No agro, um documento atrasado pode decidir o destino de uma carga e também o tamanho do prejuízo. Em operações de exportação, enquanto o resultado de uma análise de qualidade não sai, caminhões ficam parados, navios esperam e custos se acumulam.
Foi justamente em cima dessa dor que nasceu a Zeit, deeptech gaúcha que quer “levar o laboratório para o campo” e transformar análises químicas, historicamente lentas, em processos que levam poucos minutos. Seis anos após sua criação, a aposta começa a ganhar escala.
A startup projeta faturar R$ 5 milhões até o fim de 2026, impulsionada pelo avanço de suas ferramentas de monitoramento para o agro e por um crescimento de 300% na base de clientes desde janeiro. Se atingir a receita esperada, o crescimento frente a 2025 seria de cinco vezes, estimou o cofundador e CEO da empresa, Renan Pardinho ao AgFeed.
Hoje, a empresa atua em duas principais frentes: análises de qualidade de commodities, especialmente farelo de soja e leite, e análises foliares feitas diretamente na lavoura.
A origem da Zeit remonta ao período em que os fundadores - Pardinho e sua sócia Paula Dalla Vecchia - ainda estavam no laboratório da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), durante o mestrado e doutorado.
Na época, realizavam análises laboratoriais de qualidade de produtos para outras empresas, como exportadoras de erva-mate, e foi aí que entenderam que o tempo da academia, da ciência, era muitas vezes diferente do timing dos negócios.
"Alguns pediam cinco dias para análises, o que considerávamos pouco tempo. Até que um gerente nos explicou que enquanto a análise não chegava a carga ficava no porto, e o aluguel desse espaço custava R$ 10 mil por dia. Aí entendi que havia uma dor nesse mercado", contou Pardinho.
O episódio virou a chave para os pesquisadores, que passaram a estudar maneiras de acelerar o processo e criar dispositivos portáteis capazes de realizar análises fora do ambiente tradicional de laboratório. A ideia de negócio da empresa aparece no próprio nome: Zeit significa "tempo" em alemão.
A empresa foi oficialmente fundada em 2020, em plena pandemia de Covid-19. Pouco depois, recebeu uma demanda do Genesis Group - plataforma de testes, inspeções, análises, certificações, monitoramento e rastreabilidade - para desenvolver uma tecnologia voltada à análise de farelo de soja. Esse é o mercado que hoje representa a principal fonte de receita da companhia.
Da parceria nasceu a Nira, joint venture entre as empresas voltada ao monitoramento da qualidade de commodities agrícolas.
A solução atua principalmente em operações de compra e exportação de farelo de soja, ajudando empresas a verificar parâmetros de qualidade e reduzir riscos comerciais. Segundo Pardinho, o serviço funciona como uma espécie de “terceira parte” na transação.
“O exportador precisa ter alguém independente dizendo qual é a qualidade da carga. Não pode ser quem compra, nem quem vende”, explicou.
Hoje, operações monitoradas pela Nira já somam mais de 250 mil toneladas em estados como Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso e São Paulo. A receita dessa vertical se divide entre o farelo de soja e o leite.
O avanço da Nira explica boa parte do crescimento recente da startup. Para além da JV, a companhia também atua com o Zeit K, ferramenta portátil voltada à análise foliar diretamente no campo.
A tecnologia permite medir níveis de potássio nas plantas em menos de cinco minutos, auxiliando produtores e agrônomos na tomada de decisão sobre fertilização.
A solução ganhou tração principalmente após a disparada dos preços dos fertilizantes nos últimos anos, intensificada pela guerra entre Rússia e Ucrânia, conta o cofundador.
“Com o custo dos fertilizantes subindo muito, o produtor precisava saber na hora se realmente precisava aplicar ou não. Isso impacta diretamente o bolso”, disse Pardinho.
Além da velocidade, a startup aposta no uso de inteligência artificial embarcada nos dispositivos para aumentar a precisão das análises.
Hoje, a Zeit opera em cinco estados: Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso e Goiás, e tem direcionado sua expansão principalmente ao Centro-Oeste.
“Tomamos uma decisão estratégica de sair do Rio Grande do Sul. O estado vive anos difíceis seguidos no agro, então começamos a acelerar nossa presença em outras regiões”, afirmou o executivo.
A próxima aposta da companhia está ligada ao milho e ao avanço das usinas de etanol. A ideia é desenvolver soluções voltadas ao monitoramento de DDG, coproduto utilizado na alimentação animal e cuja qualidade também precisa ser controlada. A expectativa da empresa é lançar ferramentas voltadas a essa cadeia já em 2027.
Enquanto amplia operações, a Zeit também faz um movimento menos comum no ecossistema de startups: reduzir a presença de investidores externos. Segundo Pardinho, a empresa recomprou participações de um fundo que havia investido ainda em 2020, quando a startup tinha valuation de cerca de R$ 2 milhões.
Hoje, os fundadores avaliam que o mercado financeiro tradicional ainda tem dificuldade em compreender o ciclo de maturação de deeptechs.
“Uma deeptech leva tempo. Muitas vezes o investidor quer retorno em cinco anos, mas esse tipo de tecnologia exige dez, doze anos para amadurecer”, afirmou. Por ora, a estratégia é crescer com geração própria de caixa, evitando novas captações em um ambiente de juros elevados.
“Se em algum momento fizer sentido captar, não vemos problema. Mas hoje preferimos crescer usando nossos próprios recursos”, completou.
Resumo
- Startup projeta receita de R$ 5 milhões em 2026 após crescimento de 300% na base de clientes desde janeiro
- Operações monitoradas pela joint venture Nira já somam mais de 250 mil toneladas de commodities agrícolas
- Empresa já atua em cinco estados e acelera expansão no Centro-Oeste mirando cadeias como soja, leite e etanol de milho