Sapezal (MT) - As preocupações entre produtores de grãos e fibras têm sido crescentes, com juro mais alto e margem mais apertada, mas nem tudo é apreensão na maior potência agrícola do Brasil – o estado de Mato Grosso.

Na última semana, a multinacional de defensivos agrícolas FMC realizou uma das etapas de um evento que promove há 19 anos, o chamado tour “Gigantes do Algodão”. A parada foi o município de Sapezal (MT), a mais de 1,5 mil km de Cuiabá, conhecido por ser uma das regiões onde mais investiram (e ainda investem) grandes grupos agrícolas como Amaggi, Bom Futuro e Scheffer.

O objetivo da companhia era seguir estreitando relacionamento com os clientes, mostrar detalhes técnicos para o combate de pragas que preocupam a cotonicultura, como o nematoide, mas acima de tudo pegar carona no clima mais otimista entre produtores que esperam colher uma safra recorde.

Mato Grosso é o maior produtor de algodão do Brasil e chegou a registrar uma leve redução na área plantada na safra 2025/2026, mas agora comemora um clima muito favorável – com boa quantidade de chuva até em maio – na região com maior produtividade da pluma no estado, Sapezal. Alguns produtores relatam um rendimento acima de 400 arrobas por hectare, bem acima da média estadual.

O AgFeed acompanhou as visitas às fazendas e conversou com o executivo que lidera a área de algodão na FMC, Fábio Lemos, que está há 16 anos na companhia.

“A nossa expectativa é avançar como um todo no algodão, porque a gente tem novos produtos lançados esse ano e temos os produtos novos lançados nos últimos 2 ou 3 anos, que ainda não atingiram a maturidade de vendas, está havendo uma adoção. Então, a nossa expectativa é de crescimento para esse ano”, afirmou Lemos.

Perguntado sobre quanto seria esse crescimento, ele respondeu: “para o ciclo 2026/2027, nosso crescimento esperado em algodão é de dois dígitos”.

A expectativa se justifica em parte pela valorização nos preços do algodão. Com a alta do petróleo e derivados, provocada pelo conflito no Irã, o mercado pressupõe que as fibras sintéticas (hoje o maior competidor do algodão globalmente, para a fabricação de tecidos) ficarão mais caras. Isso puxa os preços da pluma na Bolsa de Nova York.

O cenário é totalmente diferente do ano passado, quando preços mais baixos do algodão – e custos ainda altos - levaram à redução de área em algumas regiões. Isso causou queda na receita para empresas de insumos, inclusive na FMC.

O algodão em Mato Grosso é plantado majoritariamente como cultura de segunda safra, após a soja. Na safra 2025/2026, acabou valendo mais a pena optar pelo milho no lugar do algodão, em função da forte demanda da indústria de etanol.

Na safra 2026/2027, pode ocorrer o contrário, já que as vendas de fertilizantes nitrogenados – houve disparada nos preços destes produtos com a guerra e eles são fundamentais na cultura do milho – estão praticamente paradas. Poderá valer mais a pena retomar o algodão na segunda safra, avaliam alguns analistas.

“Eu sou bastante otimista que a gente vai ver um possível crescimento de área de algodão, pela situação de soja e milho. Milho tem um desafio grande, que é o investimento em fertilizante nitrogenado. Ele aumenta muito o custo do agricultor. O algodão também é impactado pela questão dos fertilizantes, mas, em contrapartida, a gente viu esse aumento de mais de 30% no preço do algodão”, avalia Lemos.

Uma das questões que tem eliminado a margem de lucro dos produtores é o alto custo do arrendamento de terras. Segundo o executivo da FMC, o algodão “é uma cultura que consegue viabilizar mais essas áreas arrendadas”.  Ele diz que o “binômio soja mais milho é uma situação bem mais apertada para pagar arrendamento”.

Compras antecipadas

Um fenômeno que está marcando o ano de 2026, segundo Fábio Lemos, foi uma compra ainda mais antecipada dos defensivos agrícolas por parte dos produtores de algodão.

“Pensando na safra 2026/2027, o agricultor foi às compras mais cedo. No ano passado, a gente, como FMC, teve muitos negócios que ainda aconteciam junho, julho e agosto. Esse ano, aconteceu muito forte, principalmente março e abril”, revelou.

Os clientes também teriam percebido a recente alta nos preços dos insumos agrícolas, não apenas dos fertilizantes, mas também dos defensivos.

“Esse petróleo subindo, queira ou não, está impactando a cadeia como um todo, seja logística, seja de vários ativos que são dependentes de petróleo ou da energia de gás natural para produção. De alguma forma, a gente viu aumentos substanciais em algumas linhas de produtos, independente se é inseticida, fungicida ou herbicida. Isso fez com que as compras acontecessem mais rápido, na preocupação do agricultor de não perder o momento de compra”, explicou.

O gerente de cultivo de algodão da FMC estima que 70% dos defensivos para a safra da pluma 2026/2027 já tenham sido comercializados. Historicamente, este índice estaria em 50%.

Mato Grosso e o Oeste da Bahia representam em torno de 90% da produção de algodão do País. Segundo a FMC, cerca de 40% da área que é plantada no Brasil parte de 7 grandes grupos, como esses que possuem extensas lavouras em Sapezal.

“Esses grupos, sem dúvida, são mais profissionalizados. O momento de fechamento das compras de insumos, como também o momento de fechamento da venda da commodity, é mais programado, ele não é feito de forma abrupta”, pontuou.

As vendas de defensivos no algodão ocorrem 95% de forma direta ao agricultor, em função também da concentração em grandes grupos. É um cenário diferente da soja, mais pulverizado e com maior participação de revendas e cooperativas.

Lemos acredita que muitos produtores podem deixar os 20% restantes da compra dos insumos para adquirir mais perto do plantio, para aproveitar o chamado “repique”, em algumas oportunidades que surgem de relação de troca mais favorável.

Um ponto negativo é que alguns clientes que optaram por reduzir área na safra atual, acabaram estocando uma parte dos produtos e agora também tendem a fazer uma aquisição menor.

Foco na confiança

Assim como as demais indústrias, a FMC teve resultados prejudicados nos últimos anos pela alta na inadimplência dos produtores e também por recuperações judiciais que afetaram grandes redes de revendas.

Em fevereiro deste ano, ao divulgar o balanço de 2025, a empresa admitiu ao mercado estar estudando “opções estratégicas” para reduzir seu endividamento. Uma delas foi concretizada no inicio de maio, quando a FMC vendeu a operação da Índia por US$ 252 milhões.

Um segundo plano está relacionado ao possível licenciamento de produtos da companhia para outros players. Em último caso, também não estaria descartada a possibilidade de que a empresa fosse adquirida por algum outro grupo.

Em meio a esse cenário, o foco do time da companhia no Brasil é reforçar que a operação segue forte e é capaz de manter a confiança que sempre teve junto aos produtores, especialmente no segmento de algodão.

A empresa participou ativamente, por exemplo, da criação da Abrapa – Associação Brasileira dos Produtores de Algodão – em função de um encontro anual que realizava anualmente, desde 1997.

Até hoje, a empresa está entre as três maiores no mercado de algodão. O cultivo responde por 20% da receita, uma participação que já foi de 50% há 15 anos, mas que só mudou em função da maior presença da fabricante nos mercados de soja e milho (não houve redução no faturamento com algodão).

“A gente tem uma expectativa grande que esse ano a gente retome a liderança no mercado de herbicidas pré-emergentes”, disse Lemos.

A realização de eventos pelo País e o contato direto com os produtores são oportunidade para afastar eventuais desconfianças sobre o futuro da empresa.

“A gente está trabalhando aqui no campo com investimento, com ações, para que a gente consiga continuar crescendo. Nosso investimento em lançamentos, em eventos, participações em importantes feiras, vem acontecendo no mesmo nível”, ressaltou.

A empresa diz estar mantendo um ritmo de cerca de 120 feiras e eventos por ano, além do lançamento de 3 a 5 produtos novos, anualmente.

Lançamento em biológicos

No mercado de algodão, a maior demanda é por inseticidas, em função de problemas críticos como o bicudo, a lagarta spodoptera, o pulgão, a mosca branca e o ácaro.

No evento de Sapezal, um dos focos foi mostrar os diferentes tipos de nematoides e as formas de controle da praga.

Além das soluções químicas, a FMC aposta no crescimento da demanda por seus produtos biológicos.

“A gente está trazendo uma nova solução biológica, que é o feromônio, pensando na questão da lagarta, em que o Brasil foi pioneiro na FMC Global no lançamento desse produto, em 2025”, lembrou.

Leonardo Antolini, gerente de marketing estratégico Plant Health no Brasil, que também participou das apresentações aos produtores rurais de Sapezal, diz que a adoção de biológicos no algodão, no caso do tratamento de sementes com foco em nematoides, já chega a mais 80%.

Ele acredita que há potencial para a empresa seguir ampliando as vendas de bioinsumos. No ano passado, a FMC já teria avançado “acima do mercado”, que teria crescido 20% em dólar.

“A gente bateu o mercado e vê, que além de crescer o dinheiro, cresceu muito em área, a adoção está crescendo muito rápido”, afirmou Antolini.

Hoje a empresa tem 17 produtos biológicos no portfolio. A oferta dessas soluções começou há mais de 10 anos, mas nas últimas safras foi reforçada em função de movimentos como a aquisição da startup Biophero em 2022, especializada em feromônios, em nível global, além do acordo com a Ballagro, no Brasil, em 2024.

Globalmente, os biológicos já representam pelo menos 5% da receita da FMC. Os dados específicos do Brasil não são divulgados.

A estratégia da companhia é sempre oferecer soluções biológicas integradas aos químicos. Há muita expectativa pela aprovação de um novo biofungicida, que seria capaz de “ativar 156 genes na planta”, protegendo raízes e folhas contra as doenças.

Resumo

  • FMC prevê crescimento de dois dígitos nas vendas de defensivos agrícolas para produtores de algodão em 2026
  • Empresa realizou tour com visitas às fazendas de algodão em Sapezal (MT), considerada a região de maior produtividade da pluma em Mato Grosso
  • Preços do algodão tiveram valorização com impacto da guerra e podem estimular o plantio na safra 26/27, segundo a FMC

Produtores rurais participam de evento da FMC em Sapezal (MT)