O setor global de celulose entrou em uma nova fase. Depois de anos de investimentos pesados em novas fábricas, as grandes empresas começam a cortar capacidade — e essa redução tende a continuar.
Esse é o alerta feito pelo banco Santander, em relatório assinado pelos analistas Yuri Pereira, Manuel Lorente e Laura Zioli, distribuído a seus clientes na segunda-feira, 14 de setembro.
No documento, o banco afirma que o mercado está deixando para trás as paradas temporárias de produção para entrar em uma etapa de fechamentos definitivos. O título do documento resume a tese central: "A racionalização da oferta começou; mais cortes de capacidade podem vir".
Os números citados pelos analistas ajudam a entender a dimensão do movimento. Desde o início do ano, as empresas anunciaram paradas e cortes que afetam cerca de 6,4 milhões de toneladas por ano de celulose, sobretudo no segmento de fibra longa.
Desse total, aproximadamente 2,4 milhões de toneladas já saíram efetivamente do mercado em 2026. E o processo vem de antes: entre 2022 e o acumulado de 2026, nada menos que 5,7 milhões de toneladas por ano de capacidade foram fechadas de forma permanente ou paralisadas por tempo indeterminado no mundo.
Segundo o relatório, trata-se da virada de ciclo de um setor que, até pouco tempo atrás, apostava na expansão.
Um ponto importante destacado pelos analistas, sobretudo para o Brasil, é que o problema atual está concentrado na celulose de fibra longa, e não na de fibra curta. O chamado softwood, produzido a partir de pinus e mais preponderante para os grandes fabricantes europeus, é o que vive o momento mais difícil, com preços fracos e excesso de produto no mercado.
Já a fibra curta (o hardwood), produzida a partir de eucalipto, que é a especialidade brasileira, estaria, segundo o banco, pressionada por outro motivo: a construção de novas fábricas, com entrada em operação prevista para os próximos anos.
Nesse sentido, o banco cita três projetos como potenciais causadores de impacto: o OKI II, da APP/Sinar, na Indonésia, com previsão de produção de 1,8 milhão de toneladas por ano a partir de 2028); o Sucuriú, investimento de US$ 4,6 bilhões da Arauco, em Inocência (MS), com início previsto para o quarto trimestre de 2027 e capacidade anunciada de 3,5 milhões de toneladas ao ano; e o Natureza, da CMPC, com aporte de US$ 4,5 bilhões em Barra do Ribeiro (RS), previsto para produzir 2,5 milhões de toneladas ao ano a partir de 2029.
Eles se somariam a outros megaprojetos já implantados ou em construção, como o Cerrado, da Suzano, já operando desde 2024 e que pode chegar a 2,7 milhões de toneladas em 2027), gerando um crescimento de oferta que, nos próximos anos, pode superar potenciais aumentos de demanda do mercado, criando um cenário semelhante ao que ocorre hoje com as fibras longas.
Estoques em alta
O Santander observa que a diferença de preço entre os dois tipos de celulose caiu para cerca de 77 dólares por tonelada em 2026, bem abaixo da média histórica de aproximadamente 145 dólares — um sinal claro de que a fibra longa está desvalorizada.
Os estoques reforçam esse diagnóstico. Nos portos chineses de Qingdao e Changshu, que são termômetros do mercado global, os volumes subiram de cerca de 1,95 milhão de toneladas em setembro de 2025 para aproximadamente 2,46 milhões em agosto de 2026.
Quase todo esse estoque é de fibra longa. Em Changshu, a fatia de softwood nos estoques saltou de 37% para algo entre 70% e 73%. Ou seja, não é, segundo o banco, um problema generalizado de celulose, mas um desequilíbrio específico do produto de fibra longa.
O que explica os fechamentos é a conta apertada das empresas. A margem da área de biomateriais da sueca Stora Enso caiu para 17%, ante 38% em 2022. Na também sueca SCA, a margem de celulose recuou para 11%. Já a norte-americana Domtar gerou apenas cerca de 1% de margem no negócio, carregando quase 2,9 bilhões de dólares em dívida líquida.
Assim, a ausência de lucro é que estaria provocando a interrupção na produção em fábricas dessas companhias. O Santander explica que essa decisão depende de três fatores: o custo de produção de cada empresa, o espaço que ela tem no balanço para aguentar o momento ruim e a possibilidade de parar de produzir a própria celulose e passar a comprar de terceiros.
Quem está no pior cenário, como a Domtar e a Mercer, que queimam caixa e já pedalaram dívidas, tende a fechar de vez. Quem tem mais fôlego financeiro, como SCA, pode apenas reduzir a produção e esperar a poeira baixar.
Para as empresas brasileiras, a leitura do relatório é, no geral, positiva, apesar de acender um sinal de alerta. Tanto que o banco recomenda a compra de boa parte dos papéis do setor.
A Suzano, maior produtora mundial de celulose do mundo, por exemplo, é citada com expectativa de desempenho superior à média, com preço-alvo de R$ 75 reais por ação, ante cerca de R$ 47 reais no momento da execução do relatório.
Como a companhia é forte em fibra curta, ela se beneficia justamente do aperto na fibra longa, que abre espaço para o eucalipto brasileiro ganhar valor. O banco ainda destaca a escala da Suzano, que, incluindo o controle de metade da Veracel, responde por 16% de todo o mercado global de celulose e por nada menos que 29% do mercado de fibra curta — num setor em que as 25 maiores empresas controlam cerca de 83% da capacidade mundial.
Entre os riscos que podem atrapalhar a companhia, o Santander lista a expansão em negócios fora do seu foco principal, uma queda na demanda global por celulose, o aumento da oferta, a alta dos custos e a valorização do real.
A Klabin, que combina produção de fibra longa e curta e é uma das líderes em embalagens de papel no país, também aparece com recomendação de compra e preço-alvo de R$ 29 por ação, bem acima dos R$ 19 atuais.
A lógica é a mesma para as duas: o Brasil tem uma das estruturas de custo mais competitivas do planeta na celulose de fibra curta, o que dá às companhias nacionais uma vantagem natural quando a fibra longa perde força e o mercado busca alternativas.
O relatório também aponta que a redução de capacidade já anunciada é suficiente para reequilibrar o mercado de fibra longa. Segundo o Santander, seriam necessários cerca de 1,2 milhão de toneladas por ano de corte para devolver ao setor uma taxa de utilização saudável de 90%, e os fechamentos já comunicados para 2026 somam aproximadamente 1,45 milhão de toneladas anuais, mais do que o necessário.
Resumo
- Santander identifica início de um ciclo de fechamento de fábricas e redução de capacidade na indústria global de celulose
- Ajuste está concentrado na fibra longa, enquanto a fibra curta enfrenta pressão com novos projetos e aumento da oferta
- Empresas brasileiras mantêm vantagem competitiva, mas expansão da capacidade exige atenção ao equilíbrio entre oferta e demanda