Cascavel (PR) - As principais cooperativas de crédito do país estão apostando no relacionamento próximo com os produtores rurais para mitigar os efeitos da alta da inadimplência no crédito rural – que não chega a assustar, mas exige atenção por parte das instituições – e de juros ainda em nível elevado.
Essa é a principal mensagem que ficou das falas dos dirigentes de Sicredi, Sicoob e Cresol, que se manifestaram em diferentes momentos da Show Rural Coopavel, feira de máquinas e insumos agrícolas realizada ao longo desta semana, em Cascavel (PR).
No Sicoob, a expectativa é cumprir a meta de liberar R$ 60 bilhões em concessões de crédito no ano-safra 2025/2026.
Até o momento, segundo a cooperativa, cerca de R$ 40 bilhões já foram emprestados. Desse total, R$ 8,5 bilhões vieram de recursos do Pronamp, R$ 8 bilhões do Pronaf, e o restante foi distribuído a grandes produtores, com parte da linha subsidiada e parte de crédito livre.
Como em outras instituições, a inadimplência dos contratos avançou ao longo do período no Sicoob, passando de 0,48% para 1,65% nas linhas de crédito rural do atual ano-safra.
“A inadimplência aumentou bastante. Mas, avaliando a carteira, o ritmo de crescimento e os desafios que nós ultrapassamos ao longo dos últimos três anos, a gente considera a inadimplência ainda muito baixa”, disse o superintendente de desenvolvimento de agronegócios do Sicoob, Luciano Ribeiro.
Para Miguel Oliveira, presidente do Conselho de Administração do Centro Cooperativo Sicoob, o momento no campo combina bons níveis de produtividade com dificuldades financeiras dos produtores, o que exige cautela das cooperativas de crédito.
“Apesar da recuperação, ainda existe um cenário de baixa liquidez no bolso do produtor. Isso significa que a gente precisa ser comedido e atuar como um bom consultor financeiro, para que ele consiga honrar suas obrigações, em vez de pensar em crescer num momento em que pode estar apenas postergando uma dificuldade gerada no período difícil que nós atravessamos, principalmente no Sul”, afirmou.
Luciano Ribeiro ressaltou a importância da estratégia do Sicoob no momento atual. A cooperativa hoje possui a maior rede de postos de atendimento físicos do Brasil, com 4,6 mil pontos, em um momento que os grande bancos intensificam o fechamento de agências físicas e priorizam o desenvolvimento de atendimento via canais digitais.
“Parece até uma contradição: o mundo digital crescendo e o Sicoob com o maior números de agências físicas. Mas as comunidades ainda gostam do olho no olho. O produtor rural gosta de ser atendido por um gerente, gosta de conhecer o gerente, e essa proximidade é importante para gerar relacionamento”, afirma.
“Isso faz com que a gente tenha conhecimento da comunidade dentro da agência. É muito diferente de quando você roda no sistema digital, em que o produtor rural é um número.”
Na Cresol, a projeção é encerrar a safra com um volume entre R$ 17 bilhões e R$ 18 bilhões em crédito liberado, segundo o vice-presidente da Cresol Confederação, Adriano Michelon. Até agora, foram operacionalizados cerca de R$ 10 bilhões, sendo 70% em crédito subsidiado e 30% em linhas livres.
A inadimplência está oscilando entre 1,5% e 2% neste ano-safra, patamar acima da média histórica, mas que não chega a preocupar, segundo Michelon, diante de perspectivas mais favoráveis para 2026. “Precisamos estar perto dos produtores quando eles mais precisam. Está no nosso DNA”, afirmou.
Já no Sicredi, maior cooperativa de crédito do País, a meta para o ano-safra é liberar R$ 59,1 bilhões aos produtores rurais.
“E, pelo ritmo que a gente vem observando, estamos no caminho de conseguir bater esse volume total, mas o mix inicial esperado tem que ser diferente”, disse Gustavo Freitas, diretor executivo de negócios, crédito e produtos da instituição.
Até dezembro, o Sicredi havia liberado R$ 39,8 bilhões em crédito rural. Apesar dos desafios impostos pelo cenário macroeconômico, a cooperativa registra crescimento na maioria das linhas de crédito ao longo da safra.
“Temos tido um ano muito bom em termos de demanda de recursos. As demandas não foram tão acentuadas, por causa dos juros mais altos, mas a capacidade de atendimento tem sido muito promissora, os limites têm sido muito bons e também as soluções compradas”, afirmou Manfred Dasenbrock, presidente da Central Sicredi PR/SP/RJ.
O mix de recursos, no entanto, vem mudando, segundo Gustavo Freitas, diretor executivo de negócios, crédito e produtos do Sicredi.
“Acho que, nesse ano, esse mix deve mudar um pouco pelo que a gente tem visto, para 55% (de livres) e 45% (de subsidiados), ou 60% contra 40%. Essa é a lógica que a gente tem visto.”
A inadimplência da carteira de crédito agro do Sicredi está atualmente em 3,86%, nível acima do observado em anos anteriores.
“Se eu olho o nível de inadimplência, que é o volume de crédito em atraso com proporção da carteira total, tenho basicamente o dobro em três anos. Antes, eu rodava num patamar abaixo de 2%, com 1,8%, 1,7%, 1,6%”, recordou.
Para Freitas, esse movimento reflete também uma mudança estrutural no ambiente econômico.
“O que a gente tem observado, de forma geral, é que o nível de endividamento no Brasil, com o patamar de taxa de juros altos, cresceu como um todo, o que faz com que o patamar de inadimplência esteja diferente”, afirmou. “É um ‘novo normal’ para todos os setores da economia, pois a inadimplência até cai, mas não está voltando aos patamares do pós-pandemia”, completou.
Resumo
- Sicredi, Sicoob e Cresol reforçam estratégia “olho no olho” para sustentar o crédito rural em cenário de juros altos e menor liquidez no campo
- As cooperativas projetam liberar volumes robustos na safra 2025/26: R$ 60 bi (Sicoob), R$ 59,1 bi (Sicredi) e até R$ 18 bi (Cresol)
- A inadimplência subiu, mas é vista como administrável diante do relacionamento próximo e da orientação financeira ao produtor