Seguindo a trilha de outras grandes fabricantes de máquinas agrícolas como John Deere e Stara, a paulista Jacto pretende embarcar, ainda neste ano, conexão de internet via satélite em seus equipamentos.
A informação foi antecipada com exclusividade por Carlos Daniel Haushahn, CEO da Jacto, em entrevista ao AgFeed.
"Começamos a estudar isso há alguns anos, estamos em processo final de validação e acreditamos que, ainda possivelmente neste ano, vamos ter um lançamento nessa linha", afirma Haushahn.
Questionado se a rede a ser embarcada será a Starlink, da SpaceX, do bilionário Elon Musk, adotada pelas concorrentes, Haushahn despistou. “A gente ainda não quer falar sobre isso, mas é uma novidade que a gente está vendo, de conectividade via satélite.”
O CEO adiantou, por outro lado, que a ideia da montadora paulista é oferecer uma solução mais personalizada aos produtores.
“Na nossa visão, vai ser mais customizada e mais atrativa ao produtor rural até do que esse processo que hoje existe”, diz Haushahn, ressaltando que outras soluções, como o modelo de redes privadas oferecido em parceria com a empresa gaúcha Virtueyes, continuarão existindo.
Em paralelo, a montadora também informou em primeira mão ao AgFeed que irá iniciar a comercialização de pulverizadores autônomos, ou seja, que não são conduzidos diretamente por operadores, na Agrishow, a maior feira de máquinas agrícolas do País, que será realizada em abril em Ribeirão Preto (SP).
“Já vínhamos mostrando ele na Agrishow há anos, mas como conceito. Agora é real”, afirma Haushahn.
O modelo que será comercializado é o Arbus 4000 JAV, sigla que significa Jacto Autonomous Vehicle. Este pulverizador é controlado de forma remota por um operador, que pode ficar a alguns metros de distância monitorando diferentes máquinas utilizando um tablet. Os equipamentos conseguem operar 24 horas por dia.
“Fizemos vários testes. No começo, achávamos que os tratoristas iriam saber operar bem, mas eles não estavam acostumados. Depois tentamos com caminhoneiros. Até que, finalmente, nos acertamos com operadores de drone”, conta Fábio Torres, gerente de negócios da Jacto Next, braço de inovação da companhia.
Depois de vários testes, nos últimos três anos e meio, a Jacto começou a oferecer a utilização do veículo autônomo no esquema de prestação de serviço, no qual o cliente contratava o uso do JAV e a operação ficava por conta da fabricante.
Mas, com os bons resultados e a validação dos testes no campo feitos com uma grande empresa do setor de citros, a Jacto percebeu que poderia “virar a chave”, como diz Haushahn.
“Esse produto chegou num ponto de grau de utilização que eles entenderam que poderiam comprar”, afirma o CEO. "Compraram 12 máquinas."
Empolgado, o CEO da Jacto passa a desfiar números para exemplificar as vantagens do produto.
"Um operador consegue controlar quatro equipamentos. Antes você precisava de quatro tratoristas e de quatro pessoas para encher o tanque do equipamento. De uma equipe de 16 pessoas, cai para uma equipe de cinco pessoas. É aí que o produto começa a se viabilizar economicamente", explica Haushahn.
Também na Agrishow a Jacto promete iniciar a comercialização de sua colhedora de cana, a Hover 500, que chegará para enfrentar as tradicionais concorrentes das multinacionais John Deere e Case IH nesse restrito mercado.
No plano, dobrar de tamanho
Os projetos de agricultura digital da Jacto fazem parte de uma estratégia maior da companhia que foi desenhada ao longo do ano passado para ser seguido até 2033.
O plano vem após um período de queda no faturamento registrada em 2024, quando recuou a R$ 2,3 bilhões, retração de 28% na comparação com o ano anterior.
Haushahn atribui a retração de faturamento à implementação da nova fábrica em Pompéia, que foi inaugurada no fim de 2023. Com quase 100 mil metros quadrados, a unidade fabrica 60 pulverizadores por dia.
A empresa não divulga o valor dos investimentos, estimados no mercado em mais de R$ 500 milhões. "Como o conceito de produção é totalmente diferente, tivemos dificuldades", admite.
Superadas as dificuldades, Haushahn diz que a intenção da companhia é de dobrar o faturamento ao longo dos próximos sete anos.
No ano passado, o faturamento da Jacto Máquinas Agrícolas foi de R$ 3,7 bilhões, alta de 60,8% na comparação com 2024.
“A gente voltou de novo a um patamar normal de faturamento e de lucratividade. Conseguimos retomar todo o processo produtivo e colocar em prática várias dessas tecnologias que investimos bastante”, afirma.
A tendência, segundo Haushahn, é que a receita de 2026 siga em nível semelhante, ainda que com viés de alta.
"Fizemos um orçamento conservador, de manutenção dos números, mas confesso que estamos um pouco mais confiantes agora porque a safra tem sido melhor e, se os juros melhorarem um pouco, talvez o apetite do consumidor seja maior."
Seguindo o plano, alterações na estrutura da companhia já vem sendo feitas, atingindo diferentes áreas.
"Fizemos uma mudança grande em engenharia, onde criamos uma nova forma de trabalhar com a nossa engenharia. Trabalhamos com muitas alterações dentro da área comercial, onde redefinimos áreas de atuação, pessoas e o foco", afirma.
"E também fizemos alterações na área de marketing, bastante profundas, que visam nos aproximar muito mais do desejo e do anseio do consumidor."
Ainda dentro de sua estratégia, a Jacto não descarta fazer novas aquisições no futuro. No ano passado, a companhia paulista adquiriu uma empresa alemã, a Solo, que produzia pulverizadores manuais, motorizados e movidos a bateria, além de sopradores e máquinas de corte.
Com a compra, a Jacto passou a ter cerca de 35% do mercado global de pulverização portátil, estima Haushahn
“A Jacto tinha, historicamente, cerca de 20% do mercado global. E essa empresa uns 15% mais ou menos do mercado global. Com isso, já temos cerca de 35%”, afirma.
O CEO avalia que novas aquisições no futuro são relevantes para fazer o plano de crescimento rodar. “Tem coisas que a gente não vai conseguir atingir organicamente. Por isso, está no nosso planejamento trabalhar o assunto aquisições”, diz.
Assim, a filosofia do fundador, Shunji Nishimura, continua sendo seguida. Afinal, ele dizia que “ninguém cresce sozinho”. E a ideia de Haushahn é justamente deixar claro ao mercado que os valores da família Nishimura continuarão dando as cartas no futuro.
"Não queremos abrir mão de nada das culturas e valores, queremos reforçar eles e trazer cada vez mais para o nosso colaborador e para o nosso consumidor também a garantia de que a gente vai manter esses valores", diz o CEO.
Resumo
- A Jacto pretende embarcar internet via satélite em seus equipamentos ainda em 2026, seguindo movimentos de concorrentes como John Deere e Stara
- A companhia também lançará na Agrishow a venda do pulverizador autônomo Arbus 4000 JAV, capaz de operar 24 horas por dia com controle remoto e forte redução de mão de obra.
- Após superar dificuldades e retomar faturamento (R$ 3,7 bilhões em 2025), a Jacto planeja dobrar de tamanho em sete anos, com reorganização interna, foco em agricultura digital e aquisições