Paulínia (SP) - Depois de um mais um ano de queda nas vendas e enquanto promove uma uma reorganização nos negócios, ambas a nível global, a Bayer está disposta a se recuperar. A estratégia para isso? Um pipeline agressivo de lançamentos no Brasil, um de seus principais mercados.
No balanço referente a 2025, divisão agrícola da empresa registrou recuo de 2,9% nas vendas, para 21,6 bilhões de euros, refletindo um ambiente de margens pressionadas no campo e ajustes internos. Por aqui, o cenário foi desafiador e marcado por juros altos, crédito mais restrito e maior seletividade do produtor.
A empresa vem implementando seu grande plano de enxugamento da operação, o DSO (Dynamic Shared Ownership), que completa dois anos de vigência. Ao mesmo tempo que se enxuta na organização, a empresa reforçou, nesta semana, que aposta em tecnologia como alavanca de crescimento.
A companhia está promovendo, nesta semana, em Paulínia (SP), onde a companhia abriu seu principal centro de pesquisa no País, um evento para clientes, parceiros e especialistas para mostrar o que está no forno para os próximos anos.
A meta é ambiciosa: lançar cerca de cinco novos produtos por ano até o fim da década, incluindo 14 novas moléculas e diferentes modos de ação. A companhia fala em mais de 25 novos produtos até 2030, além de uma frente de cerca de 10 soluções biológicas.
Por trás dos números, há uma tentativa de responder a um problema que voltou ao centro das decisões no campo: a resistência.
Se há alguns anos o foco estava mais concentrado em pragas e doenças, as plantas daninhas voltaram a tirar o sono do produtor, citou Frederico Mendes, líder de Herbicidas da Bayer no Brasil.
Nas estimativas da empresa, espécies como capim-amargoso podem tirar até 22 sacas por hectare da soja, enquanto buva, caruru e capim-pé-de-galinha geram perdas na faixa de 14 a 15 sacas por hectare.
O impacto financeiro acompanha esse avanço. Produtores brasileiros já desembolsam mais de US$ 4,2 bilhões por ano no controle dessas plantas, e, ainda assim, convivem com um cenário crescente de resistência a tecnologias mais antigas, como o glifosato.
Parte desse avanço está ligada ao uso repetitivo de poucos mecanismos de ação ao longo dos anos, o que acelerou o surgimento de populações resistentes, especialmente em sistemas intensivos como os do Cerrado, com duas ou até três safras por ano.
Não por acaso, é justamente nesse segmento que a Bayer concentra parte relevante de seus próximos lançamentos - sete - e também uma ambição estratégica: retomar a liderança de mercado em herbicidas, um território que historicamente ajudou a construir a posição da empresa no agro, especialmente com o glifosato. Nas estimativas de Mendes, hoje a Bayer é dona de 20% deste mercado, ocupando o segundo lugar no market share.
O principal símbolo dessa nova fase é o Icafolin, um herbicida ainda em fase de registro e com previsão de lançamento para 2028. Segundo a empresa, trata-se do primeiro novo mecanismo de ação para controle pós-emergente de plantas daninhas em mais de três décadas.
A proposta do produto é justamente atuar onde o modelo atual começa a mostrar limites: no manejo de resistência. A ideia da Bayer é que a tecnologia seja utilizada em uma combinação de diferentes ativos e tecnologias, tentando ampliar o chamado “arsenal” do produtor para lidar com um ambiente agronômico mais complexo.
"O produto mata a planta destruindo esqueleto da célula. Você pisa e a planta quebra. Se aplicado junto com o glifosato, por exemplo, ajuda a 'enganar' as ervas daninhas", disse Mendes.
Esse movimento não se restringe aos herbicidas. O pipeline apresentado inclui também novos inseticidas e fungicidas, além de avanços em tratamento de sementes e biotecnologia. Entre eles, o inseticida Plenexos, o fungicida Iblon e soluções integradas como o “Guardião”, no tratamento de sementes, foram mostrados no evento.
A Bayer tenta se posicionar com essa gama de novidades como uma fornecedora de soluções completas. Tiago Santos, líder do negócio de proteção de cultivos da Bayer no Brasil, cita que a ideia é combinar química, biológicos, sementes e ferramentas digitais.
“Nosso DNA não está em uma única tecnologia, mas na combinação delas para resolver os problemas do agricultor”, afirmou durante o evento.
Os lançamentos na proteção de cultivos acompanham uma novidade aguardada e ousada na biotecnologia: a quarta geração da soja transgênica.
No ano passado, a Bayer lançou a Intacta 5+, plataforma que reúne cinco proteínas voltadas ao controle de nove espécies de lagartas e amplia o manejo de plantas daninhas ao permitir o uso de cinco herbicidas diferentes, entre eles a mesotriona, liberada pela primeira vez para aplicação em pós-emergência na cultura da soja.
A proposta é simples. Ao mesmo tempo que lança os químicos, lança uma soja capaz de suportá-los. A expectativa da companhia é que a tecnologia comece a ganhar escala entre 2028 e 2029, quando deve atingir uma adoção mais ampla no mercado brasileiro.
Mais do que uma vitrine tecnológica, o evento, e o movimento da própria empresa, funcionam como uma sinalização de como a Bayer pretende competir em um mercado mais seletivo, em que o produtor tem sido mais criterioso na hora de investir.
Tem sido assim em todo mercado. Longe dos períodos de crescimento de duplo dígito vistos no início da década e encarando balanços mais apertados, empresas de insumos - em especial máquinas agrícolas e defensivos - tem concentrado recursos de marketing para a criação de eventos do tipo.
Só nos últimos meses, o AgFeed esteve presente em iniciativas da Syngenta e Corteva, concorrentes diretas da Bayer, que chegavam com a mesma proposta: um evento proprietário para trazer clientes, parceiros e outros difusores de tecnologia junto aos produtores para "dentro de casa", na intenção de mostrar novos produtos que chegarão ao mercado - encaixando um encontro com a imprensa no meio.
No caso das empresas de máquinas, a aposta é a mesma, e muda inclusive a lógica tradicional de concentrar lançamentos nas grandes feiras agrícolas do calendário, em especial a Agrishow. John Deere, PTx e Massey Ferguson foram algumas que realizaram eventos "pré-Agrishow" de dois meses para cá.
Resumo
- Bayer prevê mais de 25 lançamentos na linha de crop protection até 2030, com foco em herbicidas
- Novidades surgem em meio a queda de 2,9% nas vendas e reestruturação global na empresa
- Evento em Paulínia repete o visto por concorrentes como Syngenta e Corteva, que reuniram clientes para mostrar novidades