A Fortgreen está prestes a cruzar uma marca que, até poucos anos atrás, parecia distante: a empresa de tecnologias para nutrição vegetal e agricultura deve superar, pela primeira vez, R$ 1 bilhão de faturamento na safra 2026/2027.

O movimento acontece justamente quando o crédito mais restrito, os juros elevados e a deterioração financeira de parte dos produtores e distribuidores fazem empresas do agro reduzirem exposição e colocarem investimentos em compasso de espera.

"Por que a Fortgreen está indo bem quando muitas outras empresas estão indo mal? Qual o segredo? Essas são perguntas que me fazem várias vezes e eu acho que não têm uma só resposta, têm alguns elementos", disse Leonardo Pereira, CEO da empresa em conversa com o AgFeed durante o Congresso Andav 2026.

Segundo ele, a expectativa é de que o ano-safra 2026/2027, iniciado neste mês de agosto e que se encerrará em julho de 2027, seja melhor para a Fortgreen do que o ciclo anterior. A carteira de vendas já apresenta desempenho superior ao registrado no mesmo período de 2025/2026 e ganhou força a partir de meados de julho, acompanhando uma melhora no mercado de commodities, contou Pereira

Márcio Lins, CFO Latam da Origin Enterprises, grupo irlandês que controla a Fortgreen, citou que quando as empresas juntaram forças, em 2018, o faturamento da empresa era de pouco mais de R$ 170 milhões e que, depois de "beirar o primeiro bi no ano recém-encerrado", deve entrar no clube bilionário de vez agora, crescendo cerca de 10% nas receitas.

Dentre as explicações para crescer, os executivos destacaram a forma como a empresa chega ao produtor. Hoje, cerca de 70% das vendas passam por parceiros, enquanto os outros 30% são realizados diretamente.

Essa característica ajuda a explicar por que a companhia ainda não percebeu com a mesma intensidade o atraso na compra de insumos que atingiu algumas regiões do País, tema recorrente durante as conversas com executivos das principais empresas de insumos presentes no evento.

O distribuidor e a cooperativa, na avaliação de Pereira, costumam se antecipar à demanda do produtor e formar estoques antes do início da safra.

“Quando você vai para a distribuição e cooperativa, pode ser que a gente não sinta tanto o atraso quanto uma empresa que faz venda direta, porque a revenda, o distribuidor, a cooperativa compram antes para depois vender. Então ela se programa um pouco melhor que o produtor”, afirmou.

A diferença nesse mix varia por região. No Mato Grosso, por exemplo, onde há maior concentração de grandes produtores, a venda direta tem peso maior. Em outras áreas, a distribuição chega a responder por 95% das vendas da Fortgreen.

O principal mercado da companhia continua sendo o de soja e milho, que responde por aproximadamente 70% das vendas. O restante está pulverizado entre culturas como café, citros e hortifrúti. Geograficamente, a empresa afirma estar presente em praticamente todos os Estados agrícolas do País, com maior força no Sudeste, Centro-Oeste e Sul.

Outro aspecto é a expansão da estrutura física. A Fortgreen hoje possui unidades de produção de nutrição vegetal, adjuvantes e fertilizantes de liberação controlada (CRF) em Maringá e Paiçandu, no Paraná, além de uma unidade de biológicos em Paiçandu e outra fábrica em Varginha, em Minas Gerais.

A estrutura logística inclui quatro centros de distribuição, em Cuiabá (MT), Luís Eduardo Magalhães (BA), Varginha e Maringá. A companhia também planeja abrir mais dois CDs no Centro-Oeste e no Norte do País nos próximos anos, aproximando a operação das principais regiões produtoras, revelaram os executivos. “Ficar mais próximo da produção, logisticamente, também ajuda bastante”, afirmou Pereira.

A expansão faz parte de um movimento mais amplo de investimentos. No fim de 2025, a Fortgreen anunciou um que aportaria R$ 200 milhões até 2030, contemplando infraestrutura, aquisição de terrenos, logística e pesquisa e desenvolvimento. Entre os projetos está um novo Centro de Inovação e Desenvolvimento de Produtos e Tecnologias em Paiçandu, que deverá reunir laboratórios e áreas para testes de novas soluções.

A companhia também vem ampliando o portfólio. Além de nutrição vegetal e adjuvantes, que são plataformas tradicionais do negócio, a Fortgreen avançou em e biológicos. Esse mercado ainda é incipiente no faturamento - representa entre 6% e 7% da receita - mas é vista pelos executivos como uma das frentes com maior espaço para crescer.

Um ponto reforçado pelos executivos é que a Fortgreen não está disposta a perseguir o primeiro bilhão a qualquer custo. Diante de um mercado em que a restrição financeira aumentou a pressão sobre margens e elevou o risco de crédito, a companhia diz que prefere preservar a rentabilidade mesmo que isso limite o crescimento das receitas.

“Nós não estamos pouco preocupados em fazer faturamento. O nosso negócio é saúde financeira do negócio. Se for para vender R$ 900 milhões para o melhor resultado, melhor obter R$ 900 milhões do que vender R$ 1 bilhão”, afirmou Pereira. "Cash is king", completou Márcio Lins.

A expressão usada pelo CFO resume uma preocupação que vai além da margem dos produtos diante do mercado de crédito mais caro e seletivo. Na lógica de Lins, ter caixa e capacidade de financiamento virou uma vantagem competitiva.

Esse cuidado também aparece na forma como a companhia estrutura o financiamento das próprias vendas. Segundo Lins, a principal linha continua sendo o financiamento direto aos clientes. A Fortgreen também utiliza cessão de crédito, que hoje representa cerca de 10% das vendas, e avalia ampliar o uso de ferramentas financeiras no futuro.

A companhia não possui hoje um FIDC, por exemplo, mas considera estruturar um mais adiante. O custo de uma operação desse tipo, porém, ainda é considerado elevado nas condições atuais. Hoje, para financiar suas operações, a Fortgreen também recorre a linhas bancárias.

A empresa é controlada desde 2023 pela Origin Enterprises, que adquiriu inicialmente 65% da companhia brasileira em 2018 por 49 milhões de euros (aproximadamente R$ 218 milhões na época). Segundo os executivos, a estrutura global dá à operação brasileira uma alternativa adicional de capital caso seja necessário financiar investimentos, embora a preferência seja por captar no mercado local.

Lins acrescenta que, em determinadas situações, a companhia pode avaliar uma captação internacional, mas a decisão depende da comparação entre os custos no Brasil e no exterior. “Lá fora tem 'euro mais 4%', e aqui falamos de 15% a 20%”, afirmou.

A Fortgreen afirma ter reforçado os mecanismos de controle de crédito justamente para atravessar esse ambiente. A empresa mantém comitês de crédito e passou a atuar de forma mais próxima dos clientes, com equipes comerciais e de crédito fazendo visitas conjuntas.

“Hoje, o mercado está complicado, todo mundo tem alguma coisa de passivos que ficaram no mercado”, afirmou Pereira. Segundo ele, a companhia conseguiu atravessar o período de maior estresse financeiro "relativamente bem", e mantém uma postura conservadora diante da possibilidade de novos problemas surgirem entre clientes.

Esse cuidado com o crédito também ajuda a explicar por que a empresa vê a queda dos juros como um dos principais fatores capazes de melhorar o ambiente de negócios na safra 2026/2027. Para Pereira, a redução das taxas poderia devolver alguma “folga financeira” a distribuidores e produtores que dependem de recursos de terceiros para comprar insumos.

“O Plano Safra sozinho não adianta, não serve a todo mundo. Ajudaria muito se os juros voltassem a cair e isso impactasse também no valor da captação para o mercado como um todo”, afirmou.

Resumo

  • Fortgreen projeta superar R$ 1 bilhão em faturamento na safra 2026/27, após receita crescer quase seis vezes desde 2018
  • Empresa mantém postura conservadora no crédito, com financiamento direto aos clientes, cessão de recebíveis e comitês de crédito
  • Fortgreen amplia atuação em biológicos, que já representam de 6% a 7% do faturamento, e mantém planos de expansão regional