No tradicional IBRA Megalab, um dos mais antigos laboratórios de análise de solo do País e que faturou R$ 45 milhões na safra 2024/2025, uma nova vertical de negócios quer mudar a relação entre produtores e empresas nesse setor: sair de algo mais pontual para algo contínuo.
De olho em um “gap” estimado em R$ 1 bilhão no mercado brasileiro de análises de solo, a companhia lançou um plano de saúde do solo. Batizado de Soil Healthcare, a iniciativa conecta monitoramento remoto, análises laboratoriais, métricas de carbono e acompanhamento agronômico dentro de pacotes de assinatura para produtores rurais.
A proposta parte de uma constatação: apesar da relevância da análise de solo para produtividade e manejo, boa parte dos agricultores brasileiros ainda realiza o procedimento de forma pontual ou irregular.
Somado a isso, segundo uma estimativa interna do IBRA, o Brasil está defasado em pelo menos mais 8 milhões de análises de solo por ano para atingir um nível considerado adequado de monitoramento agronômico. Em valores de mercado, isso representaria os mais de R$ 1 bilhão em faturamento potencial adicional para o setor de laboratórios.
“O produtor tem sido muito assediado por uma série de tecnologias, IA, plataformas e soluções. Muitas vezes ele fica perdido para entender o que realmente gera valor”, afirmou ao AgFeed Thiago Camargo, sócio e diretor do IBRA Megalab e um dos idealizadores do projeto.
A inspiração para o novo produto veio dos planos de saúde humana, justamente na tentativa de simplificar essa comunicação.
“Na medicina, pouco importa para o paciente qual é o sistema de gestão usado pelo médico. O que importa é o diagnóstico e a prescrição. A gente quis trazer esse paralelo para o agro”, disse.
Na prática, o modelo funciona de maneira semelhante a um plano de saúde tradicional. O produtor escolhe um pacote de serviços e passa a ter monitoramento contínuo da saúde do solo, com diferentes níveis de profundidade técnica e acompanhamento agronômico.
“Nossa ideia é sensibilizar um mercado que não tem esse perfil de fazer análises com frequência e que hoje faz esporadicamente. E vamos mostrar para ele os benefícios disso", disse o sócio.
Segundo Camargo, a empresa percebeu que muitos produtores ainda enxergam a análise de solo apenas como uma ferramenta pontual ligada à adubação e não como um sistema contínuo de gestão agronômica.
O desafio, segundo ele, é atingir justamente a parcela do mercado que ainda não incorporou essa cultura de monitoramento frequente.
“Tem produtor que ainda faz calagem incorreta, aduba errado ou toma decisão sem um bom diagnóstico. Queremos atingir esse mercado que ainda não viu valor nisso”, disse.
Os planos foram divididos em três categorias, com diferentes níveis de profundidade técnica e acompanhamento agronômico.
O mais básico funciona como uma porta de entrada para monitoramento remoto da propriedade. O pacote inclui métricas de estoque de carbono do solo, comparação da área produtiva com a vegetação nativa original equivalente, monitoramento via satélite ao longo da safra, indicadores de vigor vegetativo, dashboards digitais e análises socioambientais ligadas a rastreabilidade e gestão de risco.
Segundo o IBRA, o investimento varia de R$ 2 a R$ 15 por hectare por safra, ou planos anuais a partir de R$ 12 mil.
O segundo nível adiciona a parte operacional e laboratorial da análise. Além do monitoramento remoto, o pacote inclui planejamento de amostragem, coleta de solo, geração de pontos georreferenciados, análises químicas e físicas completas e relatórios técnicos interpretativos.
A proposta, segundo a empresa, é transformar o monitoramento em diagnóstico agronômico mais preciso para tomada de decisão sobre fertilidade, adubação e manejo.
“Hoje nós já temos clientes altamente 'tecnificados' que fazem análise todo ano. Esse perfil mais recorrente acaba sendo mais eficiente e possui mais rentabilidade", disse Camargo.
Nesse modelo, os valores variam de R$ 25 a R$ 60 por hectare, dependendo da densidade amostral e dos serviços contratados.
Já o plano mais avançado inclui acompanhamento agronômico recorrente ao longo da safra. O produtor passa a ter acesso a teleagronomia, reuniões técnicas periódicas, interpretação estratégica dos resultados e suporte para construção de fertilidade e aumento do estoque de carbono no solo.
“O foco principal é sair de uma análise isolada que o produtor faz um ano e no outro não, para um monitoramento contínuo da saúde do solo”, afirmou Camargo.
Nesse pacote, o produtor também pode receber apoio técnico voltado para iniciativas ligadas a agricultura regenerativa, rastreabilidade e futuros projetos de carbono agrícola. Os valores variam entre R$ 60 e R$ 180 por hectare ao ano.
A iniciativa também ajuda o laboratório a resolver um desafio típico do setor: a sazonalidade e a natureza mais “reativa” do negócio tradicional de análises.
Hoje, mesmo produtores considerados fiéis ao laboratório podem passar períodos sem realizar análises de solo. Com o modelo de assinatura, o IBRA tenta transformar essa relação em algo mais contínuo e previsível.
O movimento também reforça a aposta do IBRA em ampliar participação dentro do mercado brasileiro de análises. Hoje, segundo estimativas próprias, a companhia possui cerca de 14% de market share no segmento e quer atingir 25% até 2030.
Fundado há 45 anos e com sede em Sumaré (SP), o IBRA Megalab é hoje um dos maiores laboratórios de análise de solo do País.
A carteira de clientes que já contrataram a empresa soma gigantes do agro. Desde players de produção agrícola como SLC, Raízen, Suzano e Klabin, até tradings como Cargill e multinacionais como Bayer, Syngenta, Sumitomo, Yara, Mosaic, John Deere, FMC, ICL e Basf.
Nos últimos anos, a companhia também acelerou um movimento de expansão territorial por meio de franquias, com unidades em polos agrícolas como Sorriso (MT), Luís Eduardo Magalhães (BA) e, mais recentemente, uma operação em parceria com a Copasul, no Mato Grosso do Sul.
Um olhar para o carbono
O conceito do plano também pretende aproveitar, segundo o sócio, o avanço das discussões sobre agricultura regenerativa, carbono no solo e rastreabilidade no agro brasileiro.
Camargo cita que um dos principais indicadores utilizados pelo projeto será justamente o estoque de carbono do solo.
Utilizando bancos de dados proprietários, dados públicos e sensoriamento remoto, o laboratório pretende estimar quanto carbono existia originalmente naquela área antes da conversão da vegetação nativa em produção agrícola e comparar com a situação atual.
A ideia é medir a evolução da área ao longo do tempo e avaliar como práticas de manejo podem reconstruir a saúde do solo.
Como inspiração, referenciou um estudo conduzido pelos pesquisadores Rattan Lal e Juca Sá, que avaliou áreas agrícolas sob diferentes sistemas produtivos no Brasil.
Segundo o executivo, quase 30% das áreas com plantio direto consolidado (feitos a cerca de 20 anos) apresentaram níveis de carbono estocado no solo superiores aos das áreas nativas equivalentes que existiam ali antes da produção. Já áreas degradadas ou manejadas de forma não conservacionista perderam entre 80% e 100% do estoque original de carbono.
“Isso mostra que manejo conservacionista e agricultura regenerativa podem melhorar a saúde do solo ao longo do tempo”, disse.
Resumo
- IBRA estima déficit de 8 milhões de análises de solo por ano no Brasil, equivalente a um mercado de R$ 1 bilhão
- "Plano de saúde do solo” oferece pacotes com sensoriamento remoto, análises e suporte agronômico recorrente
- Companhia quer elevar participação no mercado de análises de 14% para 25% até 2030 com ajuda do modelo de assinatura