Cascavel (PR) - Mesmo sem conversarem entre si, executivos de diferentes empresas de insumos e de máquinas agrícolas transmitiram, ao longo desta semana, uma certeza compartilhada e uma expectativa em comum.

Em conversas individuais com o AgFeed durante o Show Rural Coopavel, evento que abre o calendário de feiras agropecuárias do país e que se encerra nesta sexta-feira, 13 de fevereiro, todos foram unânimes em pontuar que a restritividade de crédito, com a taxa Selic no nível mais alto dos 20 anos, atrapalhou os resultados das companhias e mercados nos quais atuam.

Já convivendo com dificuldades financeiras, muitos produtores ganharam mais um obstáculo com o alto custo das operações na hora de financiar a compra de defensivos e tratores para suas lavouras.

Mas, ao mesmo tempo, a sensação geral é de que o produtor continuou investindo de alguma forma, ao dar prioridade para o essencial no dia-a-dia do campo.

A expectativa comum é de que esse comportamento deve seguir em 2026, uma vez que as condições financeiras não devem se alterar significativamente e os preços ainda devem seguir pressionados por mais tempo.

Para Marcelo Batistela, vice-presidente para Agricultura da Basf, o momento atual de safra reúne sinais positivos no curto prazo, mas também desafios que tendem a se prolongar para o próximo ciclo.

“Estamos agora em uma fase bem interessante, finalizando a safra de verão, mas ainda dentro do ciclo agrícola 2025/2026, ao mesmo tempo em que já começamos a ter sensibilidade do próximo ciclo”, afirma.

Segundo Batistela, a safra de verão tem dado bons sinais e caminha para um resultado muito positivo em produtividade, com projeções entre 180 e 182 milhões de toneladas de soja. Esse desempenho, ressalta, é essencial para compensar a relação ainda desfavorável entre custos e preços das commodities.

Outro ponto destacado pelo executivo é a boa janela de plantio da segunda safra, tanto para o milho quanto para o algodão, o que reforça a necessidade de o produtor manter os investimentos para fechar o equilíbrio financeiro do ano.

Na avaliação de Batistela, a tendência é de que a safra 2026/2027 seja bastante semelhante ao ciclo atual. “Há a necessidade de achar um bom ponto, um bom equilíbrio entre investimento e receita, porque os preços ainda devem pressionar”, avalia.

“Outra situação muito parecida é liquidez e acesso a crédito, que está desafiando no setor todo, e eu acho que segue nos desafiando para o próximo ciclo.”

Como a Basf ainda está em período de silêncio, o executivo não revelou se a companhia apresentou queda de vendas no Brasil ao longo de 2025. “Queremos ter uma performance relativa ao mercado positiva”, despistou.

Globalmente, a área de soluções agrícolas apresentou queda de 5,4% nas vendas no terceiro trimestre de 2025, de acordo com o balanço mais recente divulgado pela companhia.

Ainda assim, Batistela ressalta que, mesmo em um ambiente mais difícil, os produtores não deixaram de apostar em tecnologia. “Nas coisas cruciais, que são alavancas de produtividade, o agricultor não deixou de investir”, afirma.

“O driver do agricultor é que, mesmo no desafio, é preciso produzir. E quanto mais ótimo for a relação produção-investimento, melhor. Vejo que teve otimizações pontuais maiores e também teve otimização em tudo quanto é coisa”, emenda.

Para Lucas Botelho, diretor comercial da companhia de insumos Ihara, o produtor faz questão de investir naquilo que considera inovador.

"Apesar de o ano ter sido difícil e desafiador, principalmente no que diz respeito ao cenário de crédito, o produtor vem avançando em novas áreas nas principais culturas. E, em paralelo a isso, também a gente vê um nível de adoção, também, de tecnologia mais forte do agricultor. Apesar de todos os desafios, nós temos notado isso quando a gente lança novos produtos”, avalia.

A empresa paulista teve um ano positivo, com alta de 10,9% no ano passado, chegando a US$ 817 milhões (R$ 4,2 bilhões) e parte do resultado se explica, na avaliação de Botelho, porque o produtor continuou investindo mesmo em um cenário desafiador.

“2025 foi um ano bastante desafiador para o setor de agroquímicos, mas, ainda assim, o mercado brasileiro cresceu cerca de 7%. A Ihara teve um cenário mais positivo, com crescimento acima do mercado, tanto em valor quanto em volume", afirma.

Entre os fabricantes de máquinas, houve crescimento no cômputo geral – com alta de 7,4%, segundo dados da Abimaq. Mas os produtores passaram a investir em determinados tipos de máquinas em detrimento de outros, na avaliação de grandes nomes do mercado.

Na Case IH, marca da CNH Industrial, Denny Perez, diretor comercial da empresa no Brasil, atenta para o fato de que, no mercado, houve queda de comercialização de colheitadeiras e tratores de alta potência em 2025, ainda que compensada por um melhor desempenho em tratores de menor potência. “A gente continuou investindo para trazer ao produtor aquilo que ele realmente precisa”, diz Perez.

Percepção semelhante tem Horácio Meza, diretor de vendas da John Deere no Brasil. Segundo ele, o cenário segue complexo em função da restritividade de crédito, mas alguns nichos continuam sustentando investimentos.

Assim como Denny Perez, da Case IH, Meza cita o segmento de tratores de menor potência, especialmente entre 50 e 100 cavalos, impulsionado por culturas como café e laranja.

“São setores que também estão muito mais abertos à adoção de tecnologia e estão vendo, na prática, ganhos financeiros”, afirma Meza.

Para 2026, o executivo evita cravar números e expectativa de crescimento, mas avalia que, mesmo em um ambiente que acredita que continuará desafiador, com os juros elevados pressionando a tomada de decisão no campo, os produtores continuam dispostos a seguir investindo.

“É um ano complexo, com taxas de juros altas, o que é um desafio para os agricultores. Mesmo assim, a filosofia é continuar investindo”, diz.

Já na Case IH, Denny Perez espera que o ano seja de estabilidade, com uma retomada maior em 2027, ancorada por uma melhora de mercado, com a expectativa de queda nos juros, e, principalmente, pelo avanço tecnológico, com uma lógica diferente de custo, baseada em eficiência e retorno.

“Um pulverizador novo talvez vai custar um pouco mais caro do que o produtor tem, só que ele vai performar e economizar muito mais proporcionalmente. Nisso, o produtor faz um payback de dois anos, e dependendo do quanto ele economizar de insumos, o payback cai para um ano”, avalia.

Resumo

  • Selic no maior nível em 20 anos restringiu o crédito em 2025, dificultando o financiamento de defensivos e máquinas no campo
  • Percepção geral da indústria é de que o produtor seguiu investindo, priorizando tecnologias e insumos considerados essenciais para garantir produtividade e equilíbrio econômico da safra
  • A avaliação é que esse comportamento deve se manter em 2026, já que cenário deve se manter com juros elevados, acesso limitado a crédito e preços pressionados