A taxa de inadimplência no Brasil, em relação ao volume total de crédito que foi concedido para pessoas físicas e jurídicas, atingiu em dezembro de 2025 o maior patamar dos últimos 16 anos. E nos estados agrícolas a situação é ainda mais grave, reforçando preocupações para a safra 2026/2027.

O alerta é do economista Fábio Silveira, senior adviser da Volt Partners, que apontou uma perspectiva de piora na renda agrícola ao longo deste ano, em entrevista exclusiva ao AgFeed.

Ele lembrou que os dados do Banco Central mostram que a inadimplência no País chegou a 4,6% em dezembro do ano passado. O índice é 70% mais alto do que o registrado ao longo de 2020, ano da pandemia.

Se observado um gráfico histórico, referente aos meses de dezembro, desde 2007, é possível concluir que uma inadimplência tão elevada só havia sido registrada entre em outubro de 2009, quando chegou a 4,7%, em função da crise financeira mundial – desencadeada pela quebra do Lehman Brothers. Em média esta taxa no Brasil costuma oscilar entre 3% e 3,5%.

“Deve-se ficar em alerta porque no ano passado, apesar da significativa melhora da receita agrícola brasileira, em particular as principais culturas, soja, milho, cana, café, o índice de inadimplência de estados agrícolas bateu recorde”, ressaltou.

Pelos dados oficiais, a inadimplência em Mato Grosso do Sul, por exemplo, atingiu 5,6% em dezembro, portanto, 1 ponto percentual acima da média do Brasil. Em Mato Grosso, o índice ficou em 5,4% e no estado de Goiás foi ainda mais alto, com 5,8%.

Esses dados se referem ao crédito em geral e não apenas ao setor agropecuário, mas segundo Silveira, é o aperto financeiro dos produtores rurais que está contaminando toda a economia dos estados.

Números ainda podem piorar

Até 2025, o que mais preocupava era o patamar de preços de soja e milho, com margens apertadas. Agora, produtos como café e açúcar também vêm registrando queda nas cotações, o que pode estressar ainda mais o sistema financeiro, na visão de Fábio Silveira.

“Não há sinais de que esse nível de inadimplência vai baixar em 2026, fundamentalmente, por causa de uma queda de receita agrícola projetada para 2026. Até o café, que foi bastante dinâmico no ano passado, esse ano já vai ter uma evolução de receita menor”, disse.

No caso da soja e do milho, as análises recentes da consultoria indicam uma pior relação de troca para que produtor compre fertilizantes, por exemplo. Até o ano passado, seriam necessárias 21,9 sacas de 60kg de soja para comprar 1 tonelada de fertilizante. Em 2026, essa relação já está 22,7 sacas, segundo ele.

No milho o produtor também precisa, em média, de uma saca a mais, para comprar a mesma tonelada de fertilizante, de um ano pra cá.

“O ano começa com inadimplência recorde e com receita e rentabilidade se contraindo. Logo, se não houver sinalização oficial do que vai ser feito daqui para frente, podemos ter um segundo semestre bastante desafiador no que tange a capacidade de plantio, capacidade financeira e de evolução dos negócios”, afirmou.

Neste cenário, Fábio Silveira prevê que nos próximos meses as taxas de inadimplência ainda subam. Para dezembro de 2026, ele diz que não é possível afirmar que baterá novo recorde. De qualquer forma, acredita que dificilmente o índice baixará de 4%, em função do cenário adverso no agronegócio.

A receita agrícola deve cair 3% em 2026, nas previsões do consultor. O PIB do Brasil poderá crescer 1,7%, menos do que os 2,2% previstos para 2025.

Para o PIB da agropecuária, Fábio Silveira aposta em recuo mais acentuado. Depois de crescer 10% em 2025, o indicador avançaria apenas 2,2% este ano.

A necessidade de subsídios

Na visão do economista, que também é sócio diretor da MacroSector, os atuais indicadores econômicos seriam motivos suficientes para que o governo elevasse a oferta de crédito a juros subsidiados para os produtores rurais.

“A gente tem que perder essa vergonha de falar. Não pode dar subsídios? Tem que dar sim e dar mais, assim como fazem Estados Unidos e Europa, que são grandes produtores rurais”, defendeu ele.

Silveira afirma que os subsídios agrícolas nos EUA são 10 vezes maiores do que no Brasil, “sendo que a receita agrícola nos Estados Unidos não é dez vezes superior, é no máximo 30% maior”.

Questionado se os cofres públicos já não estariam esgotados para esse tipo de apoio ao produtor, o economista diz que os governos precisam entender a importância do agronegócio para segurar fatores cruciais para o País, como a própria taxa de câmbio.

“A exportação do agronegócio é que permite, de maneira relevante, manter uma taxa de câmbio razoavelmente equilibrada, já que a participação das exportações do agronegócio, somando soja, milho, cana-de-açúcar, café, são extremamente expressivas para a geração de um saldo comercial que é fundamental, um saldo comercial positivo”, destacou.

“Se nós tivermos um prejuízo acentuado desse fluxo de embarque de produtos agrícolas, aí sim a situação do País será muito mais grave do que se pode imaginar”.

Resumo

  • Inadimplência no Brasil atingiu 4,6% em dezembro de 2025, mas os índices são maiores nos estados agrícolas, segundo dados do Banco Central.
  • Economista Fábio Silveira alerta que a queda de preços de produtos como café e açúcar deve agravar cenário de menor rentabilidade, com chances de seguir elevando a inadimplência. Ele defende maior oferta de crédito com subsídio do governo.
  • Em Goiás, o índice de inadimplência - que considera crédito em geral, não apenas agro - foi superior à média do País, atingindo 5,8%,

Fábio Silveira, senior advisor da Volt Partners