O recorde na colheita da soja já não é mais motivo para sorrir. Diante de um cenário de guerra no Oriente Médio que se soma a um mercado de crédito escasso e um excesso da oleaginosa no mercado, a margem do sojicultor deve ficar ainda menor na temporada 2026/2027, que se iniciará em julho deste ano.
A perspectiva é de André Pessoa, sócio da Agroconsult, que conversou com jornalistas em uma coletiva para apresentar os resultados da colheita da soja na safra atual após finalizar a primeira etapa do Rally da Safra.
A lógica apresentada pelo consultor foi a seguinte: assumindo um clima na normalidade e um cenário confortável de estoques e oferta e sem contar o conflito, os preços não devem ser muito melhores do que os atuais.
Acrescentando o conflito na equação, com custos subindo nos fertilizantes, combustíveis, fretes internacionais, a margem vai se estreitando.
“Esse ano tivemos uma produtividade muito boa, mas ela não compensa o que temos de aumento de custo de capital e restrição de crédito”, disse.
Sem entrar no detalhe, Pessoa citou que a margem do sojicultor na safra 2025/2026 está, na média, próxima do breakeven, ou seja, consegue pagar a conta e terá uma sobra marginal.
Ele aponta, porém, que a situação muda de estado para estado e de produtor para produtor. Produtores mais alavancados e com mais arrendamento no mix de terras provavelmente apresentarão margens negativas ao final da temporada atual, já que precisam pagar, além do arrendamento, uma dívida com custo mais alto.
Para além do produtor que tem esse mix mais equilibrado, aquele menos alavancado e mais conservador em relação a grandes investimentos, os resultados são positivos, estimou Pessoa.
“É geralmente o produtor que produz acima da média geral. Esse caso é o candidato a pegar a área de arrendamento devolvida pelo primeiro. A agricultura muda de mão”, prosseguiu.
A área de soja na próxima safra deverá, na visão de Pessoa, mostrar uma estabilidade frente ao visto atualmente por conta desse cenário macroeconômico.
Isso considerando uma guerra “rápida” com o cenário de restrição de crédito próximo do atual. “0,5% para cima ou para baixo na soja”.
A Agroconsult estimou que a safra 2025/2026 da soja se encerrou com 49,1 milhões de hectares plantados, cerca de 300 mil hectares acima da projeção inicial da consultoria e cerca de 1 milhão de hectares superior ao visto na safra anterior.
Porém, se alguma das variáveis mudar, a quantidade de hectares dedicados à oleaginosa também pode ser diferente. Se a guerra se estender ou se o cenário de crédito piorar, pode haver uma redução no uso de tecnologias por parte do produtor e, consequentemente, uma redução de área.
O pior cenário seria uma guerra longa mais essa restrição severa de crédito. “Aí podemos ter um problema de falta de recurso, redução de tecnologia e redução ainda maior de área”, acrescentou Pessoa.
“Uma guerra resolvida em abril pode ser chamada de ‘rápida’, mas ainda há incertezas se ela vai se estender por mais meses. Quanto mais demorado, mais complica infraestrutura, abastecimento, logística e fica mais longa a curva de recuperação para uma normalidade, ou para um funcionamento pré-conflito”, concluiu.
O recorde na soja
Da área total da safra atual, a região Centro-Oeste avançou 504 mil hectares e foi a maior responsável pela alta, enquanto que a região Sul foi a única que teve recuo na área cultivada com a soja, com menos 70 mil hectares.
André Debastiani, sócio da Agroconsult, estimou que o Rio Grande do Sul foi o grande fator pressionador na região, com 100 mil hectares a menos.
Debastiani apontou problemas climáticos, endividamento dos produtores e dificuldade de crédito como fatores determinantes para essa redução por lá.
O analista ainda considerou o aspecto climático como desafiador, mas à medida que as chuvas se regularizaram em outubro, o clima entre dezembro e janeiro foi favorável.
“A partir dali houve uma deterioração no clima no Sul, que ficou muito seco e ultrapassou 40 dias sem chuva. No Centro-Oeste, a partir de fevereiro, vimos um excesso de chuvas, o que beneficiou lavouras mais tardias, mas prejudicou as que estavam sendo colhidas pelo excesso de umidade”, pontuou.
A produção de soja na safra 2025/2026, segundo a Agroconsult, ficará em 184,7 milhões de toneladas, um número recorde e 6,7% maior do que na safra anterior.
Desse total extra, a consultoria estima que 8 milhões de toneladas vieram por conta de mais produtividade de 3,5 milhões de toneladas pelo avanço de área.
Na produção, o avanço se dá pelo Rio Grande do Sul, que mesmo com menos área menor frente ao restante do País, cresceu a colheita depois de um ano ruim e deve trazer 4,2 milhões de toneladas a mais para a conta.
Outro estado importante para o crescimento é o Mato Grosso do Sul, que assim como o RS, também sofreu com o clima no ano passado e voltou a crescer em área.
Por lá, serão 2,5 milhões de toneladas extras para a conta final. “Mais da metade do crescimento vem da recuperação das produtividades do Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul. Em que pese o estado gaúcho ainda ter uma safra que deixou a desejar, mas é o estado que mais contribui”, acrescentou André Pessoa, sócio da Agroconsult.
A produtividade média do País ficou em 62,7 sacas por hectare, um avanço de 4,6% em um ano. Debastiani cita que o teto produtivo da safra brasileira continua a crescer por conta dos investimentos em tecnologia - genética, manejo e fertilidade do solo.
A maior produtividade média ficou com a Bahia, com 70,3 sacos de soja por hectare, um recorde para o estado. “A Bahia hoje já tem 15% da área irrigada e percebemos uma mudança interessante de migração para um sistema de produção próximo ao de Mato Grosso: o produtor entra com soja e depois com o algodão”.
“Antes, o algodão era plantado como a primeira cultura”, disse o sócio da Agroconsult. Maior estado produtor - responsável por 51,3 milhões de toneladas de soja -, o Mato Grosso registrou produtividade de 66 sacas por hectare.
Debastiani explicou que as chuvas no final da colheita trouxeram perdas para a região leste do estado. Em Goiás, a produtividade ficou em 66 sacas, Minas Gerais atingiu 68 sacas e a menor produtividade ficou com o Rio Grande do Sul, com 48,7 sacas por hectare.
“É uma sequência grande de safras frustradas. Em janeiro, olhávamos com preocupação a safra no estado pela redução dos investimentos, mas o clima em fevereiro foi determinante”.
O estado ainda teve uma discrepância interna, com uma produtividade média na região das missões, por exemplo, de 28 sacas por hectare. Na faixa norte do Rio Grande do Sul, a produtividade bateu 63 sacas, em linha com a média nacional.
A expectativa no milho
No cereal, a estimativa da Agroconsult é que 97% da área de segunda safra já está plantada. A consultoria prevê uma área de 22,9 milhões de hectares (18,5 milhões de hectares de segunda safra e 4,4 milhões de hectares de primeira safra), um número 2,7% maior do que no ano passado.
Apesar do avanço, a produção deve cair 6,2% em um ano e atingir 141,6 milhões de toneladas (114,5 milhões de toneladas de segunda safra e 27,1 milhões de toneladas na primeira).
“A segunda safra está toda em aberto. Vai depender muito da condição climática ao longo de abril e maio”, pontuou Debastiani. Segundo ele, os modelos preditivos de clima apresentam divergências importantes.
Enquanto o modelo europeu traz uma condição de chuvas favoráveis no mês que vem, o modelo americano prevê o contrário. “O aspecto positivo é que, pelas chuvas dos últimos meses, há mais umidade no solo, mas não dá pra achar que só as águas de março salvam a lavoura”, disse André Debastiani.
Resumo
- Agroconsult estimou safra 2025/26 recorde, com 184,7 milhões de toneladas, produtividade média de 62,7 sacas/ha e área de 49,1 milhões de hectares
- Mesmo com alta produção, aumento de custos (fertilizantes, frete e capital) e crédito restrito deixam margem próxima do breakeven, com produtores mais alavancados podendo operar no negativo.
- Na próxima safra, Plantio deve ficar estável, mas pode cair se guerra e restrição de crédito se intensificarem, reduzindo uso de tecnologia e investimento no campo