A capital paulista teve um evento curioso esta semana, na sede da Federação das Indústrias do estado de São Paulo, a Fiesp.
Era o chamado Fórum Empresarial Brasil Bolívia, que poderia ser apenas mais um encontro protocolar de autoridades e empresários, mas mostrou que pode ter sido a marca de uma nova onda do agronegócio brasileiro.
Grandes empresários de Mato Grosso, entre eles Eraí Maggi Scheffer, considerado um dos maiores produtores agrícolas rurais do mundo, conversavam agitados em pequenos grupos, que envolviam desde executivos de multinacionais do agronegócio até o ministro da Agricultura do Brasil, Carlos Fávaro, e o presidente da República da Bolívia, Rodrigo Paz.
No painel destinado ao agronegócio, Maggi, sócio fundador do Grupo Bom Futuro, falou por cerca de 15 minutos. Ele contou que as dificuldades vividas na Bolívia, ainda hoje, principalmente de falta de infraestrutura em algumas áreas agrícolas, são muito similares ao que viveram os desbravadores de Mato Grosso há 50 anos.
O AgFeed apurou que Eraí Maggi intensificou a compra de terras no país no ano passado e já teria entre 30 mil e 40 mil hectares no país vizinho, mais especificamente na região chamada de Chiquitania, que pertence ao departamento de Santa Cruz e está próxima da fronteira com o Brasil (Mato Grosso).
O empresário preferiu não dar entrevista e, na fala que fez na Fiesp, não deu detalhes do seu projeto. O discurso foi concentrado numa espécie de “chamamento” para que empresários e governo, tanto do Brasil quanto da Bolívia, se unam para viabilizar o desenvolvimento da região. Mas deixou indícios de que ´jpa iniciou o trabalho por lá.
“Sei que tem gente se perguntando: 'mas o que o Eraí está fazendo na Bolívia?' E eu vi gente falando 'eu te vejo aqui, eu estou arrepiado, a terra (preço) vai explodir por isso'. Eu fiquei feliz e triste ao mesmo tempo. Por que terra é consequência. Ganhar dinheiro é consequência. E a gente sabe o que a gente está fazendo lá”, afirmou ele, no palco.
O preço da terra na região em que o empresário está investindo já estaria subindo levemente, dizem os produtores. O hectare na Chiquitania atualmente estaria próximo de US$ 2 mil, mas o valor ainda é considerado muito acessível, se comparado às áreas para conversão de Mato Grosso, que chegariam próximo a US$ 7 mil.
Maggi citou que estava ali presente o seu irmão, Fernando Maggi Scheffer, e que todo o trabalho difícil de desbravar a região de Sapezal – próxima à Bolívia e a 1,5 mil km de Cuiabá –, foi feito com a união da família. E deu mais pistas: “Tenho um neto, filho do Antônio, de 18 anos, que está olhando alguma coisa na Bolívia também. Ele se apaixonou pela Bolívia. Não tem como não se apaixonar lá”.
O empresário mencionou ainda que um dos filhos, Kleverson Maggi Scheffer, se dedica atualmente a projetos de prospecção de energia, uma área que também precisa ser mais desenvolvida na Bolívia.
“Nós éramos sitiantes. Lá no oeste de Mato Grosso, perto da Bolívia, eu fiquei longe de casa até 90 dias, em uma região com dificuldade de infraestrutura. Por que a gente está olhando a Bolívia? Porque nós tivemos a mesma dificuldade aqui no Brasil. A mesma”, reforçou.
“Eu entendo o que é a vida do sitiante. Eu entendo que é a vida de um indígena, dos menos favorecidos. Hoje nós somos lá amigos dos índios. Os índios arrecadam lá mais de R$ 30 milhões de pedágio, que eu defendi. Os índios plantam mais de 15 mil hectares e nós respeitamos a cultura do índio. Isso que faz a gente viver. Dinheiro é consequência. Fazer negócio é consequência. Desde que venhamos todos juntos”.
O AgFeed questionou o grupo Bom Futuro sobre os detalhes do projeto na Bolívia. A empresa disse em nota que “não realizou, nem está realizando, investimentos na Bolívia”.
Segundo a Bom Futuro, “eventuais iniciativas de caráter particular por parte de seu acionista, Sr. Eraí Maggi Scheffer, não têm relação com as operações ou estratégias da empresa”.
A pioneira vai ampliar investimentos
No mesmo painel em que participou Eraí Maggi estava a produtora rural Mônica Marchett, do Grupo Mônica, de uma das famílias brasileiras que plantou as primeiras lavouras na Bolívia há 35 anos.
A empresária se mostrou animada com a chegada de Eraí Maggi ao país vizinho e acredita que, agora, haverá uma nova onda de desenvolvimento do agronegócio na região.
A família de Mônica iniciou com soja na Bolívia, mas hoje o grupo já detém cerca de 100 mil hectares no país, atuando não apenas na produção e armazenagem de grãos, mas principalmente em pecuária e alta genética.
No início dos anos 2000, houve forte expansão da soja na região de Santa Cruz de la Sierra, mas os diferentes governos e a política restritiva à presença de estrangeiros liderada, principalmente, pelo ex-presidente da Bolívia Evo Moralez acabou afastando muitos investidores.
“Na minha visão, esse movimento mais forte, mais robusto, já deveria ter acontecido uns anos atrás, mas devido à insegurança jurídica, isso ficou um pouco parado”, afirmou Marchett, em entrevista ao AgFeed.
Ela diz que o solo é muito similar, por isso é possível dizer que as áreas que estão sendo convertidas para a agricultura são “quase uma extensão do estado de Mato Grosso”.
Mônica contou que as primeiras áreas adquiridas décadas atrás, próximas à Santa Cruz, eram de um solo muito rico, “nem precisava de adubo”, por isso “acabaram rapidamente”.
Eraí Maggi chegou a mencionar na Fiesp, que visitou a Bolívia na primeira onda, mas que já não havia mais terras disponíveis. O foco agora, dos novos investidores, é principalmente a Chiquitania, que teve maior desenvolvimento nos últimos 5 anos.
O próximo alvo de Mônica é a região do Beni, em áreas mais próximas à divisa com Rondônia, “que tem tudo para se desenvolver”, segundo ela.
O estado ainda é, segundo ela, carente de infraestrutura e algumas cidades do Beni ainda dependem de geradores a diesel para obter energia elétrica.
No Beni, Marchett disse ter “um projeto ousado” de 60 mil hectares, com campos experimentais de soja e cana-de-açúcar.
O AgFeed apurou que o preço da terra nestas regiões com menor infraestrutura varia muito. Há quem já tenha comprado por US$ 50/hectare, mas dependendo da logística e infraestrutura, já poderia chegar a US$ 1500.
Para fazer a conversão de pastagem para lavoura, a produtora calcula que são necessários US$ 300 por hectare. Portanto, somente no grupo Mônica, caso venha a ser concluído, o investimento na região do Beni poderia chegar a quase R$ 100 milhões, pela cotação atual.
Mesmo com a mudança de governo, segundo Marchett, ainda vale no país o limite de 5 mil hectares por pessoa física para a aquisição de fazendas, após a criação da lei (não é o caso da família de Marchett, que já estava lá muito antes).
Para tornar um negócio viável, no entanto, ela diz que são necessários no mínimo 10 mil hectares, por isso os investimentos vêm ocorrendo por meio da associação entre familiares ou mesmo pela criação de fundos.
No encontro na Fiesp, os empresários buscaram mais garantias, junto ao governo boliviano, de que haverá segurança jurídica daqui pra frente. Uma das preocupações recentes foi o caso da BrasilAgro, listada na B3, que teve uma de suas áreas invadida na Bolívia.
“Hoje a maioria das áreas já é titulada, reconhecida pelo governo. A eleição foi transparente, tranquila, por isso reduziu a instabilidade política”, avalia a empresária.
Ela disse que gostou da fala do presidente da Bolívia Rodrigo Paz, na Fiesp, dizendo que o país reúne políticos da centro-direita e centro-esquerda, hoje vendo “muita harmonia”.
“Para migrar da pecuária (especialmente no Beni) para a agricultura precisaremos de ações conjuntas dos poderes público e privado”, reforçou.
Neste quesito, Eraí Maggi concordou com ela. “O governo somos nós, empresários. Não podemos deixar o governo sozinho”, afirmou ele, para a plateia de bolivianos e brasileiros.
Marchett acredita que a chegada de Eraí Maggi à Bolívia vai ajudar muito os produtores que já estão lá.“O agricultor tem uma característica, e o Eraí falou bem isso, quanto mais gente for, melhor é. Um agricultor passa a máquina, o vizinho constrói o silo, aí chega a empresa de insumos, tudo ajuda muito a região”, diz ela.
Depois da soja, o algodão
Tudo indica que os primeiros plantios desta nova onda dos produtores de Mato Grosso que agora chegam à Bolívia tenham foco na soja.
Alexandre Schenkel, grande produtor e ex-presidente da Abrapa (Associação Brasileira dos Produtores de Algodão) também estava na Fiesp e disse ao AgFeed que está “estudando” a possibilidade de investir na Bolívia, mas que, a princípio, pretende plantar soja.
De qualquer forma, o caminho já está sendo preparado para o algodão. Um dos painelistas no evento foi Marcelo Duarte, diretor de relações internacionais da Abrapa, que há anos atua junto aos principais mercados internacionais para a pluma brasileira.
“A Bolívia é um país que hoje está se mostrando bastante aberto a finalmente se integrar de maneira bastante verdadeira com o Brasil, não só do ponto de vista logístico, comercial, cultural. A gente entende que isso é muito positivo, uma vez que o Brasil é um país que tem uma plataforma do agronegócio extremamente consolidada”, afirmou Duarte, ao AgFeed.
Ele disse que a Bolívia é um dos países com a maior tradição têxtil do mundo, atualmente, mas que “praticamente se desmantelou nos últimos anos”.
Como o Brasil já exporta algodão para países que ficam a 20 mil km de distância, diz ele, a Bolívia, que faz fronteira conosco, poderia representar uma importante parceira.
“Isso numa visão de cadeia agroindustrial regional integrada como você vê, por exemplo, hoje na Ásia, em que um país faz a fibra, outro faz o fio, outro faz o tecido, outro faz a confecção”, explicou.
Na visão dele, a Bolívia pode ser um grande polo de manufatura “dessa cadeia têxtil integrada, pela sua tradição, pelas características e pela disponibilidade boa mão de obra que tem lá”. Enquanto isso, em Mato Grosso, o estado já estaria praticamente no “pleno emprego”, com falta de trabalhadores.
Sobre o plantio de algodão na Bolívia, por parte de produtores brasileiros, Duarte acredita que “isso vai acontecer, com essa maior abertura do governo, não apenas para a agropecuária, mas também industrial”.
Questionado pelo AgFeed, ele disse que, pelas características do país, é possível estimar que a Bolívia tem potencial para produzir mais de 200 mil hectares de algodão. Hoje se plantaria muito pouco dessa cultura no país.
Na fala de Eraí Maggi (a Bom Futuro é outra gigante do algodão), ele citou Marcelo Duarte. Disse que o executivo já estaria trabalhando para que os produtos agrícolas que serão colhidos na Bolívia futuramente “tenham todo um regramento”, o que garantiria acesso aos mercados mais nobres.
Enquanto isso, Maggi espera contar também com o apoio político nos dois países, destacando que os políticos precisam ser pautados, ser subsidiados.
Ele disse que ficou “uma hora conversando” com o presidente Lula sobre os países vizinhos, sobre “a potência que é a América do Sul”. Também já teria conversado com o empresário Wesley Batista, da JBS, sobre os desafios na área energética, na região.
Sobre o presidente boliviano, Maggi afirmou: “Ele está com sangue no olho para trabalhar. Está com os ministros com muita vontade. É uma nova oportunidade”.
Resumo
- Produtores de Mato Grosso, como Eraí Maggi, avançam na Bolívia, mirando nova fronteira agrícola
- Regiões como Chiquitania e Beni, no país vizinho, atraem investimentos por terras baratas e potencial produtivo
- Desafios incluem infraestrutura e segurança jurídica, mas cenário aponta nova onda de expansão do agro