Apucarana (PR) - Após reavaliar seu portfólio e sair do segmento de pet food no Brasil no ano passado, a americana Archer Daniels Midland (ADM), uma das maiores comercializadoras e processadoras de grãos do mundo, avança em outra frente da nutrição animal.

Nesse sentido, a companhia acaba de inaugurar uma nova fábrica de premix em Apucarana (PR), reforçando a aposta em um mercado que cresce impulsionado pela expansão do mercado de proteína animal no país.

O premix é uma mistura concentrada de micronutrientes utilizada para balancear rações animais, utilizado na pecuária principalmente por produtores de grande porte.

Instalada junto a um centro de distribuição que a ADM já possuía em Apucarana, com uma área construída de 7,5 mil metros quadrados, a unidade terá capacidade de produzir 40 mil toneladas de premix por ano, com possibilidade de dobrar o volume para 80 mil toneladas anuais caso haja necessidade.

“É uma planta que servirá de referência para a operação da ADM ao redor do mundo”, avaliou Theo Carvalho, gerente regional de tecnologia para nutrição animal da ADM.

Isso porque trata-se de uma fábrica greenfield que trabalha com conceito inovador dentro da divisão global de nutrição animal, ao adotar um modelo de produção horizontal integrado – e não vertical como acontece na maioria das indústrias de nutrição animal.

A ADM já possui uma outra planta produtora de premix em Apucarana, de menor porte, com capacidade de produzir cerca de 24 mil toneladas. A fábrica será desativada quando a nova unidade entrar totalmente em operação.

Inicialmente, a unidade vai operar em um turno apenas, produzindo até 15 mil toneladas de produto. Mas a ideia é que esteja em plena operação mais adiante, funcionando em três turnos.

Para Raphael Bozola, country manager para a ADM Nutrição Animal na América do Sul, a estrutura paranaense contribui para consolidar os planos da companhia de alavancar o negócio de nutrição animal na região e também no Brasil.

"Temos a ambição que o nosso negócio de nutrição animal, nos próximos 5 anos, seja um dos melhores e maiores da América do Sul. E a gente vem trabalhando para que isso aconteça", disse a um grupo de jornalistas em visita à nova unidade nesta semana.

Com a nova planta, a ideia da ADM é que Apucarana seja um polo de produção de premix para abastecer todo o Brasil e, eventualmente, países vizinhos como Bolívia, Paraguai, Argentina e Uruguai.

“Se a ração viaja 300 quilômetros, por exemplo, o custo de frete começa a absorver toda a margem. Já o premix pode viajar o Brasil inteiro. A gente sai de Apucarana e atende nossa fábrica de São Lourenço da Mata, em Pernambuco, ou nossa fábrica de Rondônia”, afirmou.

Além disso, a continuidade da operação no município também se explica pelo fato de a unidade estar inserida em uma região de forte produção de proteína animal.

“Grande parte da produção de proteína animal está em Santa Catarina e no Paraná. São os grandes polos produtivos e é onde temos os grandes exportadores também”, disse Bozola.

A planta de Apucarana é uma das oito plantas de nutrição animal que a ADM mantém no país.

Dessas, seis são dedicadas à produção de rações e aquacultura e estão localizadas em municípios de diferentes regiões do Brasil, como Descalvado (SP), São Lourenço da Mata (PE), Inhumas (GO), Canoas (RS) e Rolim de Moura (RO).

Já a área de premix e aditivos conta com uma planta de aditivos em Indaiatuba (SP) e, agora, com a planta de premix em Apucarana.

Com essa capilaridade, a ADM afirma estar preparada para atender produtores de diferentes portes, na avaliação de Bozola.

“Para o grande, a gente tem essa fábrica super moderna da nosso plataforma de aditivos. Para o pequeno, a gente tem seis fábricas. Somos a empresa mais bem preparada para atender a todo tipo de produtor”, disse o executivo.

Sem novas plantas, por ora

A inauguração da fábrica de Apucarana contrasta com outro movimento da companhia em Minas Gerais. A ADM encerrou as atividades de uma planta localizada em Três Corações (MG) em meados do ano passado e, com isso, deixou o segmento de pet food no Brasil.

A unidade tinha capacidade de produção anual de até 520 mil toneladas de produtos e pertencia à multinacional desde 2019, quando foi adquirida da Total Alimentos.

Uma fonte ouvida pelo site NeoFeed citou que a divisão de pet food trazia uma receita de R$ 1,1 bilhão, mas também apresentava prejuízos na casa dos R$ 100 milhões.

A companhia tentou encontrar um comprador para a planta, com auxílio do banco britânico Barclays, mas não conseguiu encontrar interessados em um primeiro momento e, assim, anunciou o encerramento das operações dessa unidade em junho do ano passado.

Mais tarde, porém, surgiu um interessado. Em janeiro deste ano, a Agronorte, grupo agro com forte atuação no Norte e Nordeste, anunciou a compra da unidade. A companhia já possui uma outra fábrica em Tocantinópolis (TO) e pretende, com a aquisição, entrar com forças nas regiões Centro-Oeste e Sudeste, como mostrou o AgFeed.

O valor da transação não foi divulgado, mas segundo o jornal Valor Econômico, ficou "bem abaixo" da cifra que a ADM inicialmente pretendia, estimada em cerca de R$ 1,5 bilhão.

Questionado pelo AgFeed sobre o fechamento da fábrica e a saída do segmento de pet food, Bozola preferiu não comentar o assunto, mas afirmou que a decisão foi baseada em uma análise estratégica de mercado.

“Pelo tamanho que tem, o portfólio de investimentos que a ADM tem é bastante amplo. A companhia está o tempo todo avaliando o portfólio, a dinâmica de mercado, e, desse portfólio, avalia o que faz sentido manter e o que faz sentido não manter mais”, se limitou a dizer o executivo

Por ora, apesar do investimento em Apucarana, novas plantas na área de nutrição animal não estão no radar da companhia, segundo Bozola.

“Com a capacidade instalada que temos hoje, podemos crescer em todos os negócios sem novos investimentos. Precisamos construir uma nova fábrica agora? Não. Mas, daqui a três anos, pode ser que sim”, avalia.

Tilápia afetou resultados

A ADM não revela números exatos sobre vendas e lucro da área de nutrição animal no Brasil e na América Latina, mas no ano passado, Bozola relatou ao AgFeed que, no Brasil, houve crescimento na área de premix e aditivos e que o segmento de rações “foi bem”, sem dar mais detalhes.

Para o executivo, o mercado vem passando por uma transformação, com vendas de aditivos e premix crescendo mais que rações, que vem apresentando altas de comercialização em ritmo mais moderado.

Já na linha de aquacultura, Bozola avaliou que o destaque negativo veio da tilápia, importante subsegmento.

“O produtor sofreu muito com uma crise que começou no fim de 2023, seguiu em 2024 e se alongou por todo em 2025. Isso fez com que eles ficassem com mais peixe por mais tempo e utilizassem ração mais barata. Perdemos volume”, disse Bozola.

Para 2026, no entanto, a expectativa é mais positiva, de acordo com o executivo. “O cenário é um pouco melhor que o do ano passado”, afirma.

As linhas de premix, aditivos e rações devem seguir a tendência que já vinham apresentando em 2025.

Já na aquacultura, a tilápia deve ter performance melhor ao longo deste ano. “A gente vê isso claramente no retorno do consumo das nossas rações. Os produtores voltaram a ganhar dinheiro e começaram a comprar produtos de melhor performance”, disse Bozola.

Globalmente, o segmento de nutrição animal foi um dos poucos que trouxe lucro operacional à companhia no ano passado, passando de US$ 59 milhões em 2024 para US$ 98 milhões em 2025, alta de 66% no período, de acordo com balanço divulgado em fevereiro.

“Foi o melhor ano nos negócios de nutrição animal da ADM em nível global”, avaliou o executivo.

O Brasil é o principal país do negócio de nutrição animal da companhia na América do Sul e, por isso, vem ganhando investimentos como o de Apucarana, segundo Bozola.

“Se a gente quer ser global, precisamos ter uma presença forte no Brasil. A ADM entende que uma das avenidas de crescimento que ela tem é fazer o Brasil ser grande também.”

O repórter viajou a convite da ADM

Resumo

  • A ADM inaugurou fábrica de premix em Apucarana (PR), com capacidade de 40 mil toneladas por ano para reforçar presença seu negócio de nutrição animal no Brasil e na América do Sul
  • Unidade será polo nacional de produção, com foco em grandes produtores e possibilidade de atender também países vizinhos,
  • Movimento ocorre após saída de pet food e reflete aposta em segmentos mais rentáveis (premix e aditivos), com expectativa de melhora do mercado em 2026