A Korin passou três décadas construindo um modelo de produção que, por muito tempo, soou quase como uma afronta ao padrão da indústria. Mas faz alguns meses que começou a dar sinais mais claros de que quer deixar de ser apenas uma referência de nicho para ganhar escala - e visibilidade.

Esse movimento ficou evidente nesta terça-feira, 14 de abril, quando organizou um evento em São Paulo - o primeiro para um público mais amplo, com uma plateia que reuniu médicos, nutricionistas, pesquisadores, chefs e empreendedores ligados à gastronomia.

Mais do que uma vitrine institucional e oportunidade para divulgar lançamentos no portfólio (uma linha de salsichas e um caldo de osso de frango orgânico) o encontro marcou uma inflexão: a empresa que historicamente evitou os holofotes agora busca ocupar espaço mais nobre, para além das prateleiras, nos debates.

"Quando começamos a produzir frangos e ovos orgânicos, sem uso de antibióticos e anticoccidianos  há mais de 30 anos, o mercado ia na direção contrária e nos chamava de irresponsáveis, argumentando que iríamos disseminar doenças. Então, se divulgássemos muito, seríamos visto como 'loucos', e isso não iria cair bem", disse Edson Matsui, presidente do grupo, ao AgFeed.

"A gente respeita o momento do mundo e, hoje, 32 anos depois, vemos as normas em relação à redução de utilização de antibióticos na produção animal do Brasil, além de bloqueios na parte comercial com a Europa. Hoje o mundo busca essas soluções e não sabe como fazer", prosseguiu.

As falas sintetizam o momento da Korin. Fundada sob os princípios da agricultura natural desenvolvidos por Mokiti Okada, a empresa, pertencente à Igreja Messiânica Mundial, cresceu ancorada em um modelo que não utiliza antibióticos na produção animal e nem insumos (defensivos e fertilizantes) químicos na agricultura, uma proposta que, segundo executivos, era vista com desconfiança até poucos anos atrás.

"Mokiti Okada sempre dizia: temos que aguardar o tempo certo das coisas. Não dá pra você forçar", ressaltou o presidente, em mais uma ilustração de que a filosofia rege os negócios na empresa.

Apesar do novo momento institucional, 2026 ainda é tratado internamente como um ano de transição. Matsui citou que, depois de um processo de reestruturação iniciado há cerca de dois anos, a expectativa da companhia é de crescimento modesto no faturamento (que não é divulgado), na casa de 3% a 5% neste ano.

O número contrasta com o potencial que a própria empresa enxerga em suas operações e reflete um período de ajustes internos.

“Brinco que estamos fazendo um retrofit na empresa. É como trocar a turbina do avião com ele em pleno voo”, afirmou o presidente.

A reorganização passa por uma revisão da gestão, da operação e da estratégia comercial. A empresa promoveu uma divisão nos negócios, e passou a ter um diretor para cada operação.

Abaixo de Matsui estão Luiz Demattê (que era CEO da Korin até poucos meses), como diretor para a parte de alimentos, e Sérgio Homma, como diretor da Korin Agricultura e Biotecnologia - cuidando da parte de bioinsumos.

Matsui cita que ao completar 30 anos, a empresa passou a se preparar para os próximos 30, e por isso resolveu promover essas mudanças.

No curto prazo, olhando o final da década, a meta é crescer nas duas verticais. Na Korin Alimentos, onde tem a proteína de aves e os ovos orgânicos como estrelas do portfólio, a meta é dobrar a produção de frangos até 2030.

A empresa elevou o ritmo de abate de cerca de 16 mil aves por dia para 18,5 mil, com objetivo de chegar a 21 mil ainda neste ano e atingir cerca de 30 mil aves diárias até o fim da década.

O crescimento, no entanto, não virá por escala pura, como nas grandes integradoras e cooperativas do setor. A Korin mantém um modelo baseado em controle rigoroso de toda a cadeia produtiva: ração sem transgênicos produzida pela própria empresa, além da ausência de antibióticos para tratamento deste animais.

"É lógico, a gente é pequeno em relação aos grandes, mas isso é porque prezamos por esse zelo", disse o presidente.

Para efeito de comparação, o Brasil abate cerca de 12,6 bilhões de frangos por dia, enquanto a produção anual da Korin gira em torno de 5 milhões de aves. Parte do crescimento deve vir do acesso a novos mercados. Segundo Edson Matsui, a empresa deve começar a exportar para o Oriente Médio em breve.

"O pessoal fala que somos tímidos e não trabalhamos marketing e, às vezes, por isso não conseguimos atender certas demandas. Claro que no Oriente Médio tem toda a adequação halal, que demora e demanda investimento, mas é um mercado que estamos abrindo no exterior", disse.

Para liderar a área de marketing, a empresa trouxe há poucas semanas Adriana Cury para a função de diretora. A executiva já foi vice-presidente nacional de criação da Ogilvy e presidente da McCann Erickson Brasil, duas das maiores agências de publicidade do País.

Foco no solo

Na filosofia da agricultura natural de Mokiti Okada, é pregado um grande respeito pela terra e pelo solo em seu estado natural. A crença é que uma biota em ordem é o mais poderoso fertilizante possível.

É esse lema que rege esse portfólio, que hoje já fatura 20% do da vertical de alimentos. A percepção de Matsui é que essa área deve ganhar ainda mais protagonismo nos próximos anos.

Porém, se engana quem pensa que o produtor poderá encontrar biodefensivos como bionematicidas ou fertilizantes orgânicos da Korin nas prateleiras das revendas.

Enquanto boa parte da indústria trabalha na substituição direta de defensivos químicos por biológicos, mantendo a lógica de combate a pragas e doenças -, a empresa aposta em um conceito mais estrutural: atuar no equilíbrio do solo.

"Os produtos convencionais, mesmo os biológicos, não atuam no foco da causa de uma praga e sim como remédios. A Korin tem característica de atuar no equilíbrio do sistema do solo".

O principal produto da linha de bioinsumos é o bokashi, um composto baseado em múltiplos micro-organismos que atua como um "condicionador de microbioma". A ideia é reorganizar o ambiente biológico do solo, criando condições para que pragas e doenças deixem de se proliferar.

O produto é utilizado principalmente entre produtores de HF, incluindo no cinturão das frutas no Vale do São Francisco.

Além disso, também é utilizado em café em Minas Gerais, feijão no Paraná, batata em São Paulo, arroz no Rio Grande do Sul e em grãos no Centro-Oeste. Matsui cita que hoje a Korin possui 750 clientes "fiéis" na vertical.

"Nosso planejamento é de aumentar o número de produtores, sejam familiares, pequenos ou médios, que estão fazendo uma transição. A Korin pode ajudar a fazer transição de uma agricultura convencional para a orgânica e depois para a agricultura natural", explicou Edson Matsui.

Ele cita um caso de um produtor rural de 60 hectares no Rio Grande do Sul que cultiva maçãs, uvas, caquis e ameixas e que, num determinado hectare com 2 mil macieiras que não davam frutos, estava decidido a cortar as árvores.

Um técnico da Korin interveio e sugeriu o uso do bokashi. Após as aplicações, a área voltou a produzir e ele colheu ali 40 toneladas de maçã em fevereiro deste ano. Agora, segundo o presidente, ele decidiu adquirir produtos suficientes para aplicar em toda a propriedade.

O caso é um exemplo do que a Korin pretende fazer nessa vertical: um "trabalho de formiguinha" e de mostrar o que já deu certo para conquistar os produtores.

Fora do solo, mas ainda na vertical do bioinsumos, a empresa atua com uma linha ambiental, onde possui um portfólio de biorremediadores. Os produtos tratam efluentes urbanos e industriais e uma versão adaptada atua com produtores de peixes e camarões - tratando a água para o cultivo.

No mercado de aves e suínos, a empresa possui bioestimuladores de ambiente. Produtos que, utilizados nas granjas, reduzem a emissão de amônia.

O presidente citou que, nos suínos, existe um projeto com uma cooperativa catarinense em uma área com mais de 600 mil animais em andamento. "Estamos começando com outra ainda maior e com um frigorífico de bovinos em São Paulo", concluiu.

Outro insumo complementar é o "Kensui", que, ao ser diluído na água ingerida por esses animais, ajuda a modular a microbiota do intestino.

Resumo

  • Korin projeta dobrar produção de frango até 2030, mantendo modelo sem antibióticos e com alimentação orgânica das aves
  • Empresa mira crescimento em bioinsumos, com foco em equilíbrio do solo e agricultura natural
  • Novo momento inclui reestruturação, nova diretora de marketing e busca por escala sem perder filosofia da Igreja Messiânica e de Mokiti Okada

Presidente do grupo Korin, Edson Matsui, em evento da empresa em São Paulo