A placa, “plantada” à beira de uma antiga área de pastagem na zona rural do município de Prata, no Triângulo Mineiro, anuncia as “futuras instalações” de um projeto bilionário.
“Chegamos para cultivar sustentabilidade e semear oportunidades para a região!”, diz o texto impresso sobre o fundo verde no outdoor fincado ali há quase dois anos.
Ele anuncia a chegada da Prata Bioenergia, retratado como um dos maiores projetos agroindustriais e a primeira planta de açúcar, etanol e co-geração de energia a surgir naquela região nos últimos 15 anos.
Uma pedra fundamental chegou a ser lançada, em agosto de 2024, pelos três grupos tradicionais que se uniram na empreitada, o Queiroz de Queiroz, o JP Andrade e o Boa Esperança, todos com renome na agropecuária e até no setor sucroenergético – os dois primeiros são sócios na usina Cerradão e o terceiro é um importante produtor fornecedor de cana-de-açúcar.
Na ocasião, o cronograma estabelecia que as obras da nova planta, com previsão de geração de 600 empregos diretos, começariam naquele local em janeiro de 2026, materializando a parte mais custosa do projeto estimado em R$ 1,2 bilhão.
Mas não há e não haverá, por enquanto, nenhum movimento nesse sentido. Se, por um lado, houve progressos no campo agrícola, com o plantio de cana em cerca de 7 mil hectares antes ocupados por pastos quase improdutivos, a etapa industrial do negócio foi engavetada à espera de condições mais favoráveis.
“A gente está com o projeto em andamento”, afirmou ao AgFeed Raphael Queiroz de Queiroz, diretor agrícola do grupo que tem seu sobrenome e que integra a sociedade na Prata Bioenergia.
“O projeto não foi abandonado, mas continua de forma desacelerada, diferente do que estava no momento em que foi lançado”.
Uma mudança brusca de cenário econômico e político, segundo a visão dos sócios, justifica o novo ritmo, mais lento, da implantação da Prata Bioenergia.
Olhando especificamente para o setor sucroenergético, Queiroz cita a os preços retraídos do açúcar no mercado internacional e do etanol internamente, “apertando as margens do setor”.
“O setor de açúcar e etanol no momento está no momento de baixa, então é supernatural e recomendado que as empresas tenham prudência, tenham responsabilidade”, afirmou.
“Esse momento de desacelerar e atrasar a construção é realmente uma tomada de decisão prudente, responsável, para a gente estar apto, estar robusto, para a hora que o cenário ficar claro e a gente continuar”.
Ele enfatiza ainda mais, entretanto, que “o cenário macroeconômico do País mudou bastante”. “A instabilidade política e as taxas de juros mudaram muito do momento do lançamento para o momento que está hoje”.
De fato, em agosto de 2024, quando uma cerimônia reuniu no terreno reservado às “futuras instalações” representantes dos três sócios e autoridades como o vice-governador de Minas Gerais, Professor Mateus, a taxa Selic estava no patamar de 10,5%, bem abaixo dos atuais 15%.
Já o clima político não está tão diferente, a não ser pela aproximação das eleições presidenciais, que, na visão de Queiroz, podem definir uma retomada mais rápida, ou não, dos investimentos. Ele não esconde sua preferência por um candidato de oposição ao governo Lula.
“Se eu tivesse uma garantia que um Ratinho Jr., um Flávio Bolsonaro, ganharia, eu estaria mais otimista para te dar um prazo mais curto”, disse. “Antes da eleição, com certeza, a gente não tem condições de fazer uma previsibilidade”.
Assim, está definido na Prata Bioenergia é de que não haverá movimentação nas obras da nova usina ainda em 2026, o que posterga em pelo menos um ano o cronograma inicial.
Inicialmente, a previsão é de que a usina do grupo começasse a operar em 2028, com a moagem, na primeira fase, de 2,5 milhões de toneladas de cana. A expectativa é de que chegasse a um processamento para 3,2 milhões de toneladas de cana em 2029.
Agora, segundo disse ao AgFeed uma fonte que acompanha o projeto de perto, é pouco provável que comece a funcionar antes de 2031.
Por enquanto, segundo Queiroz, a companhia pretende aproveitar o adiamento para “clarear” o projeto industrial, avaliando inclusive a possibilidade de incluir o etanol de milho nos seus panos.
“Talvez as duas juntas seja o projeto mais viável”, refletiu. “Porque a de milho sozinha também tem as suas dificuldades de biomassa, de ficar refém do mercado de milho, que não é ‘linkado’ ao mercado de etanol”.
O compasso de espera também permite, segundo o empresário, avançar em procedimentos burocráticos e no terreno agrícola. Recentemente, de acordo com Queiroz, a Prata Bioenergia recebeu a licença de instalação e a outorga d'água, dois passos importantes para, no momento em que decidir retomar o projeto industrial, poder reacelerar.
“O nosso foco nesse momento é a expansão da área agrícola”, afirmou. Segundo ele, já foram investidos R$ 150 milhões na operação, que envolve um total de 12 mil hectares, entre próprios e arrendados, dos quais 7 mil já receberam mudas de cana.
Além disso, a Boa Esperança tem outros 18 mil hectares de grãos dentro da área de ação da Prata Bionergia. “Então, hoje a gente tem praticamente 30 mil hectares abertos, sendo 7 mil já com cana”, resumiu.
Os novos canaviais foram plantados entre fevereiro e abril de 2025, o que significa que atravessarão, nos próximos meses. Sua primeira colheita. A cana produzida será fornecida a três clientes com plantas na região: BP Bioenergy, Coruripe e a própria Cerradão, pertencente a dois dos sócios da Prata.
“A gente montou uma frente de colheita, já está formando operadores”, disse Queiroz. “A gente está ficando pronto para o momento em que o cenário, tanto do setor quanto do país, sinalizar que é a hora da construção começar”.
Até o momento, segundo ele, os investimentos foram feitos com capitais próprios dos três sócios, que possuem participações iguais na Prata Bioenergia.
Ele revelou, no entanto, que a companhia está pleiteando recursos da Ecoinvest, linha de investimento aberta pelo governo federal para financiar projetos de conversão de pastagens degradadas. É esse, justamente, o caso das áreas agora cultivadas pela empresa.
Além da conclusão dos 7 mil hectares de cana, a Prata estuda também avançar com outros cultivos, como soja e sorgo.
“A gente acredita muito no setor, sabe que todos os setores são de baixos e altos”, pontuou.
Resumo
- Prata Bioenergia desacelera projeto de R$ 1,2 bi e adia a construção da usina no Triângulo Mineiro, citando juros elevados, instabilidade política e margens pressionadas no setor.
- A etapa agrícola segue avançando, com R$ 150 milhões investidos e 7 mil hectares de cana já plantados, cuja produção será destinada a usinas da região
- O grupo avalia ajustes no projeto industrial, incluindo etanol de milho, e projeta retomar a construção apenas quando o cenário econômico for mais favorável