A boca do jacaré está aberta. Essa é a analogia que Pedro Estevão, presidente da Câmara Setorial de Máquinas Agrícolas da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) utiliza para ilustrar a situação anual do setor de máquinas agrícolas.
"A rentabilidade caiu, o custo subiu e o pessoal está com dificuldade de pagar as contas", resumiu Estevão em entrevista a jornalistas nesta quarta-feira, dia 29 de abril, durante a Agrishow, feira de máquinas agrícolas que acontece nesta semana em Ribeirão Preto, no interior paulista.
No acumulado de 12 meses até março deste ano, a receita líquida total do segmento somou R$ 64,9 bilhões, queda de 1,4%.
Os tratores apresentam retração de 21,4% nas vendas para o usuário final no resultado de 12 meses e queda de 1,6% na comercialização das fábricas. As colheitadeiras acumulam queda de 2,8% nas vendas para o usuário final e alta de 8,5% nas vendas de fábricas.
Os primeiros números de 2026 também indicam que o quadro permanece ruim. No primeiro trimestre deste ano, as vendas de máquinas recuaram 16,4% na comparação com 2025, somando R$ 12,8 bilhões. As vendas de tratores para o usuário final acumulam queda de 8,6% no período, enquanto que vendas de fábrica tiveram retração maior, de 16,3%.
Nas colheitadeiras, o quadro foi mais negativo. Nas vendas de fábricas, a perda acumulada no ano é de 42,7%. Situação semelhante foi registrada nas vendas para o usuário final, com queda de 40,2%. "Colheitadeiras estão caindo 40% porque, basicamente, servem para soja e milho", disse Estevão.
A retração já vem se desenrolando desde o segundo semestre do ano passado, segundo Estevão, quando houve queda de 7% na receita.
"Desde julho do ano passado, o câmbio vem diminuindo. Era R$ 6,20 e agora está R$ 5. O produtor tem que pegar o recurso dele e fazer custeio, por que se for ao mercado, o juro tá muito caro. O que ele prefere fazer? Pegar todo o recurso e fazer custeio e vai postergando o investimento", conta.
A Abimaq mantém, por ora, a previsão de queda de 8% na receita para este ano, percentual que tem viés de baixa. "A gente só vai rever depois do Plano Safra e acaba dando diferença no segundo semestre", disse Estevão.
Se o mercado interno vem decepcionando, o externo ajuda a equilibrar as contas. As exportações de máquinas agrícolas cresceram com força no início do ano.
No primeiro trimestre deste ano, as vendas externas do segmento avançaram 20,6% em valor, com destaque para o desempenho de março, quando houve salto de 40,1% na comparação anual.
No caso dos tratores, as exportações acumulam alta de 25,7% no ano. Já as colheitadeiras tiveram um crescimento expressivo em março (+176,2%), embora ainda apresentem leve queda de 4,5% no acumulado de 2026.
Estevão ressaltou, no entanto, que o incremento nas exportações é pontual, com máquinas sobrando nos estoques e sendo redirecionadas para o mercado exterior.
Agrishow e crédito para máquinas
Em relação à Agrishow, o representante da Abimaq avaliou que a feira está dentro da expectativa de público, mas evitou comentários sobre a movimentação de negócios. A organização do evento esperava, antes do inicio da Agrishow, mais de 200 mil pessoas circulando no local.
Estevão ressaltou, no entanto, a força comercial das empresas. "Como é um ano mais difícil pra vender, tem muita promoção de empresas, bancos com taxas menores, isso faz com que tenha concentração de negócios na feira e é bastante positivo para as indústrias", disse.
Estevão também comentou o anúncio feito pelo vice-presidente Geraldo Alckmin na abertura da Agrishow, que prometeu R$ 10 bilhões em linhas de crédito para aquisição de máquinas agrícolas pelos produtores.
“É interessante porque traz recurso mais barato, produtor vai querer o crédito de um dígito”, disse Estevão, ressaltando que a tendência é de que as linhas de crédito sejam consumidas rapidamente pelos produtores.
O representante da Abimaq ressaltou, no entanto, que as regras das linhas de crédito ainda não estão claras e que a associação vem trabalhando para esclarecer dúvidas nos últimos dias.
O novo programa utilizará recursos do superávit do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, sob gestão da Finep, e que tem foco em conteúdo nacional, inovação e pesquisa e desenvolvimento.
O governo projeta que os financiamentos estejam disponíveis em 20 a 30 dias. O destaque do Executivo é que, pela primeira vez, cooperativas agrícolas poderão acessar diretamente crédito da Finep para o financiamento de máquinas, equipamentos e soluções de agricultura digital.
Resumo
- Receita de máquinas apresentou queda de 1,4% em 12 meses, diz Abimaq, somando R$ 64,9 bilhões
- No primeiro trimestre de 2026, a retração foi de 16,4%
- Associação das indústrias de máquinas atribui efeito ao aumento dos custos no campo e condições financeiras piores