O cenário já conhecido de crédito restrito, juros elevados e margens comprimidas, de um lado, tem dificultado a vida de bancos tradicionais. De outro, abriu espaço para novas empresas, muitas vezes médias e regionais, ocuparem essas lacunas.

Na região de Lavras, entre o Sul e o Oeste de Minas Gerais, a JPA quer dar um novo passo em sua trajetória: deixar de ser apenas um marketplace de insumos para o produtor com braço financeiro para se transformar em uma plataforma integrada de serviços ao agro. A ambição, nas palavras do CEO Leandro Avelar, é clara: “Queremos ser o Nubank do agro”, afirmou ao AgFeed.

"A ideia é aumentar o trânsito do cliente na nossa empresa. Estamos caminhando para fazer um BaaS (banking as a service), onde ele vai ter acesso a  uma conta corrente, Pix, como todas fintechs fazem. Ao mesmo tempo vamos dar crédito e promover as várias soluções que temos", explicou Avelar.

A nova estratégia começou a ganhar forma oficialmente no início de maio, durante a terceira edição do JPA Summit, realizado em Lavras (MG), cidade onde a companhia nasceu.

Pela primeira vez aberto ao público, o evento reuniu cerca de 400 pessoas, incluindo produtores rurais, empresários, investidores, estudantes e profissionais do setor, para marcar o lançamento da JPA S.A., holding que passa a unificar as diferentes operações do grupo.

A ideia é consolidar sob uma única marca os serviços de marketplace, crédito, inteligência de mercado e securitização, além do recém criado braço de seguros e futuras soluções financeiras digitais da companhia.

“Hoje o produtor precisa comprar bem, ter crédito, ter segurança financeira e conseguir operar com eficiência. Nosso objetivo é integrar tudo isso dentro do mesmo ecossistema”, disse Avelar.

O movimento aproxima a empresa de fintechs e plataformas financeiras que cresceram nos últimos anos apostando em relacionamento digital e ecossistemas fechados. Grandes bancos como o Banco do Brasil, com o Broto, e o Bradesco, com o E-agro, ilustram essa lógica.

A diferença, segundo Avelar, é que a JPA parte de uma operação comercial para o braço financeiro - e não o contrário.

A empresa nasceu como corretora de farelo e grãos e, ao longo dos anos, ampliou a operação para sementes, defensivos, fertilizantes, nutrição animal, máquinas e implementos, além de passar a conceder crédito. A pecuária leiteira é o principal segmento atendido, representando cerca de 70% da receita da companhia.

Em 2024, últimos ano com dados divulgados, o marketplace movimentou R$ 500 milhões em GMV (Gross Merchandise Volume), enquanto o braço financeiro, a JPA Cred, concedeu R$ 180 milhões em crédito com funding próprio.

A intenção para 2025 era chegar perto dos R$ 800 milhões na plataforma e R$ 350 milhões no crédito. Para 2026, a expectativa é crescer a vertical de crédito entre 20% a 25%.

Para ajudar esse ritmo, a companhia aposta em um recém estruturado FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios). O veículo opera, por enquanto, exclusivamente com capital da própria empresa e hoje possui patrimônio líquido de cerca de R$ 10 milhões, segundo Avelar, que pretende dobrar esse valor nos próximos meses. A meta é encerrar 2026 com um patrimônio de R$ 30 milhões.

“O fundo está rodando muito bem, praticamente sem PDD [provisão para devedores duvidosos]. Fechamos março com retorno próximo de 7% no ano e cerca de 2,2% ao mês”, afirmou.

Apesar dos bons resultados, o executivo se mostra cauteloso em relação à alavancagem externa. Restrito ao comentar números mais detalhados da operação, Avelar afirmou que a estratégia atual é construir histórico e track record antes de buscar investidores institucionais de forma mais agressiva.

A avaliação é que o agro ainda atravessa um momento delicado para captação de recursos no mercado financeiro.

“O produtor ainda tem rentabilidade. O problema hoje é o custo do dinheiro. Quando o juro chega perto de 15% mais spread, boa parte da margem vai embora no financeiro”, disse.

A expectativa da empresa é utilizar o FIDC e sua securitizadora como pilares para ampliar a originação de crédito nos próximos anos.

Até por isso a companhia lançou recentemente sua operação de seguros rurais. Segundo o CEO, a nova vertical já movimentou cerca de R$ 400 mil em apenas três meses de operação.

Toda essa estrutura passa agora a ser consolidada sob o guarda-chuva da JPA S.A., numa estratégia inspirada em grandes plataformas financeiras.

“Fazendo uma analogia, a XP tem várias empresas dentro dela, mas comunica tudo sob a marca XP Inc. Queremos fazer algo parecido com a JPA S.A.”, afirmou.

O plano envolve também uma estratégia de crescimento baseada em comunidade e exclusividade. Durante o evento em Lavras, a companhia apresentou um modelo de entrada inspirado em fintechs como o Nubank: os primeiros clientes terão acesso via convite, QR codes e lista de espera.

A ideia é começar com um grupo restrito de produtores parceiros para validar os serviços antes de ampliar gradualmente o acesso. “Vamos começar abrindo para alguns clientes parceiros, testar tudo, ajustar o modelo e depois ampliar dentro do ecossistema”, disse Avelar.

Hoje, a empresa possui cerca de 3,4 mil clientes cadastrados, dos quais aproximadamente 1,4 mil realizam compras recorrentes. A meta para os próximos anos é praticamente triplicar essa base.

“Minha intenção é chegar a 10 mil clientes. Quero que um pequeno produtor no Ceará, por exemplo, já tenha ouvido falar da JPA e saiba que existe uma plataforma que ajuda ele a produzir”, afirmou.

A expansão nacional já começou. Atualmente, a companhia atua em 12 estados brasileiros e vem fortalecendo sua presença especialmente em cadeias ligadas à pecuária e nutrição animal.

Segundo Avelar, o modelo da empresa também se apoia em uma estrutura semelhante à dos agentes autônomos de investimento de companhias da Faria Lima. No caso da JPA, os “operadores autônomos” atuam oferecendo diferentes soluções para a carteira de produtores.

“Nosso operador não vende só crédito. Ele vende fertilizante, polpa cítrica, seguro, soluções financeiras. É um one-stop-shop para o produtor”, disse.

A estratégia acontece em um momento em que o mercado agro passa por transformação acelerada no crédito e nos serviços financeiros.

Além da expansão financeira, a empresa também desenvolve novas ferramentas digitais. Uma delas é um assistente virtual com inteligência artificial criado em parceria com a Universidade Federal de Lavras (UFLA), voltado para suporte técnico e orientação de compras no campo.

A ferramenta deve começar a ser disponibilizada aos clientes nos próximos meses. O próprio JPA Summit fez parte dessa estratégia de posicionamento da marca, onde Lavras, segundo Avelar, tem papel central nessa narrativa.

“Queremos posicionar Lavras como a capital do futuro do alimento. Aqui é o berço da UFLA, um dos grandes polos de conhecimento agrícola do País”, afirmou.

Resumo

  • JPA lança holding para integrar marketplace, crédito, seguros, securitização e serviços financeiros digitais
  • FIDC da empresa já tem R$ 10 milhões de patrimônio e meta é alcançar R$ 30 milhões até fim do ano
  • Companhia atua em 12 estados e quer saltar de 3,4 mil para 10 mil clientes cadastrados