Depois de mais de duas décadas desenvolvendo máquinas para terceiros e operando projetos dentro de grandes grupos do agro, a Agricef começa a abrir uma nova frente de atuação, mirando o setor florestal.

A empresa, nascida dentro da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), desenvolveu um sistema de irrigação inteligente com uso de visão computacional e inteligência artificial, inicialmente voltado à silvicultura.

O movimento marca mais um passo na transição da companhia, que ao longo do tempo saiu de uma base acadêmica e de consultoria para se posicionar, cada vez mais, como fabricante de máquinas próprias.

O novo equipamento - batizado de IrrigAI - desenvolvido pela empresa, atua com irrigação localizada. O software utiliza câmeras e algoritmos para identificar mudas no campo e aplicar água de forma seletiva, apenas onde há plantas.

A tecnologia foi pensada para resolver um problema operacional comum na silvicultura, onde a irrigação ainda depende fortemente de trabalho manual e apresenta altos custos e riscos.

Segundo a empresa, o equipamento está atualmente em fase piloto, com testes realizados junto a companhias como Suzano e Dexco. A expectativa é que a solução ganhe escala comercial a partir do próximo ano. Com forte atuação no setor de cana, o movimento mostra uma estratégia de diversificar e fugir de sazonalidades.

O setor sucroenergético foi alvo do último lançamento da empresa, o Hauler. Com investimento de R$ 1,5 milhão, o equipamento automatiza a distribuição de tubos de fertirrigação nos canaviais.

"Hoje o hauler ocupa 90% do faturamento da linha de venda de produtos próprios ao mercado, mas atende um nicho específico que é cana. Estamos buscanso outros setores como florestal pra ganhar espaço e reduzir riscos das oscilações de mercado", disse José Leonardo Campos de Camargo, gerente de engenharia da Agricef.

Fundada em 2005, ainda dentro da incubadora da Unicamp, a Agricef surgiu a partir de uma demanda recorrente: empresas do setor buscavam a universidade para avaliar máquinas agrícolas, e os próprios pesquisadores - que depois fundaram o negócio - passaram a executar esses trabalhos.

“Fizemos avaliações para empresas como Cosan e CNH e foi daí que surgiu a ideia de criar a empresa”, disse Domingos Guilherme Cerri, diretor de pesquisa, desenvolvimento e inovação e um dos fundadores da Agricef.

Esse primeiro momento, focado em ensaios e validação de equipamentos, acabou abrindo espaço para uma segunda frente. Ao identificar falhas recorrentes nas máquinas testadas, a equipe passou a sugerir melhorias e, pouco depois, a desenvolver soluções diretamente para clientes.

Foi assim que a Agricef entrou no desenvolvimento sob medida, criando projetos para empresas como a Jumil, muitas vezes sob a marca dos próprios clientes e com remuneração via royalties.

O passo seguinte veio com a ampliação da atuação dentro das operações agrícolas. Um projeto com a Basf, voltado à cadeia de mudas pré-brotadas de cana-de-açúcar, levou a empresa a estruturar serviços de campo, incluindo plantio e operação de equipamentos.

Hoje, essa frente ainda representa uma parte relevante do negócio, com projetos também para empresas como Syngenta, além da presença em estações experimentais de grupos como Bayer e Sumitomo Chemical.

Ao longo desse processo, a empresa foi acumulando conhecimento prático de campo, algo que, segundo os executivos, acabou moldando o próximo movimento: deixar de desenvolver projetos únicos para terceiros e passar a criar equipamentos escaláveis, com potencial de venda mais ampla.

"Éramos até 2022 uma empresa de projetos únicos. Tínhamos mais de 160 projetos que fizemos ao longo do tempo mas eram projetos ou para uma empresa ou para uma estação, e produzíamos um ou dois. O esforço para vender um ou uma dezena é o mesmo em termos de desenvolvimento e, por isso, optamos por não fazer mais 'projetos filho único', mas sim os que podem escalar", acrescentou Cerri.

É nessa fase que surgem equipamentos próprios, como o Hauler, que foi criado a partir de demanda de usinas e tem ganhado tração comercial.

Após a venda de oito unidades no primeiro ano, a empresa já soma 12 equipamentos comercializados no primeiro trimestre deste ano, incluindo negócios com grupos como a Atvos.

Ainda assim, a operação segue bastante concentrada na cana-de-açúcar. Segundo a empresa, cerca de 90% da receita com venda de equipamentos vem desse segmento.

A empresa não revela os números de faturamento, mas cita que metade vem da venda de equipamentos e metade das outras operações como a análise de máquinas e ensaios. A venda de equipamentos ainda tem 10% dos negócios para estações experimentais. A ideia é crescer a receita de 10% a 15% neste ano.

O movimento no setor florestal repete uma lógica já adotada anteriormente pela Agricef: começar com um projeto em parceria com grandes empresas, neste caso, a Dexco, validar a tecnologia em campo e, a partir disso, estruturar a oferta para o mercado.

Além da nova frente, a empresa mantém outras linhas de atuação, que hoje se dividem entre venda de equipamentos, operações de campo e serviços de avaliação e desenvolvimento. Também começa a avançar em áreas como gestão de dados e robótica aplicada à agricultura.

Apesar da diversificação, a direção da companhia é clara: crescer na venda de produtos. “A operação de campo é mais difícil de escalar. Já a fabricação permite crescer com mais eficiência”, disse Cerri.

Para isso, a empresa ampliou recentemente sua estrutura produtiva em Paulínia (SP), onde concentrou a montagem dos equipamentos. A área industrial, que começou a ganhar forma em 2022, hoje conta com cerca de 20 pessoas e capacidade de produzir até três unidades por mês de alguns dos principais implementos.

Ao mesmo tempo, mantém um roadmap de novos produtos, com a meta de lançar pelo menos um equipamento por ano, incluindo soluções voltadas a replantio de falhas em canaviais e novas aplicações em automação.

Resumo

  • Receita cresce com base em equipamentos e serviços, com meta de alta de 10% a 15% em 2026; hoje, 50% vem de máquinas próprias, ainda concentradas na cana
  • Novo sistema usa visão computacional para irrigação seletiva na silvicultura e está em fase piloto com grandes empresas do setor
  • Estratégia inclui diversificação além da cana, mantendo atuação em projetos e serviços, enquanto amplia produção própria e aposta em soluções escaláveis