Era maio de 2024 quando o Rio Grande do Sul vivia uma das maiores tragédias climáticas de sua história. As imagens de cidades inundadas se espalhavam pelo País, milhares de pessoas precisaram deixar suas casas e até o aeroporto internacional Salgado Filho, em Porto Alegre, aparecia completamente debaixo d'água no noticiário.

Naquele momento, um grupo de produtores rurais, engenheiros e empresários do sul gaúcho se mobilizou para fazer algo que conhecia bem: lidar com água.

Acostumados a conviver diariamente com sistemas de irrigação e drenagem nas lavouras de arroz, eles organizaram uma força-tarefa improvisada. Primeiro, ajudaram na construção de barreiras de contenção em Pelotas, utilizando sacos e big bags preenchidos com areia. Depois, foram chamados para uma missão ainda mais simbólica.

Bombas de drenagem utilizadas rotineiramente nas áreas arrozeiras da região foram levadas para Porto Alegre para retirar a água que havia tomado o Salgado Filho. A operação ficou conhecida como Projeto Drenar.

Para Lauro Ribeiro, produtor rural que participou da inciativa, a experiência deixou uma inquietação. Se o setor agropecuário havia sido capaz de se mobilizar tão rapidamente diante de uma emergência histórica, por que não conseguia fazer o mesmo em tempos de normalidade para enfrentar problemas crônicos de desenvolvimento da própria região?

A pergunta deu origem a uma ideia mais ambiciosa, que agora começa a dar seus primeiros passos no mundo real: a Cidade do Agro.

O projeto pretende criar, no município de Capão do Leão (RS), próxima a Pelotas, um novo ecossistema voltado a conectar agronegócio, pesquisa, inovação, educação, negócios e desenvolvimento regional.

A proposta é construir uma plataforma permanente de desenvolvimento para a metade sul do Rio Grande do Sul, região que historicamente concentrou sua economia na pecuária e no arroz irrigado e que, apesar dos avanços recentes em culturas como soja e milho, ainda apresenta menor nível de diversificação e tecnificação em comparação com outras áreas do Estado.

"A filosofia começou ali: se conseguimos nos mobilizar tão rápido para enfrentar uma tragédia, por que não fazer algo permanente e deixar um legado para a região?", disse Tuíra Barcellos, engenheira agrônoma e uma das integrantes da equipe responsável por tirar o projeto do papel, ao AgFeed.

Hoje, uma equipe multidisciplinar atua na elaboração do projeto. Segundo explicou a engenheira, a ideia é criar um ambiente que aproxime produtores, empresas, universidades, instituições de pesquisa, entidades setoriais e lideranças públicas e privadas.

"O agro normalmente conversa com o próprio agro. Queremos furar essa bolha e criar um espaço que também dialogue com a cidade", disse Barcellos.

Até agora, a iniciativa já conta com parceiros de diversos portes. Desde gigantes e multinacionais como 3tentos, Corteva e Nutriplant, passando por empresas regionais, como Sementes Simão, Fronteira Agro, Real Agro e Agrofel, e instituições como Sebrae, Emater/RS, IRGA, Federarroz e a Universidade Federal de Pelotas.

A Cidade do Agro foi desenhada como uma estrutura de dupla camada, em que convivem uma entidade sem fins lucrativos e uma operação comercial responsável por viabilizar financeiramente o funcionamento do complexo.

No primeiro lado está o Instituto Cidade do Agro, que nasce com a missão de sustentar a espinha dorsal institucional do projeto.

Do outro lado, a engrenagem econômica do projeto será responsável por gerar receita a partir da ocupação e do uso do espaço. Isso inclui a comercialização de terrenos dentro do complexo industrial e logístico, a locação de escritórios e estruturas fixas para empresas, além da operação de parcelas demonstrativas e ambientes de relacionamento entre companhias do setor.

Na prática, a intenção é manter o instituto sustentado por uma operação que transforma o ecossistema em atividade permanente e não apenas em um projeto dependente de eventos pontuais.

“A Cidade do Agro pretende ser uma plataforma de desenvolvimento permanente, reunindo educação, pesquisa aplicada, inovação, relacionamento empresarial e atração de investimentos, mais do que um espaço físico para eventos”, disse Tuíra Barcellos.

A ideia de permanência é um dos pontos centrais do projeto. Em uma região acostumada a receber feiras, dias de campo e eventos setoriais ao longo do ano, a proposta é inverter a lógica e criar um ambiente contínuo de interação entre produtores, empresas e instituições.

Nesse desenho, as chamadas unidades demonstrativas terão papel relevante. Em vez de estruturas temporárias montadas para exposições, a Cidade do Agro projeta que sejam utilizadas áreas fixas de testes e experimentação, onde empresas poderão desenvolver, ao longo do tempo, protocolos agrícolas, validar tecnologias e acompanhar resultados em condições reais de campo.

A proximidade com o ambiente acadêmico também é vista como um dos pilares para tentar reduzir um gargalo histórico da metade sul do Rio Grande do Sul: a dificuldade de reter talentos e transformar conhecimento em atividade econômica local, contou Barcellos.

“O objetivo é criar um ambiente em que o conhecimento não fique só na universidade ou só na lavoura, mas circule entre os dois e gere desenvolvimento real na região”, afirmou.

Outro eixo estruturante será o complexo industrial e logístico, que prevê a venda e ocupação de terrenos por empresas interessadas em se instalar dentro do ecossistema. A ideia é que parte da infraestrutura seja ocupada por indústrias ligadas ao agronegócio, armazenagem, processamento e serviços, criando um polo integrado à produção agrícola local.

Além disso, o projeto prevê a criação de um ambiente de relacionamento empresarial, com espaços fixos para empresas que desejem manter presença contínua no complexo. A proposta é que esses espaços funcionem como escritórios de operação, pontos de encontro e áreas de demonstração tecnológica.

“Hoje, o agro já faz muito dia de campo e muitos eventos, mas tudo é muito disperso e temporário. A ideia aqui é ter um lugar fixo, vivo o ano inteiro, onde isso tudo aconteça de forma estruturada”, diz Tuíra.

Outra ideia da Cidade do Agro é criar um ambiente de incubação de produtores, com foco inicial em hortifruticultura.

Barcellos explicou que a proposta surgiu a partir da disponibilidade de áreas dentro do complexo e da percepção de que esse tipo de produção enfrenta barreiras mais altas de entrada, especialmente no acesso a capital, estrutura e escala de comercialização.

Os produtores utilizarão essas instalações dentro da Cidade do Agro para desenvolver suas atividades em um modelo compartilhado, com suporte técnico e integração à estrutura do instituto, e posteriormente acessar canais de comercialização de forma conjunta.

Dentro desse ambiente também está prevista a criação de uma estação de pesquisa agropecuária, que deverá funcionar como base para desenvolvimento de estudos aplicados em diferentes culturas. A partir dela, a expectativa é aproximar ainda mais empresas de tecnologia agrícola e produtores em busca de soluções para produtividade e eficiência.

Do lado do Instituto, a ideia é receber estudantes, promover visitas técnicas e funcionar como espaço de treinamento para mão de obra ligada ao agronegócio.

A ideia, segundo Tuíra Barcellos, é estruturar essa parte do projeto de forma que ele consiga acessar diferentes frentes de fomento, sem depender exclusivamente da operação comercial da Cidade do Agro.

A apresentação pública está prevista para 9 de julho, quando o grupo pretende reunir apoiadores, lideranças empresariais, instituições e representantes do setor para consolidar a entrada do projeto em sua fase operacional.

Resumo

  • Projeto nasce após enchentes no RS e cria hub permanente de agro, inovação e educação em Capão do Leão (RS)
  • Cidade do Agro integra instituto sem fins lucrativos com operação comercial no mesmo ecossistema
  • Estrutura reúne empresas, universidades e produtores para pesquisa, incubação e desenvolvimento regional contínuo na parte sul do estado