A geopolítica se dedica ao estudo das relações de poder entre Estados e territórios e sua organização em nível mundial. Conhecer a geopolítica, hoje, nos permite compreender como a ordenação espacial do mundo evoluiu a partir de uma perspectiva política, além de permitir desenvolvimento e visão crítica dos acontecimentos atuais, como o protecionismo verde europeu.

Na outra ponta do mundo ocidental do Hemisfério Norte está a guerra tarifária de Donald Trump para a taxação de produtos importados, com a implementação do “Make America great again”(MAGA). Isso pode inaugurar novas e complexas relações geopolíticas em um mundo que passará por crescimento menor e dificuldades para a transição energética.

Em resposta às sobretaxas adotadas pela Casa Branca, a China decidiu impor restrições às importações agrícolas de produtores americanos. Os chineses anunciaram retaliações às exportações americanas de soja, milho, frango, carne bovina.

O Brasil é o único país no mundo em que o agronegócio tem a capacidade para gerar esse efeito de substituição, seja em termos de velocidade ou de escala.

Além de se colocar como uma “superpotência alimentar” e “grande exportador de sustentabilidade”, há fatores estruturais e conjunturais que posicionam o País como um fornecedor de alimentos confiável e diferenciado.

A aliança entre agro e meio ambiente dá esse diferencial de sustentabilidade ao Brasil. A materialização do posicionamento deverá decorrer de uma postura mais ativa no comércio exterior com um esforço de comunicação na ideia de “exportação de sustentabilidade”.

Talvez no rumo de uma nova ordem internacional, as medidas anunciadas pelo Governo Trump ignoram instituições e regras criadas desde o pós-guerra. Instituições surgiram sob a liderança dos Estados Unidos e da Europa (ONU, GATT-OMC, FMI), gerando abertura comercial, integrações econômicas e globalização.

Nas palavras do professor Marcos Jank, coordenador do Insper Agro Global, passamos agora por medidas unilaterais contra blocos, países, setores e empresas. As instituições foram substituídas por conversas diretas, informais, assimétricas e transacionais, um reordenamento do mundo em agrupamentos com forte componente ideológico.

Do lado estrutural, haverá uma demanda ainda maior de alimentos no mundo diante de uma importante mudança demográfica em curso no planeta.

Entre os 198 países do mundo, 184 terão declínio populacional nos próximos 25 anos. Nove, entretanto, sustentarão um crescimento “robusto” da população global: três asiáticos (Índia, Paquistão, Indonésia); cinco africanos (Nigéria, Sudão, Tanzânia, Congo, Uganda); e os Estados Unidos.

Nessa correlação, entre os 735 milhões de habitantes em desnutrição, mais da metade, ou 402 milhões, estão localizados no continente asiático, seguidos pela África, com 282 milhões de desnutridos.

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) define a insegurança alimentar como a situação em que as pessoas não têm acesso regular a quantidades adequadas de alimentos seguros e nutritivos, essenciais para o crescimento, desenvolvimento e uma vida ativa e saudável.

Diversos fatores podem causar esse problema: os alimentos podem estar fisicamente indisponíveis em um determinado país ou região, inacessíveis devido ao custo ou distribuídos de maneira desigual de alimentos entre os membros da família.

Existem quatro grandes fornecedores de alimentos no mundo. A China, por conta do tamanho de sua população e do seu mercado, é importadora líquida de alimentos. A Índia é outra grande produtora, mas com gravíssimos problemas de abastecimento hídrico e uma produção ainda muito voltada à economia de subsistência, em pequenas propriedades. Os Estados Unidos apresentam oscilações, mas não têm tanta competitividade em algumas áreas.

Quem pode responder a esse desafio? É o Brasil! É o único país que conta com “um teto retrátil para produzir com sustentabilidade”. Tem as maiores reservas hídricas do mundo e um fenômeno extraordinário, que são os rios voadores.

“A geopolítica em torno de todas essas tensões está convocando o Brasil a ser uma superpotência alimentar”, segundo o economista Marcos Troyjo, ex-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento (Banco dos BRICS).

O Brasil deve continuar expandindo sua presença no mercado de commodities agropecuárias e agroindustriais, impulsionado por safras recordes e pela crescente demanda de países emergentes, especialmente no Oriente Médio e Sudeste Asiático.

No entanto, desafios estruturais persistem, como a agregação de valor aos produtos e diversificação de mercados. Podemos nos beneficiar de tensões comerciais entre os EUA e países como China e Canadá, redirecionando parte da demanda global para sua produção agrícola.

As perspectivas de longo prazo são favoráveis ao agronegócio brasileiro, mas exigem planejamento estratégico para consolidar sua liderança global.

O crescimento sustentável dependerá da continuidade de safras expressivas, do aumento da demanda global e da capacidade de diversificar mercados, agregar valor aos produtos e fortalecer a infraestrutura logística.

Além disso, a resiliência frente a choques exógenos, como oscilações cambiais, barreiras comerciais e mudanças climáticas, será crucial para manter a competitividade. Este pode ser um plano estratégico ao Brasil, naquilo que faz com maior eficiência e competitividade.

Renato Burenallo é sócio do escritório VBSO Advogados e presidente do Instituto Brasileiro de Direito do Agronegócio (IBDA).