Não-Me-Toque (RS) - A safra gaúcha de soja será menor do que o esperado e, apesar de uma produção maior em relação à safra passada, a produtividade abaixo da média histórica manteve os agricultores do estado em clima de muita cautela.

O cenário afeta principalmente as máquinas agrícolas, um investimento que pode ser adiado, mas entre os fabricantes de insumos nem tudo está perdido.

Em entrevista ao AgFeed, o diretor comercial da área de licenciamento da Corteva Agriscience, Christian Pflug, disse que, “surpreendentemente”, os agricultores que visitaram o estande da empresa na Expodireto Cotrijal até agora, sinalizam “uma demanda muito grande” por sementes.

A empresa é uma das maiores do mundo em agroquímicos, sementes e biotecnologia e vem apostando na soja transgênica Enlist como uma das soluções para lidar com a crescente presença de plantas daninhas nas lavouras brasileiras.

“Os produtores estão antecipando um pouco o que a gente tinha nos anos anteriores”, afirmou Pflug.

Segundo ele, normalmente nesta época do ano a pré-reserva de sementes da Corteva na região Sul, para a safra seguinte (a 25/26 está começando a ser colhida), estaria em torno de 5% da demanda esperada.

Desta vez, diz o executivo, cerca de 10% do volume estimado já estaria contratado. “Por enquanto é só uma intenção, mas a gente já vê a intenção maior do que tinha no ano passado”, ponderou.

Já em nível nacional, a empresa estima que cerca de 20% das sementes para o próximo ciclo tenham sido reservadas.

“Eles já querem identificar quais são as variedades que eles vão plantar e já começam a procurar quais são os parceiros, a distribuição, a cooperativa, os multiplicadores que vão comprar”.

O motivo para a antecipação seria um quadro cada vez mais grave em relação a presença de determinadas ervas daninhas como caruru, buva, entre outras.

A tecnologia Enlist da Corteva é resistente a três tipos de herbicidas - 2,4-D glifosato e glufosinato de amônio – por isso é ofertada como opção para que já enfrenta baixa eficácia em relação aos produtos tradicionais.

“A gente tem uma estimativa que deve ter crescido por volta de 4 milhões de hectares o problema das ervas daninhas (no Brasil) de um ano para o outro”, disse o diretor “Não é somente uma ameaça, é um problema real”.

Nesta quarta-feira, 11 de março, durante a feira de tecnologia agrícola, em Não-Me-Toque (RS), a Corteva reuniu jornalistas e apresentou palestras com pesquisadores e produtores rurais.

O tema principal foi o programa de Boas Práticas Agrícolas, que vem treinando aplicadores de herbicidas, especialmente no Rio Grande do Sul, para cumprir a atual legislação e reduzir o problema da deriva, quando o agroquímico acaba contaminando o meio ambiente ou culturas agrícolas vizinhas.

Pedro Basso, da Sementes com Vigor, de Vacaria (RS), foi um dos painelistas convidados. Em conversa com o AgFeed, ele confirmou que a preocupação está maior no Rio Grande do Sul com a ocorrência de plantas daninhas e que cada detalhe importa para tentar reduzir o problema. Ele alerta para cuidados em relação ao uso de tratamento de sementes e também ao período adequado de plantio de soja.

Como sementeiro, ele diz que os seus clientes realmente pensam em “reservar determinadas variedades”, com mais antecedência, especialmente aquelas recém lançadas.

“Mas eu considero venda quando eu recebo, o que ocorre é uma intenção, uma pré-reserva”, explicou.

Na safra 2025/2026, Basso espera uma produtividade 5% maior na soja, na comparação com a safra passada, quando atingiu uma média de 60 sacas por hectare. A Sementes com Vigor cultiva 4,5 mil hectares de soja.

A situação do produtor é bem melhor do que o resultado do estado como um todo. Dados da Agroconsult apresentados durante a Expodireto mostram que a produtividade média no RS deve ficar em 47 sc por hectare, abaixo da média histórica que fica acima de 50 sacas na região.

Em janeiro a consultoria chegou a estimar 52 sacas por hectare na atual temporada, mas acabou revisando os números em função da irregularidade das chuvas e da forte diferença entre uma região e outra.

Resumo

  • Produtores do Sul estão reservando sementes mais cedo, com pré-contratações já em cerca de 10% da demanda regional
  • Avanço de ervas daninhas como buva e caruru impulsiona busca por tecnologias resistentes, como a soja Enlist, da Corteva
  • Apesar da produtividade abaixo da média no RS, empresas de insumos ainda veem mercado aquecido para sementes