No dia seguinte ao tarifaço de Donald Trump, a cautela e as contas pautaram as principais entidades dos setores exportadores do agronegócio.

Entidades que representam as empresas e produtores em segmentos como carnes, café, suco de laranja, açúcar e etanol, que têm o Brasil entre os principais protagonistas globais, passaram esta quinta-feira, 3 de abril, tentando entender a real dimensão e contabilizar possíveis impactos da aplicação das novas regras estabelecidas pelo governo americano para os produtos que entram nos estados Unidos.

Mesmo com o documento divulgado por Trump deixando claro que as “taxas estabelecidas por esta ordem são adicionais a quaisquer outros direitos, taxas, impostos, exigências ou encargos aplicáveis a tais artigos importados” a partir de sábado, 5 de abril, as entidades ainda avaliavam qual posição tomarão.

De acordo com a Confederação da Agricultura e da Pecuária do Brasil (CNA), por mais que ainda seja cedo para avaliar perdas e ganhos, já que todos os países do globo foram taxados, algumas cadeias de exportação mais expostas ao país podem enfrentar solavancos à frente.

Na balança comercial do agronegócio entre o Brasil e os Estados Unidos, foram US$ 12 bilhões exportados e apenas R$ 1 bilhão importado em 2024.

Os destaques no setor ficam por conta do café verde e do suco de laranja, que a participação dos EUA nas importações ficou em 17% e 31% do valor total de cada um desses produtos, respectivamente, no ano passado.

Nos grãos de café, foram US$ 1,8 bilhão vendidos aos americanos no ano passado. Já no suco de laranja, US$ 1,04 bilhão.

“A elevação das alíquotas de importação sobre estes produtos pode minar a competitividade do Brasil neste mercado, impactando os rendimentos do produtor. No caso dos sucos de laranja, os EUA contam com alguma produção no mercado doméstico, que seria muito favorecida em relação à alternativa brasileira”, alertou a CNA.

O setor florestal também pode sentir algumas dificuldades, já que os EUA importou US$ 1,6 bilhão em celulose no ano passado.

Projetando o futuro em termos práticos, a CNA acredita que sucos de laranja, carne bovina e etanol podem ser os produtos mais afetados.

A entidade considera que nesses casos, o País não teria “espaço” para ganhar outro concorrente, sendo o único ou o principal país afetado.

No caso dos sucos, o Brasil responde por 90% das compras americanas, considerando o suco resfriado. Na carne bovina processada são 63% e no etanol, 75%.

Considerando um cenário que o Brasil busque outros compradores, para além dos números absolutos, a CNA ainda classificou alguns produtos como “críticos” na relação entre os dois países.

São eles: sebo bovino, obras de marcenaria ou carpintaria, madeira perfilada, substâncias proteicas, carne bovina industrializada e a categoria que chamou de “outros produtos de origem animal”.

A instituição explica que esses itens são “praticamente impossíveis de desvio para outros compradores, dado o alto grau de dependência do mercado americano”.

Em um grau mais baixo, a CNA considera como “alta exposição”, produtos como calçados de couro, sucos de laranja, café solúvel, café verde, álcool etílico, papel e celulose. Nesse caso, pode até haver absorção por outros mercados, mas com muita dificuldades.

Já fumo, açúcar refinado, carne bovina in natura e açúcar de cana foram considerados “moderados ou leves” em relação ao risco para buscar novos compradores.

As alíquotas que serão aplicadas ao Brasil ficaram no patamar base para todos os países. Mercados como China contarão com alíquotas de 34%, que ainda serão acrescidas dos 20% impostos em medidas anteriores.

A CNA relembrou que antes do anúncio da medida, os produtos do agronegócio brasileiro contavam com alíquotas nominais médias de 3,9% do valor do produto.

“Apesar do acréscimo, o Brasil estará em uma posição melhor, se comparado aos casos em que os EUA importam produtos de mercados que contarão com taxas maiores, como é o caso dos bens da União Europeia que receberão sobretaxas de 20%”, ponderou a CNA.

A confederação tentou projetar como podem ficar tarifas específicas no futuro, olhando para os patamares atuais. No suco de laranja, a taxação sairia da faixa atual de 5% para 15%, por exemplo.

Hoje, o produto com maior taxa é o açúcar, que chega a 33% no caso dos refinado e 43% no adoçante na forma sólida e bruta. Com a tarifa, podem chegar a 34% e 53%, respectivamente.

Além do timing ainda ser precoce, o governo de Trump deixou claro que pode rever e elevar algumas tarifas no futuro, caso elas “não sejam eficazes na resolução do déficit comercial geral”.

“Cabe ao governo brasileiro seguir explorando a via negociadora com os EUA para buscar mitigar as tarifas anunciadas e alcançar benefícios mútuos para ambas as nações”, pontuou a CNA, em nota.

A CNA ainda cita que instrumentos de proteção para medidas retaliatórias e barreiras unilaterais, como o projeto de lei nº 2088/2023, conhecida como PL da Reciprocidade, aprovado pelo Congresso e que seguirá para sanção presidencial, “devem ser utilizados apenas após o esgotamento dos canais diplomáticos, para defender os interesses brasileiros”.

“A CNA defende o livre comércio por meio de acordos que diversifiquem mercados, aumentem a renda dos produtores e ampliem o acesso de produtos agropecuários ao consumidor”, finalizou a confederação.

Outra entidade representativa do setor, a Sociedade Rural Brasileira (SRB) também emitiu nota na quinta-feira condenando a posição americana por ferir o livre comércio, “criando barreiras que impactam as relações comerciais internacionais e podem gerar desdobramentos no longo prazo”.

A SRB lembrou, entretanto, que ao impor aos produtos brasileiros taxa inferior às impostas a outros grandes mercados – como União Europeia (20%), Japão (24%), Coreia do Sul (25%), Indonésia (32%) e China (34%) – a medida americana teria um outro lado da moeda: “Isso garante uma vantagem comparativa para os produtos brasileiros em relação a esses concorrentes”, diz a nora.

“A alíquota mais baixa imposta ao Brasil em comparação com outros países fortalece a posição do exportador brasileiro no comércio internacional”, ressalta.

O que dizem os setores

Nas entidades que representam cada setor, a tendência é aguardar um pouco mais e emitir posições apenas a partir de um entendimento maior dos impactos sobre cada indústria.

A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), por exemplo, prefere esperar mais um dia para se posicionar, já que ainda havia incertezas sobre a aplicação das novas tarifas.

O Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), por sua vez, informou que, por ora, aguarda a formalização da taxa e segue em contato com a National Coffee Association (NCA), entidade setorial local, para apurar os eventuais impactos.

Marcos Antonio Matos, diretor-geral do Cecafé, disse ao AgFeed que está em linha direta com o presidente da NCA, Willam Murray, para tentar uma alternativa à taxação do café brasileiro, que até agora não é tributado para entrar nos Estados Unidos.

Ele cita estudo da NCA mostrando que a cada US$ 1 gasto com café importado, outros US$ 43 são injetados na economia dos Estados Unidos – além do fato de o país não produzir o grão.

“Estamos trabalhando com o Bill (Murray) nesse assunto e questionamos qual a chance de conseguir uma exceção na tarifa, pois quem mais ganha com o nosso café são eles”, afirmou Matos. “Mas é muito ruim essa tarifa, pois vai aumentar o preço, prejudicar o comércio e a indústria”.

Dados do Cecafé apontam que os Estados Unidos foram o principal destino das exportações do café brasileiro em 2024. No ano passado, foram exportadas 8,131 milhões de sacas de café para os norte-americanos, o que representa 16,1% de todas as exportações brasileiro e um crescimento de 34% sobre 2023.

Suco de laranja

Na Associação Nacional dos Exportadores de Sucos Cítricos (CitrusBR), a indefinição é semelhante. Ibiapaba Netto, diretor executivo da entidade, afirmou que espera a avaliação do escritório tributário que assessora a CitrusBR para um possível posicionamento oficial.

O mercado norte-americano responde por 32% das exportações de suco brasileiro e as principais companhias nacionais têm operações naquele mercado.

Atualmente, os Estados Unidos aplicam uma tarifa de US$ 415 por tonelada da bebida. Pela cotação atual, por exemplo, o contrato maio, primeiro vencimento da Bolsa de Nova York, aponta um valor em torno de US$ 3.400 por tonelada.

Com a aplicação de uma tarifa adicional de 10%, seriam mais US$ 340 por tonelada – ou seja, um aumento de 82% na taxação e uma tarifa de fato de US$ 745 por tonelada de suco, ou 22% sobre o valor atual.

Os preços do suco, no entanto, têm batido níveis históricos no mercado internacional e uma eventual queda nos preços da bebida elevaria ainda mais o porcentual total de taxação, já que os US$ 415 por toneladas são fixos.

Açúcar e etanol

Já a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) informou, antes do anúncio do tarifaço, que não “faz sentido a intenção de estabelecer tarifas recíprocas entre o etanol brasileiro e americano, pois o produto nacional tem nível de emissões muito menores que o biocombustível produzido nos Estados Unidos”.

Após o anúncio, a entidade é outra que mantém o silêncio e informou que não está claro como será aplicada a tarifa para o etanol. O biocombustível braileiro é taxado em 2,5% ao entrar nos Estados Unidos, o norte-americano paga 18% para entrar aqui.

A Unica sustenta, entretanto, que o biocombustível nacional é feito de cana-de-açúcar e a pegada de carbono é muito menor do que a do etanol dos Estados Unidos, feito de milho.

No caso do açúcar, a taxação chega a 160% para todos os países exportadores, entre eles o Brasil, para o volume acima da cota de 1,17 milhão de toneladas. No entanto, os norte-americanos importaram 1,3 milhão de toneladas pagando essa tarifa na safra passada, encerrada em setembro.

Isso ocorreu porque o preço do açúcar no mercado interno local estava tão alto que ainda compensava a compra do adoçante no exterior.

Segundo José Orive, diretor executivo da Organização Internacional do Açúcar (ISO), o impacto do tarifaço de Trump sobre açúcar não vai ser grande em um primeiro momento, pois normalmente os Estados Unidos compram o açúcar necessário dentro da cota de 1,17 milhão de toneladas até o início de abril de cada ano e, depois, ficam até três meses sem aquisições.