A história da economia é recheada de bolhas. A primeira, pelo menos nos moldes mais modernos, foi a do mercado de tulipas na Holanda, no século XVII. Ali, onde funcionavam os pregões que inspiraram o atual mercado de ações, os preços inflados das flores tiveram uma queda repentina, fazendo com que muitos investidores perdessem grande parte dos seus recursos.

Na década atual, há quem enxergue que podemos ter vivido uma bolha na indústria de bioinsumos. E ela teria começado a desnflar, segundo mostram os dados de fusões e aquisições dentro do setor no Brasil, acompanhados pela consultoria norte-americana DunhamTrimmer, agência de inteligência de mercado especializada em insumos biológicos.

Eles apontam que houve uma queda importante e brusca nos valores que investidores estão dispostos a pagar para comprar empresas brasileiras de biológicos.

“Quando houve aquela explosão do mercado de biológicos, durante a pandemia, algumas operações foram fechadas por um valor correspondente a 15 vezes o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização). Hoje, o que vemos é que ninguém está disposto a pagar mais que 8 vezes o Ebitda”, conta Ignacio Moyano Córdoba, vice-presidente para a América Latina da DunhamTrimmer.

Córdoba falou com exclusividade ao AgFeed depois de sua participação no 3º Workshop de Inteligência de Mercado da Associação Nacional de Promoção e Inovação da Indústria de Biológicos (Anpii Bio), realizado em Campinas (SP) na semana passada.

Ele lembra que, no começo da década, grandes empresas da indústria de químicos queriam entrar no ramo de biológicos e havia grande espaço para consolidação.

“A pandemia levou a uma mudança de comportamento do consumidor. As pessoas começaram a ficar mais atentas, especialmente na alimentação. Isso fez com que o número de indústrias no mercado dobrasse em pouco mais de dois anos”, lembra Córdoba.

Ao somar o apetite de grandes empresas para entrar no segmento, e o grande número de startups, se criou um cenário ideal para uma “bolha”. Segundo o especialista, havia projeções de que o mercado de biológicos triplicaria em pouco tempo, movimento que não se confirmou.

“Era muito comum investidores e grandes empresas colocarem dinheiro para comprar startups que ainda não tinham registros de seus produtos, praticamente pré-operacionais”, conta o VP da DunhamTrimmer.

Hoje, com os dados expondo uma desaceleração no crescimento do setor, especialmente em faturamento, a postura do potencial comprador de uma empresa de bioinsumos mudou bastante.

“Para convencer um investidor hoje, o primeiro ponto, o mais básico, é ter todos os registros e já ter uma operação consolidada. Não há mais aquisições de empresas que estão em fase muito inicial”.

Cenário menos otimista

O crescimento mais modesto do que se esperava no mercado global de bioinsumos é fator fundamental nessa reprecificação das empresas em fusões e aquisições.

Projeção feita pela DunhamTrimmer mostra que o mercado global deve crescer 10% entre 2025 e 2030, chegando a US$ 25 bilhões ao final da década. A América Latina, em especial, deve ter desempenho um pouco acima da média, de 14%, chegando a US$ 6,7 bilhões no fim de 2030.

Córdoba afirma que há muitas oportunidades de crescimento ainda, especialmente no Brasil, que pode aumentar muito a taxa de adoção pelo produtor rural nos próximos anos.

“Claramente não temos e não teremos um problema de demanda. O que acontece é que ainda há muita concorrência, o que pressiona as margens. Então, o jogo é de quem conseguir capturar valor dentro desse ciclo de crescimento”, explica.

Ele avalia que, com esse cenário de lucros mais achatados, algumas empresas estão em situação difícil. “Por isso, o movimento de consolidação vai continuar. Algumas empresas vão simplesmente sair do mercado, mas ainda tem espaço para os investidores conseguirem boas oportunidades”.

O fenômeno não é apenas brasileiro. Um levantamento divulgado pela DunhamTrimmer em outubro passsado revela que o mercado global de M&As na indústria de biocontrole, bioestimulantes e biofertilizantes registrou seu pico histórico em 2022.

O estudo mostra que o setor acumulou 597 transações entre 2013 e 2024, com média de 49 operações anuais. Desse total, 222 foram fusões, aquisições, joint ventures ou aportes de investidores, 212 envolveram acordos de distribuição e 161 se concentraram em parcerias de P&D (Pesquisa e Desenvolvimento) e manufatura.

Em 2022, logo após o fim da pandemia, esse movimento atingiu seu ápice, com 82 operações — sendo 32 de M&As e investimentos diretos. Depois disso, o volume total recuou para 62 em 2023 e 48 em 2024.

As aquisições despencaram de 32 para apenas 17 no período — o menor patamar desde 2017. Enquanto isso, acordos de distribuição emergiram como estratégia preferencial nos últimos dois anos.

Resumo

  • Múltiplos de aquisições na indústria de bioinsumos caíram de 15x para até 8x Ebitda, indicando forte reprecificação no setor
  • Crescimento abaixo do esperado e excesso de empresas pressionam margens e valuations, segndo a consultoria DunhamTrimmer
  • Mercado segue com demanda, mas exige operações maduras e deve passar por consolidação