Uma das leis mais básicas da economia é o da oferta e demanda. Caso a disponibilidade de um produto seja maior que a procura, o valor desse produto cai. Já se ele for mais difícil de achar, o preço vai subir.
Pois a indústria de insumos agrícolas biológicos no Brasil começa a sofrer com uma concorrência acirrada entre as empresas do setor. É o que mostra um estudo feito pela Blink Inteligência de Mercado, que projeta como estará esse mercado na safra 2029/2030.
O levantamento foi apresentado pelo fundador e CEO da Blink, Lars Schobinger, durante o 3º Workshop de Inteligência de Mercado da Associação Nacional de Promoção e Inovação da Indústria de Biológicos (Anpii Bio), realizado esta semana em Campinas (SP).
As projeções mostram esse desequilíbrio, que já está presente no mercado atual, segundo Schobinger. A Blink estima um avanço de 78% na Área Potencial Tratada (APT), enquanto o valor financeiro gerado para a indústria deve crescer 46%.
A consultoria projeta que a APT vai passar de 300 milhões de hectares na safra 2024/2025, último período finalizado no calendário agropecuário, para 534 milhões de hectares na safra 2029/2030. A Área Potencial Plantada é calculada pela área total em hectares multiplicada pelo número de doses de insumo aplicadas.
Na mesma base de comparação, o faturamento conseguido pela cadeia de bioinsumos, representado pelo valor final pago pelo produtor, deve sair de R$ 6,75 bilhões para R$ 9,88 bilhões em cinco anos.
“Acredito que ainda estamos presos no cenário de 2021/2022, quando houve uma explosão e uma bolha. Os preços não voltam mais para os patamares daquele período. O mercado precisa agora pensar em como agregar valor para o produtor e assim, aumentar as margens”, diz Schobinger.
Impactos da produção própria
Na safra 2024/2025, cerca de 46% da APT teve aplicação de biológicos produzidos dentro das propriedades rurais, conhecido pelo termo on farm. Essa proporção deve chegar a 50% em 2029/2030.
Se a produção dentro da própria fazenda representa custos menores para o produtor, resulta também em faturamento menor para a indústria de bioinsumos. A participação de biológicos on farm na safra 2024/2025 foi de 14%. A perspectiva traçada pela Blink é de uma participação ainda menor em 2029/2030, com 12%.
Para Schobinger, esse movimento acontece não só pelo custo, mas também pelo baixo nível de diferenciais encontrados na indústria de bioinsumos.
“As mudanças na regulação também ajudaram, facilitaram a formação de consórcios entre grandes produtores e a indústria. Então, é necessário pensar em estratégias para oferecer algo diferente que só o insumo em si, porque o produtor já tem meios para dominar as tecnologias”, afirma o CEO da Blink.
Para o executivo, o mercado precisa convencer o produtor de que a finalidade dele é outra. “O negócio dele é produzir grãos, algodão, cana. Porque não é só o custo de montar uma fábrica dentro da fazenda. Existe ainda a necessidade de contar com profissionais qualificados para acompanhar as mudanças que acontecem na dinâmica de tratamento do solo e das plantas”.
Soja e milho dominantes
O que não deve mudar nos próximos anos é a dominância das culturas de soja e milho para a indústria de bioinsumos. Somadas, ambas representam mais de 80% do faturamento do setor e 85% da APT.
A participação da soja deve se manter estável em cerca de 60% no volume financeiro e em cerca de 65% em área. No caso do milho, essa participação fica próxima de 20%, e deve ter um pequeno avanço em termos de área, saindo de 17% em 24/25 para 19% em 29/30.
Em termos de crescimento, o destaque deve ficar com o café, segundo o estudo da Blink. A expectativa é que o faturamento cresça quase 120% em cinco anos com os cafeicultores e a APT triplique no mesmo período. Mesmo assim, a participação no mercado não passa de 2%.
Em tipos de bioinsumos, as maiores participações já são e devem continuar sendo de inseticidas e nematicidas, que representaram cerca de 55% do faturamento em 2024/2025 e devem ter participação parecida em 2099/2030.
Em termos de área, há um equilíbrio maior, com destaque para o crescimento esperado pela Blink para os fungicidas. A projeção é de avanço superior a 170% em cinco anos, atingindo 10% da APT, saindo de 7% em 2024/2025. Em faturamento, os fungicidas também devem mais que dobrar, saindo de uma fatia atual de 15% para 22%.
Em termos de Área Potencial, outro destaque de crescimento está nos bioinseticidas, que devem mais que dobrar sua área de aplicação em cinco anos. Em termos de participação, esse tipo de produto deve sair de 12% para 14%. Em faturamento, esses produtos devem ter avanço de 62%, com participação saindo de 25% para 28%.
Os nematicidas devem ter um ritmo menor de avanço, de 26% em faturamento e de 43% em área. Assim, a participação deste tipo de bioinsumo deve cairr de 31% para 27% em volume financeiro, e de 10% para 8% em área.
“Existe aí um desafio de convencimento do produtor para utilizar o biológico para controle dos nematóides. Mas o fato é que existem muito mais espaço de desenvolvimento e crescimento para inseticidas e fungicidas”, afirma Schobinger.
Resumo
- Área tratada com bioinsumos deve crescer até 80% até 2030, mas receita avança menos devido à concorrência, aponta estudo da Blink
- Produção on farm ganha espaço e reduz participação da indústria no faturamento do setor
- Soja e milho dominam mercado, enquanto café e biofungicidas lideram crescimento proporcional