Em um momento em que multinacionais de fertilizantes revisam investimentos, congelam operações e até buscam compradores para algumas unidades, uma empresa de origem brasileira e capital australiano decidiu seguir na direção oposta.

Após mais de uma década dedicada à pesquisa mineral, licenciamento ambiental e desenvolvimento de produto, a Águia Fertilizantes iniciou a operação de sua mina de fosfato no Rio Grande do Sul e projeta superar R$ 350 milhões em investimentos até 2028.

Controlada pela australiana Aguia Resources, listada na Bolsa de Sydney, a empresa iniciou recentemente a operação de sua mina de fosfato em Lavras do Sul (RS) e prepara uma expansão que poderá elevar sua capacidade produtiva para até 450 mil toneladas anuais nos próximos anos.

“Estamos entregando previsibilidade de preço e disponibilidade de produto em um momento em que existe preocupação crescente com o abastecimento de fertilizantes no Brasil”, afirmou Diego Boeira, gerente-geral da Águia Fertilizantes no Brasil, em entrevista ao AgFeed.

A companhia recebeu a licença de operação em maio e iniciou a lavra poucos dias depois. Até agora, a empresa já investiu aproximadamente R$ 230 milhões no projeto e a expectativa é desembolsar outros R$ 80 milhões na construção de uma nova planta industrial ao lado da mina, além de uma quantia entre R$ 10 milhões a R$ 20 milhões em licenciamento e desenvolvimento de novas áreas.

“A gente deve superar os R$ 350 milhões provavelmente até 2028 no Rio Grande do Sul”, afirmou Boeira, considerando desde o primeiro real investido há mais de 10 anos.

A história da companhia no Estado começou há mais de uma década. Fundada em 2008, a Águia iniciou pesquisas minerais na região em 2011 após identificar uma ocorrência de rocha rica em fósforo em uma área originalmente perfurada em busca de ouro.

“Uma empresa anterior havia declarado a área como negativa para ouro, mas registrou a presença de rochas com alto teor de fósforo. Esse era nosso interesse. Conseguimos os direitos minerários e iniciamos a pesquisa ambiental. Em 2015 incubamos o depósito”, relembrou.

Os estudos da empresa calculam cerca de 105 milhões de toneladas entre "rocha dura" (99 milhões de toneladas) e saprólito. No mesmo ano, iniciou o processo de licenciamento ambiental. A licença de instalação veio apenas em 2022. As obras foram concluídas no final de 2025 e a autorização para operação foi emitida há poucas semanas.

Nos primeiros anos, a empresa pretende explorar exclusivamente a camada superficial de aproximadamente 6 milhões de toneladas de material, suficiente para sustentar a operação por cerca de 18 anos.

Enquanto o primeiro - rocha dura ou rocha fosfática - fica em camadas mais profundas, intactas e por isso mais resistentes, a segunda - saprólito - é mais "macia" e sua extração dispensa explosivos.

“Nossa estratégia de curto e médio prazo é comercializar o fosfato natural. O restante do depósito poderá ser utilizado para concentração do fósforo para supersimples", explicou.

Para acelerar a entrada no mercado, a Águia optou por alugar, durante 20 anos, uma fábrica de fertilizantes granulares da Dagoberto Barcelos, localizada em Caçapava do Sul, também no Rio Grande do Sul, e a cerca de 100 quilômetros da mina.

A unidade possui capacidade entre 120 mil e 150 mil toneladas anuais e será responsável pela produção inicial do Pampafos - nome comercial do fosfato natural que será extraído na mina Três Estradas, em Lavras do Sul (RS) e comercializado pela empresa.

De acordo com Boeira, a ideia é já em 2026 produzir aproximadamente 70 mil toneladas do produto. A partir de 2027, a companhia pretende iniciar a construção de uma nova planta industrial junto à mina de Três Estradas.

A unidade terá capacidade de 300 mil toneladas por ano e elevará a produção para até 450 mil toneladas anuais a partir de 2028.

A decisão de manter duas estruturas produtivas faz parte da estratégia da empresa para aproveitar um outro depósito mineral de rocha fosfática próximo de Caçapava do Sul.

"Ainda não encerrou nossa pesquisa por lá, mas pelo que percebemos até agora, o potencial já justifica iniciar um licenciamento ambiental", pontuou. Segundo Boeira, esse outro depósito apresenta vida útil estimada em cerca de 15 anos.

Fora essas duas minas, o gerente geral cita que ainda existem outras quatro unidades já identificadas e que também devem passar por um processo de pesquisa.

O "fosfato dos Pampas"

O produto que está chegando agora ao mercado sob a marca Pampafos será destinado principalmente às culturas de soja, milho, arroz, trigo e pastagens - cultivos que foram alvos de testes agronômicos que se iniciaram em 2019.

"Vamos para sete anos de testes com excelentes resultados. Em relação ao extraído no depósito de Caçapava, os testes começaram em 2024, e está indo para o terceiro ciclo com culturas de inverno - aveia, azevém e trigo, e verão: soja, arroz e milho", disse.

A estratégia comercial inicial foi estruturada em torno de uma campanha de vendas antecipadas. Como a operação ainda está em fase de ramp-up industrial, a empresa decidiu disponibilizar apenas os volumes que consegue garantir até o final deste ano, oferecendo descontos progressivos para produtores dispostos a realizar compras antecipadas.

Segundo Boeira, o objetivo é premiar os primeiros clientes da operação enquanto a companhia ajusta os processos industriais e consolida sua cadeia logística.

“Estamos iniciando a operação agora. É diferente de uma empresa que já possui estoque regulador consolidado. Preferimos crescer de forma controlada e garantir aquilo que estamos vendendo.” Além do Rio Grande do Sul, a companhia já recebe consultas de distribuidores e produtores de Santa Catarina e Paraná.

A companhia também iniciou o processo de regulamentação para vender o produto no Uruguai, mas Boeira ressalta que o "foco imediato é o Rio Grande do Sul". "É um mercado gigantesco e um dos maiores consumidores de fertilizantes do Brasil".

Apesar de atuar formalmente como mineradora, Boeira afirma que a empresa hoje se enxerga muito mais próxima do agronegócio do que da mineração tradicional.

“Tudo que gira ao nosso redor é agro. Nossos clientes são produtores rurais, cooperativas, distribuidores e revendas. Nós extraímos uma rocha, mas quem define nosso sucesso é o agricultor".

A estrutura societária da empresa também reflete uma combinação pouco comum. Embora tenha sido criada por brasileiros, a Águia precisou buscar financiamento no exterior para desenvolver seus projetos minerais. Segundo Boeira, a ausência de capital específico para novas incursões no setor no Brasil tornou inevitável a busca por investidores internacionais.

“Quando você fala de pesquisa mineral, o capital de risco praticamente está concentrado em dois lugares: Toronto, no Canadá, e Sydney, na Austrália".

Boeira, que hoje toca a operação brasileira, acompanha o projeto desde a fase de licenciamento ambiental. Ele atuou por anos atuando como consultor e participou da coordenação dos estudos que permitiram a implantação do empreendimento.

Em 2015, quando trabalhava para a consultoria canadense Golder Associates, foi chamado para liderar os estudos ambientais do projeto e acabou migrando para a empresa após se envolver diretamente no desenvolvimento da operação.

Atualmente, o conselho diretor é composto majoritariamente por executivos australianos, enquanto a operação brasileira é conduzida localmente.

Além do fosfato no Brasil, a empresa possui ativos de ouro, prata e cobre na Colômbia, alguns deles em fase avançada de desenvolvimento.

Segundo a companhia, a diversificação geográfica e mineral tem permitido financiar o avanço simultâneo dos projetos. Enquanto a operação brasileira está concentrada em fertilizantes fosfatados voltados ao agronegócio, os ativos colombianos estão direcionados principalmente à produção de metais preciosos. Também há a intenção de explorar cobre no Brasil.

Resumo

  • Águia Fertilizantes inicia operação de mina de fosfato no RS e projeta superar R$ 350 milhões em investimentos até 2028
  • Empresa quer elevar produção para 450 mil toneladas anuais e aposta em fosfato natural para soja, milho e pastagens
  • Controlada pela australiana Aguia Resources, companhia mira avanço em meio a preocupações com oferta de fertilizantes