuação da empresa se organiza em um modelo B2B2C. A Picsel atende bancos, cooperativas de produção, cooperativas de crédito, indústrias de insumos e seguradoras, oferecendo desde a geração de dados de risco até a operação completa do seguro.

Em muitos casos, também entrega a estrutura de corretagem para canais que não possuem broker próprio, combinando tecnologia, customização de produtos e monitoramento fazenda a fazenda.

“Além da tecnologia, fazemos customização de produtos, como seguro multirrisco, ou paramétrico”, diz Vitor Ozaki, CEO da Picsel e professor da Esalq/USP.

A empresa opera hoje principalmente com soja e milho, nas safras de verão e inverno, estruturando tanto seguros multirrisco quanto paramétricos. A leitura é que esses grãos concentram volume, histórico de dados e demanda recorrente por proteção, o que permite escalar a tecnologia.

A origem dessa tese está diretamente ligada à trajetória de Ozaki e dos fundadores no setor. “Somos especialistas nesse mercado de seguros agrícolas, começamos estudando esse mercado lá atrás, no final da década de 1990, 2000, quando começou o seguro privado. Estávamos junto das seguradoras, apoiando na estruturação de produtos, precificação”, afirma.

Entre 2015 e 2018, Ozaki ainda atuou como Diretor do departamento de Crédito, Riscos e Recursos, da Secretaria de Política Agrícola, do Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento).

“Essa experiência me deu uma amplitude de visão grande do mercado, dinâmica da relação entre entidades, produtores, mercado e governo", acrescentou.

“Identificamos, por exemplo, a falta de dados de risco para criar produtos de seguro. Falta de dados de risco para precificar melhor. Antes, as operações eram calcadas no seguro de automóvel, nada a ver com o agrícola”, diz Ozaki.

A Picsel surge justamente para atacar esse ponto, oferecendo informação técnica suficiente para reduzir assimetria entre produtor, seguradora e canal financeiro.

Foi esse desenho que sustentou uma rodada seed de R$ 5 milhões realizada no início do ano passado, que trouxe a Arar Capital como investidora. A gestora, criada a partir da Baraúna - family office de sobrenomes tradicionais do agro -, já investiu em startups como Produzindo Certo, Symbiomics, Cromai e umgrauemeio.

O capital foi direcionado para reforçar a equipe, desenvolver produtos e ampliar a atuação junto a canais financeiros. "Desde então vimos crescendo de forma vertiginosa”, diz Ozaki.

Além da expansão da base de clientes, a empresa trabalha com a expectativa de atingir o break-even ainda neste ano, apoiada no crescimento da receita e no aumento do volume de operações estruturadas junto a bancos, cooperativas de crédito e outros agentes financeiros.

"O mercado anda muito próximo do orçamento definido pelo Governo Federal. No ano passado houve revés de negócios feitos com os cortes, mas a expectativa neste ano - esperando que não hajam cortes - é voltar a números melhores como de 2024", disse o CEO da Picsel.

Para além das operações subsidiadas, a empresa tenta driblar incertezas atuando junto a operações de CPR, olhando para "outro público financeiro", de acordo com Vitor Ozaki.

"A Picsel nasceu pra apoiar um mercado que vinha muito focado em condições comerciais e com menos atenção a dados técnicos, informações de qualidade, algo que não dá mais para usar. A ideia do produto customizado mira atender até aquele produtor do Mato Grosso e Tocantins que 'não gosta de seguro'", finalizou.

Resumo

  • A Picsel projeta triplicar o faturamento em 2026, apoiada na expectativa de execução integral dos R$ 1 bilhão previstos para o seguro rural, após um 2025 marcado por frustração orçamentária
  • A plataforma usa cerca de 30 anos de dados climáticos e 34 anos de imagens de satélite para levar a precificação do risco do nível municipal para a fazenda, com 30 milhões de hectares de soja já monitorados
  • Com atuação B2B2C, a insurtech estruturou 202 apólices no último ano, somando R$ 69 milhões em importância segurada, e mira o break-even ainda em 2026 após rodada seed de R$ 5 milhões