Marina Cançado e Daniela Rogatis, dois nomes conhecidos da cena brasileira de ESG, estão unindo forças em uma nova empresa chamada Transitions.
O empreendimento, lançado nesta terça-feira, dia 19 de maio, nasce com um objetivo claro: apoiar famílias endinheiradas e executivos de grandes empresas de vários setores da economia – incluindo o agro – na construção de estratégias de longo prazo que levam em consideração mudanças sistêmicas, orientando-os em meio às tormentas do mundo deste início de século XXI.
“A gente entende que famílias empresárias, por estarem nos negócios, por estarem nos investimentos, têm um papel muito importante (em colocar em prática a transformação). Se a gente olha para a Bolsa, por exemplo, a maior parte das empresas tem uma origem familiar”, afirmou Cançado, em conversa com o AgFeed após a apresentação da Transitions no evento Converge Capital Conference, parte do calendário da Brazil Climate Investment Week, que acontece nesta semana em São Paulo (SP).
A ideia do novo empreendimento de Cançado e Rogatis é unir pelo menos 40 famílias e executivos de alto nível com negócios em diferentes setores da economia, do setor energético ao agronegócio.
A empresa nasce com três verticais – sendo que duas delas já começam suas atividades agora: um clube voltado a membros que desejam participar de programas de aprofundamento e trocas estratégicas e uma frente de orquestração de projetos, conectando diferentes stakeholders para viabilizar implementação prática e execução.
No clube, que funcionará em formato de membership, a proposta é reunir diferentes perspectivas sobre os desafios de transição enfrentados pelos negócios dos participantes, conectando representantes do setor produtivo, famílias empresárias, investidores e executivos do mercado financeiro.
“O clube é, basicamente, um programa entre pares, reunindo tomadores de decisão do setor financeiro, famílias empresárias e empresas. Vamos promover encontros mensais de aprofundamento sobre os desafios de transição nos diferentes setores da economia, para discutir esses temas de forma estruturada”, explicou Marina Cançado.
De acordo com a empresária, a iniciativa busca se diferenciar de outros grupos voltados ao público de alta renda, normalmente centrados apenas em relacionamento. “A gente vê a emergência de muitos clubes de empresários, mas muito mais focados em networking”, afirmou.
Também está previsto ainda, em um segundo momento, a implantação da terceira vertical: um braço de advisory para apoiar empresas e famílias empresárias em desafios ligados à transição.
“A partir do momento em que criar essas rotas de transição, o passo natural é a gente ajudar as empresas, o setor financeiro a aplicar isso na prática”, resumiu Cançado.
A primeira turma do grupo da Transitions deve começar a trabalhar no início de 2027. Nesse ano inicial, a ideia de Marina Cançado é ter uma abordagem mais macro, levando em conta os diferentes setores envolvidos – agro, energia, transporte, logística, mineração, entre outros. “Cada encontro vai abordar um setor da economia”, disse.
A ideia é, no entanto, que no ano seguinte sejam criadas trilhas especializadas para cada setor. ”Para que a gente consiga fazer visitas de campo, viagens e ter uma coordenação mais profunda em temas específicos”, disse Cançado, adiantando que um possível destino do grupo pode ser a China.
Cançado disse que está conversando com a Universidade de Utrecht, da Holanda, para dar amparo acadêmico ao empreendimento. A universidade holandesa mantém o programa Navigating Deep Transitions, iniciativa de pesquisa interdisciplinar que visa compreender o surgimento de sistemas insustentáveis nas sociedades contemporâneas.
A Transitions reúne as diferentes (e complementares) expertises de Cançado e Rogatis.
Nome conhecido do mercado de capitais voltado ao ESG, Cançado foi uma das fundadoras da gestora Converge Capital, especializada em investimentos de impacto, criou, em 2020, o Converge Capital Conference, primeiro evento sobre investimentos de impacto e transições de portfólio do País, além de ter atuado na XP Investimentos como sócia responsável por investimentos sustentáveis.
Educadora com longa bagagem na formação e educação de herdeiros, Rogatis é cofundadora do programa Legado – The Global Legacy Programme, que passou a tocar desde 2014 em conjunto com o ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso. A iniciativa prepara novas gerações de famílias empresárias para assumir papéis de liderança com impacto econômico e social.
Como pano de fundo, a Transitions trabalha com a ideia de que há um sentimento de “inquietude” entre diferentes gerações de executivos e endinheirados que começou ainda na crise econômica de 2008 e se intensificou a partir da pandemia do coronavírus, em 2020.
Conversas das idealizadoras da Transitions com executivos, investidores e famílias de alta renda revelaram preocupações recorrentes ligadas à incerteza sobre o futuro, à dificuldade de tomada de decisão e à sensação de perda de controle em meio às mudanças aceleradas do mundo contemporâneo.
“Tem muitas inquietudes. O futuro parece nebuloso, as pessoas se sentem desorientadas e tudo parece estar mudando ao mesmo tempo”, afirmou a empresária.
Cançado também ressaltou que levou parte das pessoas a comportamentos de retração e simplificação. “Muita gente deixa de falar o que pensa”, disse. “As redes sociais privilegiam a simplificação e a gente começa a uma dissociação muito extrema, que tem afetado a capacidade da sociedade de dialogar e chegar em consensos.”
Apesar do diagnóstico desafiador, Cançado afirmou que a Transitions nasce da convicção de que é possível construir “futuros preferíveis” por meio de planejamento de longo prazo, clareza de valores e criação de espaços seguros para conversas difíceis sobre as diferentes transformações em curso.
“O futuro não está dado”, afirma. “A convergência de quais são as lógicas vencedoras está em disputa. As próximas décadas vão depender das escolhas que nós fizemos agora.”
Resumo
- Transitions nasce com objetivo de ajudar famílias empresárias e alto escalão em estratégias de longo prazo
- Empresa terá grupo seleto que vai discutir e trabalhar em soluções para o futuro
- Empreendimento é comandado por Marina Caçado e Daniela Rogatis