Quando uma indústria começa a operar próxima do limite, um sinal de alerta passa a ressoar nas áreas administrativas: os equipamentos estão ficando obsoletos e, logo mais, exigirão novos investimentos para que a empresa não fique estagnada ou comece a perder a mercado.
No Moinho Globo, um dos maiores do Paraná, fabricante das farinhas de trigo Globo e Famiglia Venturelli, porém, a situação tem outro significado: é reflexo direto de uma expansão recente que já começa a ser absorvida pelo mercado.
Após ter inaugurado, há um ano e meio, uma terceira linha de moagem que custou R$ 100 milhões, a empresa ampliou a capacidade produtiva de seu moinho em cerca de 70% – passando para 1 mil toneladas ao dia – e entrou em um novo ciclo de expansão.
Assim, no ano passado, a empresa conseguiu avançar sobre novos mercados, ampliar a base de clientes e registrar mais um ano de crescimento, com alta de cerca de 20% no volume. O faturamento da companhia acompanhou a expansão e subiu cerca de 23% entre 2024 e 2025, passando de R$ 539 milhões para R$ 666 milhões.
“Em termos de volume e lucratividade, nós superamos bastante a meta que tínhamos estipulado”, comemora Paloma Venturelli, CEO do Moinho Globo, em entrevista ao AgFeed.
Sob a liderança de Venturelli – à frente da empresa desde 2021 e neta do fundador, Ciro Venturelli – o faturamento do Globo dobrou, saltando dos R$ 384 milhões registrados há cinco anos.
Novos investimentos, como a nova linha de moagem, também marcaram sua gestão até aqui. Se dependesse da vontade da executiva, um novo moinho, ao custo de R$ 300 milhões, já estaria em construção. Demanda é o que não falta, lembra ela, ponderando também que é preciso colocar os pés no chão.
“Achamos que não é o momento de a gente ficar alavancado em financiamentos e também não teria todo o recurso para fazer nesse momento com capital próprio", afirma.
"Estamos em um momento com muitas variáveis. É um ano eleitoral, tem o fator guerra, endividamento altíssimo de famílias no Brasil, taxa de juros que não colabora... Não podemos dar o passo maior que a perna."
A prudência, no entanto, não significa pé no freio em outros investimentos de menor porte. Pelo contrário, afinal, o ritmo acelerado de crescimento da produção trouxe novos desafios operacionais ao longo do ano passado, que exigem aportes.
Venturelli conta que gargalos foram surgindo principalmente na etapa de empacotamento e expedição. “Não adianta eu ter a produção, a farinha ficar armazenada em silos e eu não ter a velocidade adequada de escoamento para expedição e para o cliente”, afirma.
Para resolver essa questão, a empresa aportou R$ 25 milhões em um novo sistema voltado à automação e robotização das linhas de envase de farinha de trigo, que está entrando em plena operação ao longo deste ano.
O foco está nas embalagens de 1 kg, 5 kg e 25 kg, com a instalação de equipamentos industriais e sistemas de paletização automatizada, capazes de aumentar a velocidade, precisão e eficiência logística.
Os sistemas automatizados viabilizam o agrupamento dos pacotes e a formação de fardos com filme plástico termoencolhíves. Esses fardos são movimentados em esteiras com sensores de detecção até uma célula de paletização.
A partir desse ponto, um robô realiza a paletização ordenada por cada produto, conforme programação. Depois de montado, o pallet segue por uma esteira até outro equipamento, a envolvedora orbital, que realiza a aplicação do filme stretch, deixando-o pronto para expedição.
O sistema já está funcionando desde o fim de 2025 para as linhas de farinha de trigo nas embalagens de papel de 1 kg e 5 kg, além das embalagens de 1 kg de plástico. A linha para envase das embalagens de 25 kg está sendo instalada, com operação prevista para começar no segundo trimestre deste ano.
Com o aporte, o moinho passa a operar de forma 100% automatizada em todas as etapas, da moagem à armazenagem dos produtos paletizados prontos.
Em outra frente, para reforçar o segmento comercial, a companhia lançou neste mês uma frente de e-commerce, a Loja do Trigo, que marca a entrada da empresa no modelo de venda direta ao consumidor final.
"A gente tem uma procura muito grande pelos nossos produtos, principalmente nas redes sociais, e ficamos muito frustrados quando as pessoas comentam algo do tipo: 'Eu amo a sua farinha, pena que aqui na minha cidade não vende'", conta Venturelli.
A executiva conta que, em um primeiro momento, o Globo apostou em um localizador de produtos no próprio site da companhia, que indicava qual era o ponto de venda mais próximo do CEP do usuário. Mas ainda assim isso não era o suficiente para Venturelli. "Em alguns estados não temos essa venda direta", afirma a presidente do Moinho Globo.
A companhia partiu, então, para uma primeira tentativa de venda de produtos de forma direta, mas usando um marketplace externo, a Amazon. "Mas isso também não foi suficiente. A gente não controla o estoque da Amazon. Muitas vezes não tinha estoque do nosso produto ou demorava muito para chegar", explica.
O moinho resolveu partir para uma plataforma própria, enviando os produtos para diferentes partes do Brasil via Correios ou transportadoras. Uma embalagem específica para esse tipo de entrega foi desenvolvida de forma que os produtos possam chegar sem danos ao consumidor final.
"Nosso principal canal é a venda através do varejo, do supermercado, isso não muda. Mas sendo alguém que deseja o nosso produto e que não tem a venda na cidade, a gente consegue entregar dessa forma e viabilizar essa compra", diz.
Para este ano, além da automação industrial e da frente de e-commerce, o Globo prevê ainda um investimento de R$ 20 milhões em novos silos de farinha em seu complexo industrial de Sertanópolis.
Além de comandar o Moinho Globo, Venturelli é também presidente do Sindicato da Indústria do Trigo no Estado do Paraná (Sinditrigo-PR) e lamentou não ter boas notícias para o trigo outra vez.
O Paraná deverá reduzir a área plantada com o cereal em 6% neste ano, chegando a 775,6 mil hectares. Trata-se do menor território dedicado à cultura desde 2000. Os dados são do Departamento de Economia Rural, órgão do governo estadual.
Com isso, a produção deve ter uma queda estimada em 12% neste ano, recuando a 2,53 milhões de toneladas.
"Fica a expectativa de termos uma boa produtividade para compensar o recuo da área plantada", diz Venturelli.
Com isso, moinhos paranaenses como o Globo terão de recorrer, mais uma vez, ao trigo do Rio Grande do Sul, da Argentina, do Paraguai e... do Cerrado.
Venturelli conta que, no fim do ano passado, o Globo recebeu uma pequena quantidade de trigo tropical, cultivado no Centro-Oeste e que tem a promessa de ser uma nova cultivar importante da região. "Recebemos um pouquinho e superou todas as expectativas, porque a qualidade é muito boa. Ficamos muito surpresos", conta.
Resumo
- Moinho Globo opera próximo do limite após ampliar em 70% a capacidade com nova linha de moagem e sustenta forte crescimento, com faturamento chegando a R$ 666 milhões em 2025
- Para eliminar gargalos logísticos, empresa investe R$ 25 milhões na robotização das linhas de envase, automatizando 100% do processo produtivo até a expedição
- Estratégia combina prudência em grandes aportes com novos investimentos e expansão comercial, incluindo e-commerce próprio e mais R$ 20 milhões em silos