Cascavel (PR) - Quem passasse pelo estande da Stine no Show Rural Coopavel, feira que abriu o calendário do agronegócio no início de fevereiro, em Cascavel (PR), era imediatamente impactado por duas bandeiras hasteadas na fachada: a dos Estados Unidos e a do Brasil. Logo adiante, uma faixa reforçava a mensagem: “O Brasil agora é Stine”.
O tom ufanista do discurso, combinando os símbolos das duas nações, resume a nova estratégia da Stine no País. Após três anos de forte expansão no Cerrado, a empresa promoveu, no fim de 2025, uma reorganização interna para ganhar mais velocidade em sua operação e prepara agora uma ofensiva no Sul do País, com foco inicial na soja, para ganhar mais market share no mercado de sementes da oleaginosa.
Ao estilo americano, a estratégia da Stine é bastante objetiva e pragmática: repetir aqui a fórmula que a levou ao topo do mercado em seu país de origem. Nos Estados Unidos, oito em cada dez cultivares de soja plantadas utilizam genética desenvolvida pela empresa.
A Stine é um colosso do mundo da genética da soja. Fundada nos anos 1950, no Estado de Iowa, onde mantém sede até hoje, na cidade de Adel, a companhia afirma deter o maior banco privado de germoplasma do mundo, com mais de 900 patentes registradas, ativo que sustenta sua liderança e sua estratégia de expansão internacional.
"Agora, estamos trabalhando na 'invasão Stine', que é como a gente chama nosso conceito, associando nossa força, nosso know-how na genética e de mercado nos Estados Unidos ao nosso posicionamento no Brasil", explica Ricardo Ribeiro, que assumiu o cargo de country manager da companhia na virada de 2025 para 2026.
A estratégia de marca e a reorganização interna acontecem porque, apesar da forte presença no mercado americano, por aqui, a Stine ainda é uma novata no mercado local.
A empresa se estabeleceu há oito anos no Brasil e, desde então, vinha focando na venda de sementes de milho a produtores do Cerrado, de olho na potencial demanda pelo grão trazida pelas usinas de etanol que foram pipocando pelo Centro-Oeste – não à toa instalou sua sede em Lucas do Rio Verde (MT), um dos novos polos da bioenergia a partir de grãos e cereais.
Um primeiro passo para incrementar a presença no País já havia sido dado há três anos, explica Ribeiro, com a inserção das sementes de soja da Stine no mercado local e o aumento da força comercial, com a expansão de parcerias comerciais, multiplicadores e distribuidores para levar os produtos ao agricultor.
Um segundo passo nesse sentido foi dado no fim de 2025, quando surgiu a ideia de descentralizar a operação da Stine na América Latina. Na região, além do Brasil, a empresa possui presença em países como Argentina, Uruguai e Paraguai.
Antes, a operação brasileira estava vinculada ao negócio dos demais países da América Latina, comandados pelo argentino Ignacio Rosasco, CEO da companhia na região.
Mas, para alavancar a operação do Brasil, a companhia resolveu separar o negócio brasileiro de seus vizinhos latinoamericanos no fim do ano passado e designou Ricardo Ribeiro, que ocupava a liderança de marketing da empresa até o momento, para ser o country manager da Stine no Brasil.
"Algumas funções eram compartilhadas entre Brasil e Argentina, como finanças e áreas de pesquisa. Decidimos, então, dar foco em cada território para que ganhássemos mais velocidade nos processos", diz Ribeiro.
“A Argentina hoje tem uma liderança que acaba trabalhando com uma identidade, com foco em Argentina, Uruguai e Paraguai, e nós aqui estamos focados no negócio do Brasil”
Engenheiro agrônomo, profissional da área de vendas e marketing com três décadas no mercado e passagens por grandes companhias como Syngenta e Cargill, Ribeiro está na Stine desde 2023 e assume a operação com alguns objetivos ambiciosos no horizonte.
Um deles, mais para o curto prazo, é posicionar a Stine também na região Sul do Brasil.
Desde outubro do ano passado, variedades comerciais das sementes de soja têm sido apresentadas aos produtores de soja da região. Não à toa, para promover seus produtos aos agricultores locais, a Stine participou pela primeira vez do Show Rural Coopavel neste ano.
"Temos hoje 14 multiplicadores de sementes no Sul do Brasil que vão representar e multiplicar as nossas cultivares de soja e vamos acessar o mercado através deles", afirma.
Na soja, a Stine é proprietária não apenas do germoplasma mas também de variedades que usam as biotecnologias Enlist E3 e Conkesta E3, desenvolvidas em parceria com a Corteva Agriscience.
"Nossa fortaleza genética, know-how de pesquisa e tecnologia em soja faz com que a gente tenha muito mais força no negócio da soja", afirma.
No Brasil, a Stine começou a trabalhar com soja em Mato Grosso e no Cerrado em 2023. Hoje, suas sementes estão presentes também em outras regiões do país como no Matopiba e em áreas dos estados de Mato Grosso do Sul, São Paulo e Minas Gerais.
Mas a estratégia comercial teve alterações desde a chegada da companhia no Brasil.
Inicialmente, Ribeiro relata que houve a preferência por ampliar a rede de sementeiras, multiplicadores e produtores reunidos em um programa de benefícios chamado Clube Stine, inicialmente bastante restrito.
"A gente acabou entendendo, no decorrer dos anos, que um clube pequeno e exclusivo restringiria demais o acesso ao mercado e nos traria muita dificuldade", afirma Ribeiro.
O tamanho do Clube Stine foi, então, ampliado, passando de 8 para mais de 40 multiplicadores.
"Com esses 40 multiplicadores a gente consegue acessar o mercado de maneira bastante tranquila, sem criar canibalização entre eles, além de gerar engajamento para que as pessoas se sintam valorizadas e levem a marca ao agricultor", explica o executivo.
Entre os parceiros comerciais da Stine, estão sementeiras conhecidas do mercado como Agro-Sol, Atto Sementes, Oilema e Uniggel, além de cooperativas como a paranaense Coamo, a maior do Brasil, e a catarinense Copercampos.
Com isso, Ribeiro pretende cumprir um segundo objetivo proposto para os próximos anos: ser a segunda marca de sementes de soja do Brasil até 2030.
A missão não deve ser fácil, mas é possível, avalia Ribeiro. "Afinal, comercialmente, saímos praticamente do zero há três anos, de cerca de 3 a 4 mil sacos para uma participação de mercado de sementes de soja já próxima a 6% na safra 2026/2027", afirma.
"Como a gente ainda é muito pequeno, isso não impacta praticamente nada no mercado de sementes, é um percentual ainda pequeno, mas para nós, é muito relevante porque vemos uma perspectiva de crescimento”, complementa o executivo, que não revela dados de faturamento da empresa – familiar e de capital fechado – no país.
Por trás de toda essa estratégia, há um substantivo recorrente no discurso da empresa: foco, a mesma estratégia que o bilionário Harry Stine teve ao construir a companhia nos Estados Unidos.
"Foco é a nossa principal característica e a Stine só chegou à liderança de mercado nos Estados Unidos devido ao foco do Harry durante toda a sua carreira e trajetória da empresa", afirma.
Ribeiro lembra que, por mais que o mercado americano de sementes fosse dinâmico e permeado por aquisições de sementeiras locais por grandes grupos multinacionais, Harry nunca vendeu a Stine.
"Ele nunca acreditou nessa estratégia de vender. E o foco no negócio de soja, por anos e anos seguidos, sempre com qualidade genética e preocupado com o agricultor, nos levou a uma liderança de mercado nos Estados Unidos", diz. "Queremos repetir o mesmo aqui."
Resumo
- Após três anos de expansão no Cerrado, a Stine promoveu no fim de 2025 uma reorganização interna para ganhar agilidade e separou a operação brasileira da América Latina
- Companhia americana de sementes mira uma ofensiva no Sul do País, com foco inicial na soja, reforçando a estratégia de replicar no Brasil o modelo que a levou à liderança nos Estados Unidos
- O objetivo da companhia é estar entre as maiores empresas do mercado de sementes de soja até 2030